Aliança entre EUA e Arábia Saudita desafia a lógica

H.D.S. Greenway

Quando as fotos dos 19 terroristas foram publicadas nos jornais, a maioria deles foi identificada como cidadãos da Arábia Saudita. Ao se considerar que o próprio Osama Bin Laden é saudita - ou era, até ter a sua cidadania revogada - esse fato não chegou a ser uma surpresa. Mas o episódio ressaltou a grande contradição de que a Arábia Saudita, a guardiã dos locais sagrados muçulmanos e, até o Taleban tomar o poder no Afeganistão, o Estado mais rígido e fundamentalista do mundo islâmico, seja ao mesmo tempo o aliado muçulmano mais antigo e mais confiável dos Estados Unidos.

Enquanto os pregadores do islamismo em outros países possuem apenas a esperança de um dia estabelecer a "sharia", a lei sagrada muçulmana, esta é efetivamente a base do código legal saudita desde que Abdul Aziz ibn Saud, o fundador do Estado saudita, cavalgou pelo deserto à frente de um exército montado em camelos e cavalos, para capturar Riad, na década de 20.

Inflamado pelos ensinamentos de Mohammed ibn Abdul Wahhab, um clérigo do século 18, cujo ódio contra a idolatria se comparava àquele de Moisés, de Martinho Lutero, dos peregrinos que colonizaram a América do Norte e do Taleban, Ibn Saud disseminou a versão do Islã pregada por Wahhab, que prevalece hoje tanto na Arábia Saudita, quanto no Afeganistão. Os seus guerreiros fanáticos, os Ikhwan (irmãos), destruíram artefatos satânicos, tais como fios de telégrafos, durante a sua marcha rumo ao mar, e consolidaram o seu poder ao capturarem Meca, Medina e Jidá, que estavam sob o controle do tataravô do rei Abdulá, da Jordânia.

Ainda hoje, na Arábia Saudita, a segregação dos sexos é rígida. As mulheres devem se cobrir em público e não possuem permissão para dirigir automóveis. Elas não podem nadar nas mesmas piscinas que os homens. Duplas de ambos os sexos são proibidas nas quadras de tênis. É proibida a ingestão de bebidas alcoólicas e a pena para o roubo é a amputação das mãos. Para crimes mais graves, recorre-se à decapitação. O Comitê para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, chamado irreverentemente de "Esquadrão de Deus" pelos estrangeiros, patrulha as ruas, zelando pela decência pública.

Durante anos a monarquia conservadora combateu as forças do nacionalismo pan-árabe, o Nasserismo, o socialismo Baath, o marxismo e o secularismo ocidental, somente para se ver na defensiva com relação à direita religiosa, em 1979. Naquele ano, eu estava na Arábia Saudita - era o ano 1400, pelo calendário muçulmano - quando um grupo de extremistas tomou a Grande Mesquita, em Meca. Ao invés de fazerem um apelo por orações, os alto-falantes da mesquita denunciaram a corrupção corrente na Casa de Saud, afirmando que a família real teria se desviado do caminho de Deus. A revolta foi debelada, mas ela foi, e ainda é, um ultraje e um ataque sem paralelos contra a legitimidade da família real saudita.

Embora o regime saudita possa ser visto como conservador e fundamentalista aos olhos do resto do mundo, no profundo contexto tradicional do culto Wahhabi a família real tem sido uma força modernizadora. Ao contrário do xá do Irã, que tentou modernizar o país muito rapidamente, os sauditas foram mais espertos e cuidadosos ao equilibrar modernismo e tradição. Diz a história que, quando os clérigos denunciaram o telefone como sendo uma obra do demônio, Ibn Saud os reuniu para que ouvissem uma leitura do Alcorão feita através de uma ligação telefônica, acabando assim com as objeções ao aparelho. De maneira similar, a televisão também foi denunciada quando foi lançada. Mas a família real se certificou de que havia um número suficiente de transmissões de leituras de textos sagrados em mesquitas, a fim de acalmar o clero islâmico. A educação para as mulheres foi introduzida de forma lenta e cuidadosa. O que o regime parecia estar disposto a ceder aos extremistas religiosos era o apoio em outros locais, caso eles deixassem o reino em paz.

Nos tempos em que os britânicos controlavam o fluxo de petróleo do restante do Golfo Pérsico, os sauditas se aliaram aos norte-americanos. O primeiro encontro de Abdul Aziz ibn Saud com um chefe de Estado infiel se deu quando ele se reuniu com Franklin Roosevelt, a bordo do USS Quincy, no Grande Lago Amargo do Canal de Suez, em 1945. Ele embarcou no USS Murphy, onde dormiu no convés, nos seus tapetes, sob uma tenda, enquanto se matavam alguns carneiros na popa do navio para atender ao apetite do monarca. Roosevelt insistiu na criação de um Estado judeu, mas Ibn Saud não podia entender porque os judeus não deveriam receber as melhores partes da Alemanha, ao invés da Palestina. Não obstante, uma parceria duradoura emergiu, baseada no petróleo e nos interesses estratégicos.

A Guerra do Golfo e a presença de tropas norte-americanas em solo saudita representaram um novo grande choque, cujos ecos ainda podem ser ouvidos na raiva de Bin Laden. Afinal, o seu principal objetivo é derrubar a monarquia saudita. Atualmente, o Estado saudita é repleto de corrupção e contradições, e vários dos cidadãos do país vêem em Bin Laden a encarnação da visão de Wahhab, de quem eles acreditam que a monarquia teria se afastado. Mais uma vez, a sociedade saudita será levada aos seus limites, agora que a Arábia Saudita é parte da aliança que está atacando o Afeganistão.

"Nas democracias ocidentais, o governante que se distanciar do seu povo perde as eleições", afirma o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, o príncipe Bandar Bin Sultan. "Em uma monarquia ele perde a cabeça".

Tradução: Danilo Fonseca

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