Pequenos incidentes ilustram o ódio na Irlanda do Norte

Charles M. Sennott

Belfast, Irlanda do Norte -­ Em Ardoyne Road se tornou conhecida como "o incidente da escada", uma história contada e recontada por protestantes irados que dizem que, na semana passada, provocou a pior violência sectária vista aqui em anos.

Foi em junho que um motorista de taxi católico romano, a caminho da escola católica Holy Cross, trombou com uma escada de mão, ferindo um padeiro protestante que estava amarrando uma bandeira britânica rasgada em um poste telefônico de madeira.

Esta história ­e a versão exagerada que o padeiro de 22 anos, James McLean, começou a contar­ é para os protestantes desta via dividida uma potente imagem, algo significativo para pessoas que sentem que tudo o que prezam está sendo arrancado sob seus pés.

Suas bandeiras da Grã-Bretanha, seus percursos de marcha, suas casas, seus empregos, suas vidas ­tudo isto, dizem os protestantes, está sendo derrubado como os degraus da escada de mão pela crescente população católica que agora está lutando para sair de sua própria história de pobreza e submissão.

E assim, na semana passada, lá estavam James McLean, carregando seu filho de 2 anos no ombro, na calçada do setor protestante de Ardoyne Road, onde ele e 100 outros homens jovens, muitos dos quais com a cabeça raspada, argola prateada na orelha esquerda, e tatuagens, as marcas registradas dos unionistas, bradavam chavões contra assustadas colegiais católicas enquanto caminhavam ao lado de seus pais.

"Lixo! Sumam daqui!" bradava McLean.

Muitas das meninas católicas estavam chorando enquanto se agarravam aos seus pais no caminho que as famílias tomam para ir à escola há 30 anos, apesar de cortar um enclave protestante.

Mais tarde, durante uma pausa no tumulto, McLean se recostou em um muro em Ardoyne e recontou sua história sobre a escada.

"Eles tentaram me matar", ele disse. "Eles querem que a gente vá embora para que possam tomar o bairro. Eles nunca vão conseguir. Nós não vamos partir".

"Sem rendição!" acrescentou McLean, bradando o grito de batalha dos unionistas protestantes, enquanto uma multidão se reunia à sua volta.

O incidente da escada pode parecer pequeno em comparação com a violência que chamou a atenção do mundo na semana passada para este minúsculo bairro do norte de Belfast. Mas em Ardoyne, as casas de tijolos de protestantes e católicos estão tão próximas umas das outras que nunca foi necessário muito esforço para motivar as coisas.

Foi pedido a McLean que esclarecesse todas as histórias contraditórias que estão circulando sobre aquele dia no final de junho, no meio da "temporada das marchas", quando as tradicionais paradas da Ordem de Orange protestante costumam incitar violência sectária. Ele conta várias versões diferentes da história, mas em todas ele diz que um carro a caminho da escola Holy Cross o derrubou da escada e voltou com vários homens nele.

"Eles portavam facas e bastões. Para que precisavam daquilo se estivessem apenas indo buscar uma criança na escola?" disse ele. "Eles apenas queriam nos matar".

McLean disse que está sem trabalhar devido aos ferimentos provocados pelo incidente. Mas quando perguntado sobre os ferimentos específicos, ele disse não estar fisicamente qualificado para invalidez. Ele disse estar "doente", como são tratadas as alegações de invalidez em Ardoyne, uma cultura onde há cerca de 60% de desemprego e onde o desespero econômico é minimizado com os subsídios do bem-estar social concedidos pelo governo britânico tanto para protestantes quanto para católicos.

Ele disse estar sofrendo de "pesadelos e insônia", e portanto é incapaz de acordar às 4 horas da manhã para seu trabalho em uma padaria próxima.

Duas testemunhas, uma católica e outra protestante que pediram para não serem identificadas, disseram que a realidade foi menos dramática do que a versão de McLean. O carro fez uma curva e atingiu a escada, eles disseram, mas McLean não estava nela. Ele caiu tentando sair do caminho.

McLean e seus amigos passaram a gritar ameaças contra a escola, disse a testemunha católica. Quando ele voltou, ele veio com outros homens católicos e teve início uma briga. Nenhuma menção foi feita nos jornais locais.

Mas para compreender como tal história criou tamanha tensão e a violência resultante, é essencial compreender a militância que McLean herdou de seu pai, um unionista linha dura com um longo histórico de prisões que transmitiu sua cólera para seu filho.

O pai de McLean, Denis, um construtor de navios desempregado de 46 anos, permanecia na rua tragando com força um cigarro e olhando com orgulho para seu filho enquanto contava sua história. Denis é supostamente membro de um grupo paramilitar unionista fora-da-lei. Perguntado sobre seu envolvimento, ele falou asperamente: "Eu não falo sobre isto".

