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Mudança climática e ações do homem ameaçam oásis em deserto da Califórnia

Rick Loomis/The New York Times
O sistema do rio Amargosa, no sul de Nevada e no leste da Califórnia, atravessa o Deserto de Mojave, dando vida a plantas e animais que não são encontrados em nenhum outro lugar do mundo Imagem: Rick Loomis/The New York Times

Jim Robbins

The New York Times, em Shoshone (Califórnia)

01/01/2018 04h00

O Amargosa, um rio fino que atravessa uma paisagem árida, nasce a partir de algumas fontes que borbulhar da terra no Oasis Valley, perto de Beatty, em Nevada.

Logo depois, o córrego desaparece no subsolo e flui para o sul, escondido por mais ou menos 160 quilômetros até reaparecer de novo perto deste vilarejo do deserto onde moram 31 pessoas.

Daqui, o Amargosa, apelidado de rio escondido, flui alternativamente sobre e sob a terra, misturando-se com águas subterrâneas e aquecidas por fontes geotermais em um complexo quebra-cabeça debaixo da terra. O rio é alimentado por uma variedade de nascentes e riachos e, embora seu nome signifique "amargo" em espanhol, a água é doce o suficiente para cultivar uma série de pérolas biológicas ao longo de seu curso.

"São raros os lugares no deserto em que a água vem à superfície, e é neles que a biodiversidade é grande. Esses são os verdadeiros oásis", afirma Sophie Parker, cientista sênior da Nature Conservancy em Los Angeles, que ajudou a comprar e proteger áreas-chave ao longo do Amargosa.

O Refúgio Nacional de Vida Selvagem Ash Meadows, parte do sistema do Rio Amargosa, possui mais espécies endêmicas --aquelas que não são achadas em nenhum outro lugar-- do que qualquer outra região dos Estados Unidos, superado apenas por outra área na América do Norte, um oásis em um deserto do México. Algumas espécies de caracóis e peixes existem em apenas uma lagoa na região do Amargosa. 

Rick Loomis / The New York Times
Mapa do Refúgio Nacional de Vida Selvagem Ash Meadows mostra o caminho do rio Amargosa Imagem: Rick Loomis / The New York Times

Tudo isso em um lugar que é um dos mais quentes e secos da América do Norte, com poucos centímetros cúbicos de água de chuva anualmente e temperaturas que em geral vão além dos 38 ºC. Próximo daqui, o Death Valley atingiu o recorde de temperatura mais alta do mundo em todos os tempos: 56,6 ºC em 1913.

Várias das características mais impressionantes da região --fontes profundas de água turquesa, piscinas aquecidas, jardins suspensos-- são protegidas em Ash Meadows, onde 40 mil litros de água são despejados nas piscinas do deserto a cada minuto.

O Amargosa é protegido por quase 25 quilômetros acima da terra. Juntar os oásis necessários para conservar espécies diferentes aqui levou décadas. 

O refúgio Ash Meadows, por exemplo, havia sido escolhido como o local onde seriam construídas as moradias do empreendimento Calvada Lakes --incluindo mais de 30 mil casas, campos de golfe e shoppings abertos-- quando a Nature Conservancy comprou as terras em 1984 e doou-as ao governo federal. Desde então, conservacionistas e funcionários do refúgio vêm trabalhando para restaurar a paisagem.

Existem ameaças persistentes ao longo do Amargosa, apesar da proteção. As equipes de trabalho já removeram quilômetros de árvores de tamarisco, por exemplo, porque elas usam e transpiram uma grande quantidade de água do rio. Mas as proteções federais e privadas são inúteis contra a maior ameaça de todas: o bombeamento de água subterrânea do gigantesco aquífero que alimenta o Amargosa, o que eventualmente pode secar o rio e acabar com o delicado ecossistema que ele mantém.

Grande parte do sistema de água subterrânea regional que alimenta essas áreas protegidas vem dos flancos das Montanhas Yucca, a cerca de 110 quilômetros ao norte. O governo Trump e o congresso estão trabalhando para retomar esforços até então moribundos para enterrar resíduos nucleares em um repositório na região.

Embora haja preocupação de que um dia --séculos ou milênios no futuro-- o lixo radioativo possa contaminar a água da bacia hidrográfica do Amargosa, a ameaça mais imediata é a necessidade de bombear água subterrânea suficiente para manter a enorme infraestrutura do repositório.

