Topo

Iguaria na China, 'grude' atrai chineses à Amazônia com mercado milionário

Pescadores descarregam pescada-amarela no cais de Vigia (PA). Do peixe, é extraída a bexiga-natatória, conhecida como grude na região Imagem: Sarita Reed/Diálogo Chino

Lulu Ning Hui e Sarita Reed

Do Diáologo Chino*

21/01/2022 04h00

São 7h em meados de outubro, e Belém atinge seu pico de umidade. No mercado Ver-o-Peso, uma grande variedade de alimentos é ofertada desde o amanhecer, incluindo peixes capturados no rio Amazonas e nos mares próximos.

Cláudio, que vende frutos do mar há 30 anos, tira as vísceras e limpa os peixes, mas mantém suas bexigas natatórias, o órgão do peixe que controla a flutuabilidade do nado, conhecido na região como "grude". Moradores não comem esse órgão, mas "clientes veem a bexiga e sabem que o peixe é fresco".

Em Vigia (PA), Arlindo Araújo, dono de um barco, segura uma bexiga natatória seca (esq.) e outra in natura (dir.) Imagem: Sarita Reed/Diálogo Chino

A pescada-amarela, um dos peixes mais caros ali, é distribuída já eviscerada. Sua bexiga natatória sequer chega ao mercado. "Já a venderam há muito tempo", diz Cláudio. A carne custa cerca de R$ 20 o quilo, mas sua grude é negociada a R$ 2.800 o quilo.

A bexiga natatória de algumas espécies não vale um centavo, enquanto outras são vendidas a preços exorbitantes. "Todas são vendidas para a China", afirma ele.

Muitos peixes vendidos em Belém vêm de Vigia, um porto pesqueiro mais ao norte do estado. A cidade de 55 mil habitantes fica às margens da Baía do Marajó. Barcos que saem para o mar pela baía logo chegam ao oceano Atlântico, onde a água doce se funde com a salgada —o que significa um bom lugar para pescar.

Quando pescadores jogam suas redes e conseguem capturar a pescada-amarela, é como se tivessem encontrado uma joia. "É como ouro no mar", dizem, referindo-se ao brilho da espécie. O peixe, abundante na costa do Pará, há muito é associado ao ouro. Mas só recentemente se tornou valioso.

Os preços das bexigas natatórias dos peixes machos e fêmeas são diferentes —a dos machos valem mais.

Na China, a bexiga natatória seca é considerada fonte de recursos medicinais, que variam conforme espécie, tamanho, idade e origem do peixe. Em razão disso, a captura da bexiga natatória da pescada-amarela para exportação torna-se cada vez mais uma fonte vital de renda para pescadores na costa amazônica.

Para especialistas, o peixe —e a indústria pesqueira em geral— pode ser uma alternativa de menor impacto para o bioma amazônico, sobretudo em relação a produções como a de carne e de grãos, grandes vetores de desmatamento.

Mas a falta de pesquisas, regulamentação e fiscalização podem prejudicar o potencial de longo prazo da bexiga natatória e, como qualquer "corrida pelo ouro", é provável que se esgote.

Venda de pescada-amarela em mercado de Bragança (PA) Imagem: Sarita Reed/Diálogo Chino

Águas turvas no comércio da grude

Especialistas alertam que investigar o comércio de grude é "sensível". Tem algo "a ver com os enormes lucros", diz um pesquisador local que pediu para não ser identificado.

As cadeias de abastecimento entre a Amazônia e o mercado final do outro lado do mundo não são complexas. A bexiga natatória é frequentemente retirada do peixe, limpa e seca enquanto o barco ainda está no mar.

O proprietário do barco então a vende —às vezes diretamente aos exportadores, mas mais frequentemente ao primeiro de uma série de compradores intermediários. O exportador envia a grude para Hong Kong por via aérea ou marítima.

Comerciantes relatam que algumas empresas exportadoras equipam com vidro à prova de balas os veículos que transportam as bexigas natatórias, e que compradores chineses têm sido alvo de grupos criminosos locais.

A maior parte do lucro no Brasil vai para atravessadores e exportadores.

Fachada de empresa compradora de grude em Vigia (PA) Imagem: Sarita Reed/Diálogo Chino

Mercado em expansão e chegada de chineses

Marcius Santos, 46, é um empresário local que vem de uma família de pescadores. Em 2018, ele se uniu a Huang Wei, empresário chinês da província Jiangmen, para exportar bexigas natatórias.

O armazém deles fica em Bragança, cidade costeira ao norte do Pará. Bexigas natatórias de todas as formas e tamanhos, limpas e secas, repousam em sacos esperando para serem transportadas de avião para Hong Kong.

"O mercado na China é enorme. Se houver mercadorias, eles comprarão", diz Huang, que faz negócios no Brasil há sete anos. "No início, eu comprava um quilo por cerca de R$ 1.000. Agora custa R$ 3.000, mas na China os preços não mudaram tanto."

Ele diz que, com mais empresas competindo por uma fatia do mercado, os lucros não são os que costumavam ser, então eles os compensam movimentando maior volume.

Imagem: Diálogo Chino

Santos diz que o Pará tem mais de dez empresas como a dele, e muitos compradores intermediários. Um deles, Ilto Silva compra bexigas natatórias in natura em cidades próximas e as leva a uma fazenda para serem limpas e secas antes de vendê-las a exportadores.

