Controles inadequados facilitaram obtenção de antraz pelos terroristas

Tatsha Robertson e Robert Schlesinger

Washington, EUA -­ O microbiólogo americano Larry Wayne Harris, um ex-membro do grupo de extrema direita Nações Arianas, foi preso três anos atrás após ter dito que estava carregando uma quantidade suficiente de antraz manipulado para eliminar toda Las Vegas.

As autoridades federais já estavam cientes de Harris, que em 1995 foi condenado por fraude relacionada a sua compra de peste bubônica congelada pelo correio. "Foi fácil, e ainda é fácil", disse Harris.

Eventualmente ele foi inocentado das acusações quando descobriram que o que ele possuía era a vacina contra o antraz, e não o bacilo.

A história de Harris ilustra alguns dos desafios enfrentados pelas autoridades americanas enquanto tentam determinar se terroristas domésticos ou estrangeiros enviaram as cartas com antraz que já mataram quatro pessoas.

Na semana passada, o governo instituiu sentenças mais severas para crimes envolvendo armas químicas e biológicas, segundo a legislação que o presidente Bush sancionou no mês passado. Mas o problema é conseguir pegar os suspeitos.

Em um esforço para encontrar a pessoa ou pessoas responsáveis pelo envio das cartas contendo antraz, o FBI enviou agentes para investigarem meticulosamente os bairros de Trenton, Nova Jersey, de onde foram enviadas várias das primeiras cartas. A ação rendeu pouca informação.

Segundo o "Los Angeles Times", a recompensa de US$ 1 milhão (R$ 2,6 milhões) oferecida pelo FBI rendeu 170 mil informações e pistas potenciais, mas nenhuma produziu algum avanço significativo na investigação, e muitas podem ser trotes.

Parte do problema é que o governo federal tem pouco controle sobre as muitas amostras de doenças mantidas por um grande número de pessoas, laboratórios e universidades, disse Jessica Stern, uma especialista em terrorismo da Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard.

Visando obter amostras de peste bubônica, Harris simplesmente ligou para a American Type Culture Collection em Maryland. Ele pôde usar seu cartão de crédito para pagar pela bactéria, do tipo que dizimou 25% da população da Europa no século 14, e que foi entregue pelo Federal Express dias depois.

A aquisição da peste foi totalmente legal. Quando as autoridades prenderam Harris, a acusação foi de que tinha comprado as amostras sob nome falso.

Após esse incidente, o Congresso obrigou em 1997 que qualquer um que quisesse enviar ou receber qualquer um dos 42 vírus, toxinas e bactérias considerados perigosos, incluindo o antraz e a peste bubônica, precisaria primeiro ser registrado no Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Todavia, o CDC ainda não sabe ao certo quantas universidades Possuem antraz e outras bactérias.

"Ainda não é ilegal possuir agentes biológicos", disse Stern. "Nem mesmo é necessário registro a menos que a intenção seja enviar ou receber os agentes".

Mas os controles em torno de "culturas ao redor do mundo são ainda menores", disse ela.

Muitas organizações de saúde utilizam as culturas para desenvolver vacinas e medicamentos, mas especialistas temem que leis indulgentes tornaram muito fácil o acesso a agentes potencialmente perigosos.

Extremistas domésticos possuem um histórico de tentativas de uso de armas químicas e biológicas. No início dos anos 70, Muharem Kurbegovic, também conhecido como o "Alphabet Bomber", tentou enviar toxinas mortíferas pelo correio para ministros da Suprema Corte.

Outros foram atraídos pela ricina, uma toxina mortal que pode ser criada a partir de mamonas. Seu uso pelo serviço secreto búlgaro ficou famoso, que a utilizou na ponta afiada de um guarda-chuva para matar um dissidente nas ruas de Londres em 1978.