"Isso exigiria milhares de metros cúbicos de água por ano por até um século", diz Roberto J. Halstead, diretor executivo da Agência para o Desenvolvimento Nuclear de Nevada, que se opõe ao repositório da Montanha Yucca. "Isso com certeza iria ameaçar a sustentabilidade dos recursos subterrâneos do Vale do Amargosa."

O crescimento residencial em Parhump, Nevada, já aumentou bastante, e a única fonte de água para os poços perfurados na região do Amargosa é o sistema subterrâneo. Além disso, existem vários esforços no congresso para enfraquecer as proteções da lei federal Ato das Espécies Ameaçadas, o que segundo os especialistas pode afetar os esforços de conservação feitos aqui.

O grande Deserto do Mojave é uma paisagem lunar, com lama endurecida e rochas, sem vegetações em vários locais e tão estéril que partes dele foram usadas como cenário do planeta deserto ficcional de Tattoine em alguns dos filmes da saga "Guerra nas Estrelas".

Ao longo do Amargosa, no entanto, os salgueiros e as mesquitas formam arbustos espessos, fornecendo moradia para centenas de espécies de pássaros ameaçados. Um ameaçado roedor do Amargosa depende do habitat do pântano ao lado dos trailers e barracos da cidade de deserto Tecopa. A erva chamada de alkali mariposa lily e a estrela de fogo ash meadows estão entre as plantas que crescem apenas ao longo deste rio.

Pequeno peixe em perigo  
Rick Loomis / The New York Times
Os chamados peixes-filhote azuis vivem nas rasas águas do Refúgio Nacional de Vida Selvagem Ash Meadows Imagem: Rick Loomis / The New York Times

A maior ameaça do bombeamento da água subterrânea, no entanto, é para várias espécies de pequenos peixes-filhote azuis iridescentes, assim chamados porque parecem brincar uns com os outros como cachorrinhos.

O tamanho do peixe-filhote camufla sua história longa e controversa. Uma espécie de filhote habita uma pequena e profunda rachadura entre as rochas em apenas uma lagoa que hoje está fechada por cercas de aço e arame farpado e vigiada por câmeras e outros equipamentos de segurança.

Cerca de dez mil anos atrás, uma série de lagos conectados e rios alimentados pelo Lago Mono cobria esta região. À medida que as águas recuaram os peixes acabaram separados em lagoas isoladas e faixas do rio.

Ao longo do tempo, essas populações isoladas de peixes se adaptaram a condições desérticas tão difíceis que os animais agora são considerados extremófilos, como os pequenos caranguejos que se apegam a aberturas vulcânicas nas profundezas do oceano.

"Já vi peixes-filhotes em 15 milímetros de água morna, deitados de lado comendo algas", conta Len Warren, gerente de projetos do rio da Nature Conservancy.

O lendário peixe-filhote de Devil's Hole é a espécie de peixe mais rara do mundo e uma das primeiras nos Estados Unidos a ser listada como ameaçada. Eles vivem dentro de uma lagoa, em uma caverna de calcário tão profunda que os mergulhadores não foram capazes de encontrar o fundo.

Mas os cerca de 150 filhotes que moram aqui se reproduzem e morrem quase que totalmente em uma prateleira de pedra não muito maior do que uma mesa grande, que fica vários centímetros abaixo da superfície, em água a 34º o ano todo e com níveis baixíssimos de oxigênio. É o menor habitat de qualquer espécie vertebrada ameaçada do mundo. A população de Devil's Hole vem caindo nos últimos anos, e a existência do peixe-filhote permanece precária.

O esgotamento das águas subterrâneas é a maior ameaça. Nos anos 1960, o bombeamento em uma fazenda próxima começou a secar a lagoa. Uma briga legal sobre os direitos à água e as espécies do Devil's Hole chegou até a Suprema Corte. Em 1976, os juízes confirmaram os direitos de água do governo federal em territórios nacionais preservados, e o bombeamento foi interrompido.

O bombeamento feito em regiões mais distantes, porém, continuou --o grande aquífero subterrâneo é a única fonte de água neste deserto-- e especialistas dizem que há fortes evidências factuais de que os níveis de algumas nascentes estão caindo.

