EUA precisam parar de alimentar terrorismo israelense

Derrick Z. Jackson

Em uma reação ao ataque contra os Estados Unidos, Ehud Sprinzak, um famoso especialista israelense em terrorismo, que leciona na Universidade Hebraica em Jerusalém, disse: "Vários de nós nos sentimos vingado pelos atentados". Ele disse que as fotografias da tragédia "são melhores do que milhares de embaixadores tentando explicar como é perigoso o terror islâmico". Segundo Sprinzak, "sob a ótica judaica, esse foi o maior ato de relações públicas que já foi realizado a nosso favor".

A declaração do israelense não passa de uma manifestação de prepotência e insolência de uma mente fechada. Sprinzak assume que os ataques vão fazer com que Israel se transforme em um passe de mágica no mais inocente cordeiro do Oriente Médio.

Enquanto os Estados Unidos sacodem o mundo islâmico em busca de Osama bin Laden, o exército israelense espera que as suas relações conosco não fiquem abaladas.

Ao contrário do desejo manifestado por Sprinzak de que o ataque trabalhe "a favor" de Israel, a tragédia deveria inspirar os Estados Unidos a cultivar um novo sentido de justiça. Caso se queira erradicar o terrorismo do Oriente Médio, os Estados Unidos devem parar de alimentar a espiral de violência por meio do seu equivocado apoio a Israel. Washington precisa deixar de fazer vistas grossas para a utilização de armas norte-americanas pelas forças armadas e policiais de Israel no assassinato de palestinos.

A mídia fez uma grande propaganda das imagens de palestinos festejando a destruição do World Trade Center. Fotografias de palestinos arremessando pedras são uma imagem comum nos jornais norte-americanos. Nos lares dos Estados Unidos, nomes como "Arafat", "Hamas" e "bin Laden" estão muito mais vinculados com a violência do Oriente Médio, do que "Lockheed Martin", "Boeing" e "Pratt and Whitney".

É sempre uma tragédia quando um homem-bomba palestino mata judeus. Mas se os norte-americanos realmente quiserem entender porque fomos os alvos das catástrofes de Nova York e de Washington, não podemos ignorar o fato de que estamos ajudando a polícia e as forças armadas israelenses a matar uma média de mais de três palestinos para cada judeu que tomba nos conflitos pelos territórios ocupados.

Neste último período de um ano de conflitos, a Associated Press contabilizou 632 palestinos e 174 israelenses mortos. Os norte-americanos não podem mais ignorar o motivo pelo qual Israel está ganhando o conflito. Desde a Segunda Guerra Mundial, e apesar dos altos e baixos em nosso relacionamento, Israel tem sido o maior beneficiário de auxílio norte-americano. Israel recebeu de Washington algo entre US$ 81 bilhões (R$ 229 bilhões), segundo o Serviço de Pesquisas do Congresso, e US$ 92 bilhões (R$ 260 bilhões), de acordo com o Washington Report on Middle East Affairs, uma organização de pesquisas fundada por ex-funcionários do serviço de relações exteriores dos Estados Unidos.

O início do fornecimento maciço de armas para Israel começou com a venda de mísseis Hawk pelo presidente John F. Kennedy. Atualmente, Israel possui 320 jatos de combate F-16 fabricados pelos Estados Unidos. É a segunda maior esquadrilha desses caças existente no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. E os israelenses encomendaram mais 100, que devem ser entregues até 2009.

Enquanto as crianças palestinas são estigmatizadas como criminosos por jogarem pedras, Israel nunca foi criticado com seriedade por ter usado 50 helicópteros Apache norte-americanos (mais 29 já foram encomendados) para atacar os palestinos com mísseis guiados a laser. De acordo com uma edição da revista "Newsweek" do mês passado, helicópteros feitos nos Estados Unidos estiveram envolvidos em nove das 29 operações de assassinato realizadas por Israel.

"Nós gastamos muito dinheiro comprando armas nos Estados Unidos", disse à "Newsweek" o porta-voz do ministério da Defesa israelense, Shlomo Dror. "Estou seguro de que as companhias norte-americanas não gostariam que essa situação mudasse".

Os Estados Unidos vendem armamentos em abundância para as nações árabes amigas, tais como o Egito, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, mas, segundo todas as estatísticas, é Israel que recebe as armas mais letais e dotadas dos melhores dispositivos eletrônicos de mira.

Embora teoricamente pareça que o Egito fique próximo a Israel em termos de ajuda norte-americana, a qualidade dessa ajuda é tão diferente que o coronel do exército norte-americano, Norvell B. De Atkine, disse ao "The Wall Street Journal", há um ano: "Sob o ponto de vista militar, a lacuna entre o poder militar israelense e o árabe aumentou profundamente nos últimos 15 anos".

A lacuna em termos de carnificina aumentou de forma tão profunda que não é de se surpreender que o mundo árabe esteja irado não só com Israel, mas conosco, por termos deixado os israelenses agirem tantas vezes como se fossem a própria encarnação da lei.

Os Estados Unidos preferiram ficar calados nos anos 80, quando Israel vendeu armas para o regime de apartheid da África do Sul. E Washington também ficou de bico calado agora, quando Israel demoliu moradias e confinou os palestinos, em uma situação que não é nada diferente dos fatos ocorridos em Soweto.

Enquanto 1,3 mil israelenses saíram feridos nos conflitos, um número mais de dez vezes maior de palestinos, mais de 14 mil, foi ferido pelo maior poder de fogo da polícia e das forças armadas israelenses.

Até que esse desequilíbrio seja reconhecido, os Estados Unidos estarão buscando apenas os sintomas, e não as soluções. Ninguém mais duvida de como é perigoso o terrorismo islâmico. Mas nós não precisaríamos ter tido que experimentar uma tragédia tão terrível em nosso território se, há muito tempo, tivéssemos condenado o terrorismo israelense, que é realizado com armas feitas nos Estados Unidos.

Tradução: Danilo Fonseca

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