Sharon enfrentará riscos domésticos caso ceda à pressão dos EUA

Charles A. Radin

Jerusalém, Israel -- A Cisjordânia, território ocupado por Israel, está fervendo e o governo George W. Bush pressiona diariamente as autoridades de Tel Aviv para que diminuam a intensidade do conflito com os palestinos. Mas, para os analistas israelenses de todo o espectro político, se o primeiro-ministro Ariel Sharon ceder aos desejos norte-americanos ele e seu partido sofrerão um abalo, podendo mesmo perder o poder.

Embora tenha sido dada muita atenção à possibilidade de o Partido Trabalhista, o principal contrapeso político liberal ao conservadorismo do Likud, de Sharon, vir a dominar a coalizão de governo, o perigo real, segundo o Likud, os Trabalhistas e a oposição, vem da direita.

O motivo para isso é o fato de a maior parte da população local favorecer ao mesmo tempo um governo de unidade nacional e uma ação de linha dura com relação aos palestinos - conforme tem ficado evidente em todas as pesquisas de opinião.

"O Partido Trabalhista não representa um problema muito sério para Sharon", afirma Yossi Sarid, líder da minoria no Parlamento. "Eles não têm para onde ir. Já o problema com a direita é mais real, e vai se tornar mais grave se, devido à pressão política dos norte-americanos, Sharon tiver que retirar o exército das cidades administradas pelos palestinos".

De acordo com a agência Associated Press, no início da sexta-feira um assessor de Sharon disse que o Parlamento Israelense havia concordado com uma retirada gradual e progressiva das cidades palestinas, com a condição de que a Autoridade Palestina começasse a respeitar um acordo de cessar-fogo. Segundo esse assessor, os termos da retirada seriam negociados mais tarde entre os Estados Unidos, os palestinos e oficiais de segurança israelenses.

De fato, pequenas facções de extrema direita decidiram na semana passada renunciar à sua participação no governo a fim de protestar contra o alívio das sanções aos palestinos, anunciado por Sharon. A atitude de Sharon, que incluiu a retirada das forças militares israelenses da área de Hebron, administrada pelos palestinos, se seguiu a um decréscimo no nível da violência e à forte pressão exercida pelos Estados Unidos como meio de fortalecer a sua coalizão contra o terrorismo.

O assassinato do ministro do Turismo, Rehavam Ze'evi, que liderava uma das facções, ocorreu antes que a sua renúncia entrasse em vigor. Logo após o assassinato, o Parlamento decidiu realizar uma ampla ação militar contra os militantes palestinos que vinham atuando na Cisjordânia na semana passada. A renúncia dos membros da extrema direita foi cancelada.

Segundo Shlomo Ben-Ami, líder trabalhista que foi ministro do Exterior no governo de Ehud Barak, o assassinato de Ze'evi "de certa forma salvou Sharon. O episódio desencadeou a operação militar, que agradou a direita, e motivou a decisão do partido de Ze'evi em permanecer na coalizão".

Segundo Ben-Ami, agora os membros de linha dura da coalizão estão particularmente fortalecidos, já que "o público está satisfeito com a operação e cansado de Arafat e do terror palestino. As pessoas podem ter dúvidas quanto às possibilidades de sucesso da operação, mas contanto que não haja tantas baixas entre os israelenses, o sentimento a favor das investidas militares contra as áreas administradas pelos palestinos vai permanecer forte".

Ao decidir permanecer na coalizão, as facções de extrema direita impuseram condições que, segundo alguns analistas, vão levar à queda de Sharon. Entre essas condições estão a demanda para que as forças israelenses permaneçam nas áreas administradas pelos palestinos, que elas aumentem as suas operações de vigilância nos territórios ocupados e que os assassinos de Ze'evi sejam extraditados.

"Essas metas estão além da capacidade de Sharon", afirma Sarid. "Quando a pressão norte-americana ou a deterioração da situação militar obrigar Sharon a recuar, ele terá que faze-lo. Isso representaria a primeira pedra do muro a despencar. E quando a primeira pedra cai, o muro todo corre perigo".

Caso o Partido Trabalhista venha a se retirar da coalizão, alegando objeções à contínua ofensiva militar contra as áreas administradas pelos palestinos, tal iniciativa provavelmente reduziria o apoio público ao partido, já que ela seria vista como uma ameaça à união nacional, e também porque os trabalhistas já são considerados muito condescendentes para com os palestinos. Além disso, segundo os políticos e analistas, embora a retirada dos trabalhistas pudesse representar o fim da atual coalizão, Sharon poderia formar uma outra sem recorrer a eleições.

"Ariel Sharon conta com uma 'opção à direita' caso o Partido Trabalhista decida se retirar do governo", afirma Ze'ev Boim, líder da maioria no Parlamento e membro do Partido Likud, de Ariel Sharon. "Poderíamos montar uma coalizão de direita com 65 ou 66 assentos no Knesset, que tem 120 lugares. Esse é o número mínimo, mas podemos administrá-lo", afirma Boim.

Para Mordechai Nisan, professor de ciência política da Universidade Hebraica e analista da direita israelense, não importa se as renúncias viessem da direita ou da esquerda, Sharon provavelmente poderia manter por um tempo uma maioria no Parlamento sem a necessidade de realizar eleições.

Mas, segundo ele, se as renúncias ocorressem entre os colegas de linha dura, "Sharon ficaria desmoralizado nos círculos nacionais e a sua legitimidade no Likud seria questionada... A extrema direita do Likud cresceria, chegando a um nível desconfortável".

Segundo vários observadores, um fato que, mais do que qualquer outro, deve manter Sharon no poder por mais tempo, é o grande sentimento que prevalece entre os israelenses, segundo o qual o país estaria enfrentando um estado de emergência. Apesar dos protestos dos Trabalhistas e dos ultimatos da extrema direita, ninguém vai renunciar ao Parlamento se a guerra no Afeganistão se ampliar ou se os ataques terroristas a Israel crescerem em intensidade.

"A coalizão de unidade nacional é um tipo de resposta ao clamor popular", diz Ben-Ami. "Esses tipos de coalizão proporcionam uma sensação de conforto ao país, mas a sua capacidade de fazer progresso é muito limitada devido à pequena margem de manobra característica de tais governos".

"Sim, estamos enfrentando o inimigo unidos. Mas não podemos enfrentar a paz unidos porque os pontos em comum são tão limitados que é impossível se chegar a acordos", afirma Ben-Ami.

O afastamento do Partido Trabalhista em relação ao governo terá um significado quando chegar a hora de Israel voltar à mesa de negociação com os palestinos - conforme a maior parte dos analistas acredita que acontecerá.

"Quando montamos essa coalizão de governo, era óbvio que havia diferenças, especialmente entre o Likud e os Trabalhistas, e em particular com relação à questão do processo de paz e do futuro acordo que nós esperávamos poder atingir com a Autoridade Palestina", afirma Boim, o líder da maioria.

"O Partido Trabalhista vai tentar começar com (as fracassadas) negociações de Camp David e com as sugestões de presidente Clinton, ou com as idéias do ex-ministro do Exterior, Ben-Ami", diz Boim.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos