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Com Bolsonaro, liberação de agrotóxicos cresceu 42%, diz estudo

Repórter Brasil
Imagem: Repórter Brasil

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

17/05/2019 04h00Atualizada em 17/05/2019 07h33

A liberação de agrotóxicos para uso em lavouras brasileiras aumentou 42% nos primeiros quatro meses do governo Jair Bolsonaro (PSL) na comparação com o mesmo período de 2018. De acordo com levantamento do Greenpeace a que o UOL teve acesso, trata-se do maior volume de liberação de pesticidas da história no país --em relação ao mesmo período de 2010, a alta é de 922%.

Entre o dia 1º de janeiro e 30 de abril, o governo federal aprovou a utilização de 166 novos agrotóxicos, 42% a mais do que os 117 pesticidas liberados no mesmo período do ano passado. Segundo o levantamento, que contabilizou as aprovações publicadas no Diário Oficial da União, as autorizações começaram a crescer em 2016 (quando houve 277 no ano), aumentou ainda mais em 2017 (405) e atigiu o recorde em 2018, com 422 produtos no último ano do governo Michel Temer.

O número do ano passado, que já tinha sido recorde, deve ser superado em pouco tempo. O atual governo já acatou a avaliação de outros 365 pedidos de registro, que se aprovados, chegarão à marca de 531 novos pesticidas à disposição do agronegócio. "O governo pode acatar ainda mais pedidos até o fim do ano. Tudo indica que podemos fechar 2019 como o ano que mais se liberou veneno no país", acredita Iran Magno, responsável pela área de Agricultura e Alimentação do Greenpeace.

As liberações neste ano são tantas que, de janeiro a abril, elas já superam as aprovações anuais de 2015 (139), 2014 (148), 2013 (110), 2012 (168), 2011 (146) e 2010 (104).

Quando se comparam apenas os primeiros quatro meses do ano, 2019 supera todos os anos anteriores. Em 2017, foram aprovados 95 pesticidas de janeiro a abril. No ano anterior, 39. Em 2010, foram 18, um aumento de 922% em relação a este ano.

Pesticidas "altamente tóxicos"

Dos produtos liberados neste ano, o estudo indica que 44% são "altamente ou extremamente tóxicos" e apenas 6% deles são biológicos. Nessa cota, estão inclusive agrotóxicos proibidos na União Europeia: 28% de tudo o que foi chancelado em no início deste ano.

O ritmo de aprovações é sem precedentes. O que também assusta é que quase metade desses produtos são muito tóxicos. Vai ter mais veneno no prato do consumidor, mais veneno contaminando os trabalhadores do campo e o meio ambiente Iran Magno, do Greenpeace

O único ingrediente ativo inédito no Brasil, o Sulfoxaflor, aprovado em janeiro, tem seu uso liberado com restrições nos Estados Unidos justamente em razão do potencial prejuízo às abelhas, os principais polinizadores naturais. Mas o Fipronil, presente em outro produto aprovado recentemente, também é "nocivo para as abelhas e outros polinizadores", diz o Greenpeace.

Como o governo aprova?

Para que um pesticida seja aprovado pelo governo, ele precisa passar por três instâncias, explica Magno. O Ibama, ligado ao Ministério do Meio Ambiente, concede a salvaguarda ambiental. A Anvisa, atrelada ao Ministério da Saúde, decide se o produto prejudica a qualidade dos alimentos, enquanto o Ministério da Agricultura faz a avaliação agronômica, sobre "como ele performa no campo". "Se qualquer instância vetar, o produto não é liberado", diz.

Magno explica que o lobby do agrotóxico é feito pela bancada ruralista, que começou a ganhar espaço no governo Temer. Foi quando o PL 6299/2002, apelidado por ambientalistas de Pacote do Veneno, foi aprovado em comissão especial da Câmara dos Deputados e está pronto para ser aprovado no plenário.

A atual gestão está com o pé no acelerador e não dá sinais de que pretende mudar. Enquanto a Europa restringe o uso de agrotóxico, o Brasil faz o oposto. A gente está ficando pra trás
Iran Magno, do Greenpeace

Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou até o fechamento da reportagem.

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