O impacto das mudanças climáticas 
Rick Loomis / The New York Times
Trilha próxima ao rio Amargosa, que corre entre o Vale da Morte e o deserto de Mojave Imagem: Rick Loomis / The New York Times

As mudanças climáticas também desempenham um papel. A temperatura média no Mojave aumentou cerca de 1,5 ºC nos últimos anos, e o aquecimento de mais meio grau mais ou menos pode impedir completamente os peixes-filhote do Devil's Hole, que já possuem capacidades reprodutivas reduzidas, de se propagarem.

A geologia do aquífero que mantém esses oásis é complexa e mal compreendida. Um terremoto de magnitude 8.1 a quase 2.500 quilômetros de distância, no México, em 8 de setembro, de alguma maneira fez com que ondas de 1,5 metro lavassem a lagoa do Devil's Hole e destruíssem grande parte da comida dos peixes-filhote. Até mesmo terremotos no Japão e nos mares do Sul já abalaram a lagoa.

Em 2016, três moradores quebraram a cerca que protege o Devil's Hole e atiraram na lagoa, tiraram as roupas para mergulhar na água quente, vomitaram no lago e deixaram roupas de baixo neste habitat importante para os peixes. Eles mataram pelo menos um. Foram filmados pelas câmeras, presos e acusados de crimes capitais.

No começo dos anos 2000, biólogos mataram acidentalmente um terço dos cerca de 250 peixes-filhote quando colocaram armadilhas nas proximidades e uma enchente as lançou no buraco.

Os números chegaram à casa dos 30 duas vezes, entre elas em 2013, de uma quantidade de 400 a 500 nos anos 1960. Não se sabe se uma população tão pequena pode já ter perdido a variabilidade genética necessária para se manter.

Em 2013, foi inaugurada uma instalação de criação de peixes de 415 mil litros de água com uma réplica em fibra de vidro do Devil's Hole, a um custo de US$ 4.5 milhões, para criar uma "população salva-vidas" no caso de uma espécie acabar por causa de um resfriamento momentâneo ou algo assim na natureza. Eles são monitorados cuidadosamente e alimentados com mirtilos orgânicos e coentro.

"Assim que eles colocam os ovos, todos os peixes, inclusive os pais, tentam comê-los", conta Olin Feuerbacher, chefe dos aquaculturistas daqui. Hoje existem cerca de 100 peixes-filhote no aquário.

Habitat e fontes de água quente

O número de espécies ameaçadas e extintas aqui ressalta a precariedade da vida no Mojave. O peixe-filhote de Tecopa está extinto porque uma instalação de fontes de água termal local secou seu habitat. O pântano do ameaçado roedor do Amargosa --existem apenas poucas centenas do animal-- foi drenado acidentalmente por uma equipe que construía uma estrada no ano passado. O pântano seco pegou fogo, destruindo de 10 a 20% do habitat do roedor.

Rick Loomis/The New York Times
Fonte no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Ash Meadows, alimentada por um aquífero que também abastece o rio Amargosa Imagem: Rick Loomis/The New York Times
  Os números desses roedores são tão baixos que a espécie está sendo criada em cativeiro na Universidade da Califórnia, em Davis. Ainda assim, o Escritório de Gerenciamento de Terras, que administra este refúgio, permite que as pessoas mergulhem em fontes termais próximas ao habitat do roedor.

Perder o Amargosa seria um balde de água fria nos planos de Susan Sorrells, dona da Shoshone --bar, restaurante, motel e casas-- e de 810 hectares em volta dela. Seu bisavô fundou a vila como um centro comercial para dar apoio às minas de bórax daqui nos anos 1800.

Atrás do estacionamento de trailers de Sorrells estão várias lagoas, habitat do ameaçado peixe-filhote de Shoshone, que ela melhorou como uma atração para os ecoturistas --observadores de pássaros, motoqueiros, trilheiros e "turistas de altas temperaturas", especialmente da Europa, que vêm experimentar os dias abrasadores do deserto, geralmente comprando uma dúzia de ovos para levar ao Death Valley e cozinhar em um estacionamento fervente de lá.

Quando começou a reforma, Sorrells descobriu os últimos 80 peixes-filhote de Shoshone --uma espécie até então supostamente extinta nos anos 1960-- vivendo em um fosso de concreto. Agora, com uma série de lagoas reformadas, existem milhares.

"Coloquei muito dinheiro em trilhas e pântanos e na proteção de espécies. Detestaria ver alguma coisa acontecer a elas", afirma Sorrells.