Velhos recortes de jornal do "Belfast Telegraph" mostram que ele foi condenado em 1988 sob acusação de terrorismo, pelo roubo de um caixote de armas de um depósito militar. Ele cumpriu seis anos de prisão.

Há muitos no lado católico da cidade que acreditam que ele faz parte do pequeno grupo que está envolvido ativamente no incitamento do ódio étnico em Ardoyne.

"Quando tentaram matar meu filho foi a palha que quebrou as costas do camelo", disse ele. "Você precisa lutar pelos seus direitos. Nós estamos sendo empurrados para fora daqui. Eles desejam vir e tomar estas casas.

Ele acrescentou: "Este processo de paz é unilateral, e não vai funcionar. Não vamos permitir que funcione; não enquanto o Sinn Fein conseguir tudo o que deseja", fazendo referência à facção política católica associada ao IRA, o Exército Republicano Irlandês, que possui muitos seguidores em uma ampla área de desenvolvimento habitacional a cem metros rua acima.

Os McLeans definem a si mesmos como unionistas. Historicamente isto significa que se consideram súditos leais à coroa britânica, e defendem que os seis condados da Irlanda do Norte devam permanecer como parte do Reino Unido. Eles assumem esta posição contra os católicos da Irlanda do Norte, e muitos da República da Irlanda, que acreditam que toda a Irlanda deveria ser unificada.

Uma assustadora indiferença entre os britânicos quanto a esta questão foi expressada do outro lado do Canal entre a população da Inglaterra, onde uma recente pesquisa de opinião revelou que pouco menos da metade dos entrevistados acreditam que a Irlanda do Norte deveria fazer parte da Irlanda unificada, e não do Reino Unido.

Assim, para McLean e seus amigos está cada vez mais difícil definir exatamente a que estão sendo leais. Um crescente sentimento de traição ficou evidente na semana passada entre protestantes como James McLean.

A Royal Ulster Constabulary (RUC), uma força policial ainda predominantemente protestante e com um pesado histórico anticatólico, repentinamente estava protegendo as crianças católicas. E em vários incidentes, a RUC perseguiu e espancou agressivamente protestantes que atiravam pedras.

Pelo menos 40 membros da RUC foram feridos ao longo da semana, quatro deles com um cano-bomba que foi atirado por uma força paramilitar unionista fora-da-lei conhecida como Red Hand Defenders (Defensores da Mão Vermelha).

Estas novas imagens fazem vir à mente as antigas imagens da Irlanda do Norte.

Em sua casa na comunidade nacionalista católica Ardoyne Road acima, Martin Meehan, um respeitado veterano do Exército Republicano Irlandês que cumpriu pena de 22 anos de prisão, estava no sofá alimentando seu neto com uma mamadeira.

Um ardoroso simpatizante do processo de paz e do Sinn Fein, ele expressou simpatia pelas preocupações da comunidade protestante quanto a empregos e moradia, mas acrescentou que elas eram compartilhadas por ambos os lados da divisão sectária e deveriam ser resolvidas em conjunto por ambas as partes.

"Eles estão vendo a maré vindo, e sabem que não poderão conter a maré. Eles prefeririam que tivéssemos permanecidos subservientes, mas os dias de usarmos as portas do fundo acabaram", disse Meehan, fazendo referência às exigências protestantes de que os católicos contornassem a área protestante e utilizassem a porta dos fundos da escola.

Billy Hutchinson, um proeminente líder político protestante que alega publicamente apoiar o processo de paz, mas que estava em Ardoyne Road ao lado dos protestantes na semana passada, disse: "Não estamos dirigindo isto para as crianças, mas para os pais que estão utilizando seus filhos como cobertura para atos sectários. Você sabe como isto começou, você soube da história do rapaz na escada que quase foi morto?"

Os homens ao redor dele acenavam positivamente com a cabeça enquanto ele falava.

Na manhã de sexta-feira, com a chuva fustigando Ardoyne Road, os moradores protestantes se reuniram diante da igreja presbiteriana para o funeral de um menino de 16 anos.

Thomas McDonald, um protestante de Whitewell Road, que fica nas proximidades, foi atropelado pelo carro de uma mulher católica após supostamente ter atirado pedras contra o veículo dela. Na terça-feira, a polícia indiciou a mulher de 32 anos pela morte, mas divulgou poucos detalhes.

Nas ruas protestantes, a história, trágica o suficiente sem a necessidade de exageros, adquiriu vida própria.

Os protestantes dizem que a mulher atropelou o menino e metodicamente deu ré no carro para esmagar seu crânio. Muitos católicos dizem que foi um acidente, e alguns líderes admitem que a mulher atropelou o menino, mas descrevem o incidente mais como uma versão de Belfast de irritação de trânsito.

As forças de segurança estão se preparando para o pior, e os políticos moderados de ambos os lados estão esperando que desta vez outro bairro de Belfast não exploda, e que possam dar continuidade ao difícil processo de paz.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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