Naso, o pequeno "reino" indígena que resiste nas montanhas do Panamá

Por María M.Mur.

Da Efe, no Panamá

  • Soposo/Divulgação

    Naso, o "último reino indígena" da América

    Naso, o "último reino indígena" da América

Afastado da riqueza das monarquias europeias e dos impérios pré-colombianos, o "último reino indígena" da América resiste nas montanhas do Panamá apesar da perda de suas tradições, da invasão de terras e do avanço das hidrelétricas.

O pequeno reino dos Naso, um dos sete povos indígenas que ainda existem no Panamá, fica nas margens do rio Teribe, em um território de 1.600 quilômetros quadrados a oeste do Panamá, local que ainda não conta com luz elétrica, água potável e muito menos hospitais e linhas telefônicas.

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Seus 5 mil habitantes vivem espalhados em 20 aldeias semi-isoladas na exuberante selva de Bocas del Toro, uma província do Caribe panamenho que faz fronteira com a Costa Rica. Chegar até elas se traduz em uma viagem por trilhas rurais e rios, que pode levar quase 12 horas desde a capital do país.

Ao contrário de outras etnias, os naso se organizam desde tempos imemoráveis em uma espécie de monarquia parlamentar, liderada por um rei com trono, palácio, coroa e cetro.

"Eu não tenho poderes infinitos. Não posso fazer nada sem consultar meu povo e não tenho o dinheiro que tem o rei da Espanha", brinca o rei Reynaldo Alexis Santana durante uma visita da Agência Efe à aldeia de Bonyic, a mais próxima da civilização.

A dinastia Santana é a que reina há pelo menos dois séculos. O trono costumava passar de pais para filhos, mas há alguns anos os próprios súditos são quem escolhem o monarca entre os membros da família real que decidam concorrer às "eleições" e os que, além disso, têm poder para destituí-lo.

O atual rei concorreu em 2011 contra um primo e um tio.

"Sou o rei que mais jovem chegou ao trono. Me candidatei por pura casualidade", reconheceu o monarca, enquanto escova as plumas de águia de sua coroa e se prepara para posar para uma foto.

O rei se apoia para governar em um conselho assessor integrado por dirigentes de todas as comunidades e nas autoridades tradicionais de justiça, que resolvem simples problemas do dia a dia e que foram eliminando penas ancestrais como o cepo ou o "bunker", um buraco na terra onde as jovens que não obedeciam suas mães eram colocadas.

Os naso se dedicam basicamente à agricultura de subsistência e vendem o pouco excedente que colhem de banana, mandioca e inhame em Chanquinola, a cidade mais próxima ao reino indígena.

Como acontece nos demais povos indígenas do Panamá, muitos jovens emigraram para as cidades fugindo da extrema pobreza, o que faz com que as tradições venham se perdendo. O avanço das igrejas evangélicas também está alterando as crenças ancestrais.

"Restam poucos jovens que falam naso e quase nenhum sabe que nascemos de um grão de milho", lamentou Rosibel Quintero, uma mulher de sorriso fácil que veste o traje típico e que quer construir uma palhoça para hospedar os poucos e aventureiros turistas que chegam ao reino.

Os naso estão nas manchetes nos últimos dias porque o Parlamento panamenho aprovou no dia 25 de outubro uma lei que delimita seu território, reconhece seu sistema de governo e lhes dá autonomia para controlar seus recursos naturais, mas que ainda tem que ser sancionada pelo presidente para entrar em vigor.

"Não vamos criar uma pequena República. Somos panamenhos e reconhecemos a Constituição, mas também temos as nossas próprias leis e queremos ser donos das nossas terras", diz José Smith, um respeitado plantador de banana da comunidade San San Druy.

A criação deste território autônomo, que se for oficializado seria a sexta comarca indígena do Panamá, é uma reivindicação que vem desde o tempo do rei Lázaro, o soberano mais querido e o que possivelmente mais marcou a história recente deste povo.

O outro rei que deixou sua marca no reino, neste caso para o mal, é o rei Tito, deposto por permitir a construção de uma hidrelétrica nas sagradas águas do rio Teribe.

"Nenhum Governo se interessou pelo nosso bem-estar. A comarca é o mecanismo que vai nos permitir criar mais oportunidades para o nosso povo", assegurou o rei, convencido de que a sobrevivência do que chama o último reino indígena da América depende da sanção dessa lei.

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