Crença em bruxaria ainda é generalizada na Europa Oriental

Brian Whitmore


Krajne, Eslováquia - Quando Nikolka, a neta de dois anos de idade de Milan Mramuch, começou a ter ataques epiléticos, ele fez aquilo que todo avô que acredita em bruxaria teria feito. Procurou um curandeiro.

O que ocorreu a seguir chocou e horrorizou essa pequena vila, uma comunidade rural estreitamente unida de 1,7 mil habitantes, localizada no coração dos Cárpatos, na Eslováquia.

Quando Mramuch se convenceu de que Anna Tomkova, uma faxineira aposentada de 80 anos de idade, era uma bruxa que havia feito um feitiço para a sua neta, ele matou a idosa com golpes de bengala.

O assassinato chamou a atenção de todos para a generalizada crença no ocultismo por parte dos habitantes das remotas vilas das montanhas eslovacas. Aqui os místicos, curandeiros e conselheiros espirituais são tão comuns no dia a dia das pessoas quanto os tratores, o gado e as galinhas.

"Eu vim dizer à bruxa que implorasse pelo perdão de Deus, de Jesus Cristo e da Virgem Maria, já que ela estava possuída pelo sangue de Satanás", justificou-se Mramuch, logo após cometer o assassinato, segundo o depoimento de Rastislav Michalides, um vizinho.

"A sua família é repleta de bruxas. Ela estava sugando a energia de todos nós e teria matado a todos", teria dito Mramuch.

Após o assassinato, Krajne e as áreas vizinhas passaram a ser o alvo de uma frenética cobertura da mídia, conforme os jornalistas chegaram para buscar indícios da crença nas forças ocultas.

"Em várias vilas... há famílias que até hoje acreditam em 'histórias reais' sobre bruxas, fantasmas e maldições", disse em seu editorial o "Novy Cas", o jornal mais lido do país. "Muita gente ainda crê que as bruxas são capazes de desencadear tempestades e chuvas de granizo que podem arruinar as plantações".

A revista popular "Zivot" (Vida), publicou uma matéria de capa entitulada "Deusas da Fronteira", sobre as curandeiras da vila de Stary Hrozenkov, próxima à fronteira com a República Tcheca. Após conversar com um curandeiro local sobre o problema de Nikolka, Mramuch foi até a vila para conversar com uma curandeira "mais qualificada".

"A crença em mágica, bruxas e curandeirismo é disseminada na Eslováquia", explica Milan Kovac, professor de etnologia da Universidade Comenius Gondova, em Bratislava.

"O fator principal que contribui para isso é o isolamento", continua Kovac. "Essas crenças são ainda mais fortes na Ucrânia e nos países balcânicos".

Kovac, que está trabalhando em um estudo sobre cultura popular rural e bruxaria, afirma que a crença nas forças ocultas é mais comum na Europa Central e Oriental, em meio às pessoas que nasceram antes da Segunda Guerra Mundial e que vivem em regiões remotas.

Ele diz ainda que tais crenças eram mais comuns nas vilas predominantemente católicas. Quando a região que é hoje a Eslováquia se converteu ao cristianismo, muitas dessas vilas simplesmente fizeram um sincretismo das doutrinas da igreja com as antigas crenças populares.

"Uma das principais condições necessárias para a existência de tais crenças é a presença do catolicismo folclórico, que combina elementos demoníacos, exorcismo, santos e narrativas mágicas", explica Kovac.

O reverendo Cyril Jancisin, secretário da Conferência Eslovaca dos Bispos Católicos, diz que o clero presente nas remotas vilas das montanhas relata que vários fiéis acreditam nas forças ocultas e procuram os curandeiros.

A maior parte da população de Krajne, que é predominantemente protestante, diz não acreditar no sobrenatural. Alguns, no entanto, dizem conhecer alguém que acredita.

"O meu vizinho, já falecido, costumava ir até Stary Hrozenkov para falar com as curandeiras", conta Jan Mocko, de 79 anos. "Ele ia até lá para perguntar quem roubara a sua carroça e quem fora responsável pela morte das suas galinhas".

A filha de Mramuch, Lenka, diz que quando os médicos se mostraram incapazes de curar os ataques epiléticos de Nikolka, a família consultou um curandeiro que vivia próximo à vila.

"Ele nos disse que a energia estava sendo sugada da criança e que estávamos sendo vítimas de algum tipo de satanismo", conta Lenka.

Depois disso, Mramuch viajou até a fronteira tcheca, indo até Stary Hrozenkov para uma consulta com uma curandeira da cidade. A curandeira disse que a menina morreria aos doze anos de idade caso a bruxa não fosse neutralizada. Ao ouvir isso, Mramuch retornou a Krajne e matou Tomkova.

Lenka, que não quis divulgar o seu sobrenome, diz acreditar que o pai, que está aguardando o julgamento, estava possuído por "forças sinistras".

"Existem forças desconhecidas entre o céu e a terra", diz ela. "Eu acredito em tais coisas".

E quando lhe perguntaram sobre a saúde de Nikolka, Lenka afirmou que os ataques da filha diminuíram depois do assassinato da velha.

"Mas creio que isso é apenas uma coincidência", conclui.


Tradução: Danilo Fonseca

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