Em 1995, membros de um grupo antiimpostos chamado Conselho dos Patriotas de Minnesota foram condenados segundo as leis antiterrorismo por possuírem uma quantidade suficiente de ricina para matar 129 pessoas. O grupo teria planejado matar um agente federal passando o veneno na maçaneta de uma porta.

Em 1999, três membros da República do Texas, um grupo antigoverno, foram presos sob acusação de ameaçar o presidente Clinton e planejar o uso de um espinho de cacto infectado com antraz ou HIV como arma. Dois deles foram condenados e receberam longas penas de prisão, apesar de seus advogados de defesa terem alegado que eles não tinham capacidade para executar a ameaça.

Autoridades policiais freqüentemente são pegas de surpresa quando se trata de ameaças bioterroristas. Quando a polícia foi até a casa de Thomas Leahy, um homem de Janesville, Wisconsin, cujo parente avisou que ele tinha falado sobre matar a família e os amigos, ela descobriu que ele estava estocando ricina no porão. Ele planejava enviá-la para as pessoas pelo correio.

No único ataque bioterrorista bem-sucedido no país antes das cartas com antraz, seguidores do guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh contaminaram bufês de salada no Oregon com salmonela, deixando 750 pessoas doentes em 1984.

As autoridades não suspeitaram que fosse um ataque terroristas por mais de um ano.

No Oregon em 1997, autoridades federais encontraram produtos químicos perigosos, incluindo cianureto de sódio, na casa de James Dalton Bell, que tinha publicado na Internet um ensaio sobre assassinato de autoridades públicas. Bell, que estava coletando endereços domésticos de funcionários do imposto de renda, foi posteriormente condenado por fraude do Seguro Social e obstrução da Receita.

Em 1999, o FBI desbaratou uma trama para contaminar plantações de trigo com um fungo destrutivo, segundo o relatório anual da agência sobre terrorismo doméstico.

De forma geral, o terrorismo com armas químicas e biológicas é raro, com apenas cinco casos entre 457 incidentes terroristas nos Estados Unidos entre 1980 e 1999, segundo um relatório do FBI.

Mas, como destacou o relatório, estes casos "apresentaram um aumento constante desde 1995". Um motivo é que os grupos marginais americanos se tornaram mais interessados em armas de destruição em massa, dizem os especialistas.

"Foi apenas nos últimos anos que surgiu esta inclinação para as armas químicas e biológicas", disse Sean Gilmore, professor de comunicações do Baldwin-Wallace College em Ohio. Gilmore passou três semanas do verão entre grupos supremacistas brancos.

Ele disse que armas químicas e biológicas "lhes deram uma nova crença de que realmente dispõem de um reino de terror que fará a diferença".

Stern acredita que Harris contribuiu para este novo interesse na guerra bioquímica. O microbiólogo escreveu um livro sobre os riscos do bioterrorismo, que teria sido seu motivo para encomendar a peste bubônica. Mas Stern disse que o livro é apenas um guia que pode "ser utilizado por outros para matar, contendo instruções detalhadas sobre como obter antraz e disseminá-lo".

Apesar de o FBI tentar manter Harris sob vigilância, ele diz que nunca violou a lei. Ele pagou uma multa de US$ 50 (R$ 130) e cumpriu 200 horas de serviço comunitário pela acusação de fraude.

Harris, que em 1995 era funcionário do Superior Laboratories em Columbus, Ohio, disse não ser mais membro do Nações Arianas. E discordou da sugestão de que grupos de extrema direita estejam por trás dos casos de antraz.

"É o Iraque", disse ele, argumentando que as milícias carecem de especialistas e que teriam escolhido alvos diferentes.

Michael Burkin, professor de Ciência Política da Escola Maxwell de Cidadania e Questões Públicas da Universidade de Syracuse, disse que é uma questão em aberto se grupos como as milícias possuem especialistas capazes de lidar com ameaças biológicas como o antraz.

"Por outro lado", disse ele, "bastaria apenas uma ou duas pessoas para fazer algo assim".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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