"Todo mundo vê os preços altos e acha que é fácil ganhar dinheiro", diz ele. "Mas quando você começa, percebe como a concorrência é acirrada. Além disso, mais empresários chineses estão chegando."

No passado, havia talvez apenas uma dúzia de pessoas no setor, diz Santos. Agora, estima que sejam entre 400 e 500. O súbito aumento da pesca, impulsionado pelo comércio da bexiga natatória, preocupa.

"Ninguém sabe quantas pescadas-amarelas estão sendo capturadas", diz ele. "Quase todas as indústrias extrativas devem ser ordenadas, mas aqui no Brasil a gente espera primeiro o problema estourar para depois arrumar."

Ameaça da sobrepesca

Em resposta a pedido feito via LAI (Lei de Acesso à Informação), o governo federal diz não ter dados sobre quantas bexigas natatórias são coletadas tampouco sobre quantos pescadores atuam na coleta.

Dados oficiais do Brasil não listam as exportações de bexiga natatória por espécie. Não há sequer um código específico para a bexiga natatória nos dados de exportação —ela aparece junto a cabeças e caudas de peixe, que têm pouco valor comercial.

Embora os dados brasileiros não sejam precisos, eles dão uma ideia do tamanho do mercado —o que pode ser comprovado ao compará-los com os dados de importação de Hong Kong.

Entre 2015 e 2020, 20 mil toneladas de bexigas natatórias foram importadas por Hong Kong, com um valor declarado de 14 bilhões de dólares de Hong Kong (R$ 9,95 bilhões).

As importações para esse período vieram de mais de cem países. O Brasil foi o maior entre eles, com 3.300 toneladas no valor de 3 bilhões de dólares de Hong Kong (R$ 2,13 bilhões). Ao todo 95% tem como origem o Pará. O Amapá também produz grude, mas a maioria é exportada via Pará.

Em 2020, o Brasil exportou 637 toneladas de bexiga natatória, um aumento de 398% em relação a 2012, quando 127 toneladas foram exportadas (os dados anteriores a 2012 não estão disponíveis).

Muitas lojas de frutos do mar secos em Hong Kong vendem bexigas natatórias do Brasil a preços altos Imagem: Lam Chun Tung/Diálogo Chino

Bianca Bentes, professora do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia da Universidade Federal do Pará, diz acreditar que o boom do comércio de pescada-amarela esteja ligado a quedas na captura desde 2001 da piramutaba, uma espécie de bagre. "Todos que estavam nesse comércio migraram para a grude."

Há 30 anos, Bentes conseguia encontrar pescadas-amarelas de 2,5 m no mercado. Agora um peixe de 1,5 m parece grande: "Esse é um sintoma clássico da sobrepesca."

Espécies ameaçadas em outras regiões

Em outras partes do mundo, a extração de bexiga natatória tem causado danos irreversíveis ao meio ambiente. A grude mais valiosa costumava vir da bahaba, uma espécie de peixe encontrada na China. O comércio da bahaba foi proibido em 1989, mas as populações continuaram a diminuir e, em 2006, ela foi adicionada à lista vermelha de espécies ameaçadas da UICN.

Com isso, o comércio se voltou para a totoaba, um peixe encontrado no Golfo da Califórnia, no México. Mas a vaquita, uma espécie de boto endêmica dessas águas, foi muito capturada acessoriamente nas redes de totoaba. Segundo o Comitê Internacional para a Recuperação da Vaquita, trata-se de um dos animais marinhos mais ameaçados de extinção do mundo.

A pescada-amarela está listada como vulnerável na Lista Vermelha da UICN. Não houve avaliação de sua situação no Brasil.

Mercados longínquos

Pessoas do setor dizem que Hong Kong é tanto consumidora quanto reexportadora de grude. Grande parte do produto é contrabandeada para a China continental.

A bexiga natatória é considerada uma iguaria chinesa e aclamada por seus presumidos benefícios medicinais. De acordo com a medicina tradicional chinesa, ela pode parar a tosse, prevenir efeitos colaterais de medicamentos, tratar problemas estomacais ou renais, alimentar o feto e enriquecer o sangue.

Novos produtos continuam aparecendo. A bexiga natatória da corvina dourada (da bahaba) continua sendo a mais apreciada —em 2012, o quilo chegou a ser vendido por mais de US$ 475 mil (R$ 2,6 milhões).

Acredita-se que a "bexiga natatória aranha" venha em segundo lugar, sendo vendida por mais de 55 mil dólares de Hong Kong o quilo (R$ 39 mil). Elas vêm do Vietnã e da Indonésia, e sua demanda já deixou a espécie de peixe em perigo de extinção.

Para Yvonne Sadovy, professora da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Hong Kong, o mercado de bexigas natatórias lembra o de diamantes.

"A analogia deixa de funcionar quando se considera o fornecimento", diz o estudo de Sadovy, "enquanto os diamantes no solo são abundantes, muitas espécies de peixes visados não o são, o que significa que são necessários controles sobre esse segmento do comércio de bexiga natatória."

*A reportagem foi produzida pelo Diálogo Chino e pela Initium Media, com apoio do Amazon Rainforest Journalism Fund em parceria com o Pulitzer Center.

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Iguaria na China, 'grude' atrai chineses à Amazônia com mercado milionário - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL

Meio Ambiente