EUA banalizam retórica de guerra

David Shribman

Washington, EUA -- Guerra.

O ataque da semana passada foi um ato de guerra. A nação está em guerra. Washington vive em compasso de guerra. O governo demanda sacrifícios de guerra. Comentaristas e historiadores gostam de afirmar que a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Mas a primeira vítima da guerra é a esperança.

Enquanto a nação se prepara para uma extensa e difícil batalha contra o terrorismo internacional, a palavra "guerra" é empregada como substantivo, verbo, adjetivo, metáfora; foi transformada em um fenômeno lingüístico que ressalta as incertezas vividas por americanos e seus líderes enquanto se preparam para uma nova luta. E embora seja inegável que vários dos recursos da guerra virão a ser utilizados nesta luta, a batalha que está por vir exigirá também aquilo que o presidente Bush definiu como "um novo modo de pensamento", que inverte as expectativas dos americanos em relação a uma guerra.

"Creio que a utilização do conceito de guerra seja imprópria", afirmou David Long, que foi vice-diretor da secretaria de contraterrorismo do Departamento de Estado durante o período do bombardeio dos quartéis da marinha do Líbano há duas décadas. "O terrorismo é um problema que precisa ser administrado, reduzido a níveis aceitáveis. Ele não pode ser erradicados. O universo da guerra nos permite- nos a inferência de que, após a vitória, ela se encerra".

Esta idéia torna-se cada vez menos convencional para a concepção dos conflitos armados. Os instrumentos serão de ordem política, diplomática, econômica e militar. Não haverá frontes convencionais. Na verdade, o fronte poderá ser a própria casa. Alguns dos soldados utilizarão uniformes, mas muitos deles - banqueiros, diplomatas, agentes de inteligência, americanos comuns que, tal com aqueles que se encontravam no World Trade Center ou no Pentágono, alistaram-se inadvertida ou até involuntariamente nesta batalha - não vestirão uniformes.

O risco para os próximos dias ou semanas não será que os americanos, num resgate de suas lembranças da Guerra do Golfo, aguardem por um confronto militar rápido, inconteste e evidente com um inimigo que se dobra facilmente. O risco é que a palavra "guerra" delineie suas expectativas de tal maneira que eles não se preparem para a luta que irá requerer em seu início o confronto militar - talvez ainda nesta semana - mas que a seguir irá requerer ações mais sutis, embora muitas vezes mortais.

Além de projetar a força convencional, tais ações poderão envolver o envio de equipes em regiões adversas, a infiltração de agentes em células terroristas, a pressão para que nações rompam seus laços formais ou informais com organizações terroristas, o bloqueio de contas bancárias de nações e indivíduos que auxiliaram ou simplesmente abrigaram terroristas - e muito mais.

Estamos empregando a linguagem da guerra, mas esta linguagem é um pouco imprecisa", afirmou Luis Caldera, que foi secretário do Exército durante os últimos dois anos e meio do governo Clinton. "Esta não é uma guerra como outras guerras em que você mobiliza vastos arsenais, navios e tropas e parte com uma missão específica planejada. As pessoas que esperarem por isto terão muitas surpresas".

Bush empregou por inúmeras vezes a palavra "guerra" nos últimos dias, mas deixou claro que se referia a "uma campanha ampla e contínua". Ele advertiu à nação que "a vitoria contra o terrorismo não se dará em uma única batalha, mas em uma série de intervenções decisivas contra organizações terroristas e aqueles que as abrigam e apóiam".

Embora o futuro quase certamente reserve atividades de guerra - a utilização de destacamentos armados em confrontos militares - o empenho geral do governo demanda a utilização da palavra "guerra" mais como uma metáfora do que como uma descrição militar.

Trata-se de algo que os Estados Unidos já fizeram, raras vezes com sucesso. O governo Lyndon Johnson lançou uma "guerra contra a pobreza" que amenizou os efeitos da privação econômica, mas não varreu a miséria da paisagem americana. A nação vem liderando há quase duas décadas uma "guerra contra as drogas"que bloqueou algumas remessas de narcóticos para os Estados Unidos, mas que está longe de ser vencida.

Em ambos os casos, os Estados Unidos empregaram a palavra "guerra" para se referir a um trabalho de longo prazo. Embora o combate ao terrorismo internacional envolva necessariamente os recursos da guerra, seu sucesso dependerá também de outros armamentos.

"Empregamos a palavra guerra porque estamos familiarizados com o conceito, mas talvez nós precisemos de uma outra linguagem", afirmou Douglas Johnson, um tenente-coronel da reserva e professor de segurança nacional em uma curso superior do exército americano de Carlisle Barracks, Pensilvânia. "Enfrentamos hostilidades. O problema é que a palavra guerra soa melhor".

A palavra "guerra" possui um significado legal. De acordo com a constituição, a guerra só pode ser formalmente declarada após uma votação do Congresso. Mesmo assim, presidentes promoveram atividades de guerra e empregaram a linguagem da guerra sem a aprovação congressual e insistem na prática mesmo perante as restrições do Ato dos Poderes de Guerra, destinado a resgatar para o Legislativo boa parte do poder de decisão sobre guerras.

O Congresso americano não declarou guerra nos últimos 60 anos, mas isto não impediu que presidentes mantivessem conflitos armados constantes na Coréia e no Vietnã, por exemplo.

Por esta razão, o contexto atual é muito diverso. "Ainda que pensemos na necessidade do uso da força, não estamos realmente diante de uma guerra", afirmou o Reverendo J. Bryan Hehir, professor de prática religiosa na Harvard Divinity Scholl e no Centro de Questões Internacionais de Harvard. "Ainda que identifiquemos aqui um combate duradouro, o elemento militar não será o mais importante a longo prazo".

Neste caso, a guerra passa a ser mais um estado de espírito do que uma intervenção. "Você pode sentir isto agora", afirmou Michael Schudson, professor de comunicações na Universidade da Califórnia em San Diego. "Não houve até agora uma luta no sentido tradicional, mas as bandeiras estão por toda parte. Eu não tenho a menor idéia do que irá acontecer nos próximos meses, mas ninguém teria".

Uma coisa é certa, no entanto: a utilização da linguagem da guerra teve aquilo que o escritor britânico C.S. Lewis afirmava ser o efeito da guerra. Em uma conferência proferida na Universidade de Oxford em outubro de 1939, logo após o início da Segunda Guerra Mundial, Lewis afirmou que a guerra não cria nenhuma situação nova: "ela simplesmente agrava a situação humana perene de tal modo que já não podemos mais ignorá-la".

Tradução: André Medina Carone

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