Para analistas, Bin Laden cometeu um erro na propaganda de guerra

Anthony Shadid

Washington, EUA -- O discurso de Osama bin Laden mudou um mês após o início dos ataques norte-americanos ao Afeganistão, passando de uma contundente crítica política às ações dos EUA para uma denúncia nebulosa e talvez menos efetiva dos muçulmanos que se recusam a apóia-lo.

Na sua última mensagem o terrorista não mais condenou as políticas norte-americanas com relação aos palestinos e ao Iraque - tópicos que geram uma simpatia profunda e quase universal na região e cujas causas estão expostas em incontáveis mesquitas em uma típica sexta-feira no mundo muçulmano.

Em vez disso Bin Laden fez um ataque às Nações Unidas, que ainda goza de respeito no mundo árabe e muçulmano e que alguns líderes islâmicos chegaram a sugerir como alternativa à campanha contra o terrorismo capitaneada pelos Estados Unidos.

Embora as mensagens anteriores tenham sido tão políticas quanto religiosas, o último vídeo divulgado denuncia os líderes muçulmanos como sendo infiéis por cooperarem com o Ocidente, com a ONU e com os Estados Unidos. Trata-se de uma acusação forte, utilizada há uma geração por apenas aqueles muçulmanos mais radicais.

A mudança na ênfase do discurso pode refletir o desejo de Bin Laden de apresentar da forma mais ampla possível o conflito como sendo uma guerra entre os muçulmanos e o resto do mundo. Mas a nova tática, segundo sugerem alguns analistas, terá bem menos apelo entre o público árabe e muçulmano, a quem Bin Laden se dirige.

Mais do que simples palavras, esses discursos têm se transformado em uma guerra de propaganda que coloca os Estados Unidos de um lado e Bin Laden e seus seguidores do Taleban do outro. Na luta ideológica para conquistar corações e mentes do mundo muçulmano, os analistas dizem que Bin Laden não pode se dar ao luxo de cometer erros de propaganda, nos poucos momentos de que dispõe para se pronunciar.

"A guerra da propaganda é realmente importante para ele, e Bin Laden é bom nesse terreno", diz Richard Bulliet, especialista em Oriente Médio da Universidade de Colúmbia. "Mas isso não significa que ele sempre se saia bem. A impressão que eu tive é que essa mensagem, ao contrário das primeiras, não teve tanto sucesso em atingir o seu objetivo".

As autoridades norte-americanas, que há apenas alguns dias desprezaram as declarações de Bin Laden, não tendo tecido comentários sobre elas, na terça-feira pareciam ansiosas para atrair a atenção do público para a última mensagem do saudita, divulgada no sábado pela Al Jazira, o canal noticioso de TV pan-árabe via satélite.

"Quando alguém ouve tal coisa, tem-se a sensação de que o discurso se alterna entre o assustador e o bizarro", disse o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. "Ele definiu categoricamente como o mundo deve ser, de forma tão estreita, feroz, exclusivista e alienada da fé islâmica, que eu mal acredito que Bin Laden esteja querendo ajudar a si próprio".

Desde o início dos ataques, quatro mensagens foram atribuídas a Bin Laden. O primeiro vídeo foi ao ar em 7 de outubro, no dia que os Estados Unidos começaram a bombardear o Afeganistão. A ele se seguiu um outro, com um auxiliar de Bin Laden. Depois foi a vez de uma carta em nome do saudita, e o vídeo de sábado.

Alguns dos seus principais temas permaneceram constantes - como a afirmação de que o conflito é uma luta entre os muçulmanos e os infiéis, que o presidente Bush está travando uma cruzada contra o islamismo e que o mundo muçulmano está sitiado.

Em ambos os vídeos, Bin Laden utilizou um estilo que muita gente na região considera carismático. Em roupas camufladas, usando um turbante branco afegão e portando uma Kalashnikov a tiracolo, ele faz discursos que se baseiam em trechos do Alcorão, em um tom de voz firme, que transmite uma imagem de integridade e sinceridade.

No primeiro vídeo Bin Laden alcançou um grande efeito com esse estilo. Ele se concentrou em tópicos que são bastante apelativos para uma audiência árabe: o conflito entre palestinos e israelenses, o infortúnio dos iraquianos devido às sanções da ONU, e a presença de tropas norte-americanas na Arábia Saudita, onde ficam os locais mais sagrados do islamismo.

Em uma nota de desafio que jogou com os sentimentos antiamericanos que prevalecem na região, ele prometeu que os Estados Unidos "não poderão sonhar com segurança antes que possamos desfrutá-la na Palestina" e antes que um número estimado em 5.000 soldados norte-americanos deixem a Arábia Saudita.

"O que ele fez na primeira fita foi apelar para ressentimentos legítimos que são profundamente sentidos no mundo árabe e muçulmano", afirma Ziad Asali, chefe do Comitê Antidiscriminação Árabe-Americano, sediado em Washington. "É desnecessário dizer que pessoas que estão tão profundamente desapontadas com as realidades políticas e com as mazelas de seu dia-a-dia podem responder aos apelos daqueles que defendam as suas causas".

No entanto, a última mensagem diferiu em conteúdo e estilo.

Bin Laden se absteve de fazer mais ameaças contra os Estados Unidos. Ao invés disso, ele dirigiu a sua mensagem a uma audiência muçulmana. Ele denunciou como infiéis os líderes árabes que cooperam com as Nações Unidas. Chamou o secretário geral da ONU, Kofi Annan, de "criminoso", e culpou a ONU por vários dos problemas do mundo muçulmano, especialmente a repartição da Palestina, feita em 1947, que era administrada pelos britânicos, em um setor judeu e um árabe.

Em linhas gerais, ele procurou apresentar o conflito como uma luta entre o bem e o mal, "nós" versus "eles" - um apelo que, ironicamente, se assemelha a insistência de Bush em afirmar que "nenhuma nação pode ficar neutra neste conflito".

"Em essência, esta é uma guerra religiosa", disse Bin Laden.

O discurso ainda foi manchete de jornais árabes, mas a retórica inspirou respostas mais rápidas e vigorosas dos líderes árabes que, conscientes dos sentimentos antiamericanos, no mês passado mediram as suas palavras.

Amr Moussa, o secretário geral da Liga Árabe, disse: "Bin Laden não fala em nome dos árabes e muçulmanos" e os analistas duvidaram da eficácia de uma mensagem que alguns podem ter considerado confusa. Eles afirmam que muitos muçulmanos vêem na ONU uma alternativa ao poderio dos Estados Unidos. Os palestinos, por exemplo, insistem nas resoluções da ONU como sendo uma base para as negociações com Israel.

"Por mais zangados que a maioria dos árabes esteja com relação a certos aspectos da política dos Estados Unidos, eles não vão acompanhar integralmente Bin Laden na sua condenação total à ONU, a todos os regimes da região e à ordem internacional existente", afirma William B. Quandt, especialista no Oriente Médio e ex-membro do Conselho de Segurança Nacional do governo Carter.

Quando diz suspeitar que Bin Laden "estivesse em um momento de maior exaltação. Ele está cercado e não está obtendo apoio dos outros regimes da região".

Outros vêem o fato como uma mudança tática, parte da tentativa de Bin Laden para descartar qualquer alternativa a um confronto total entre muçulmanos e infiéis.

"Para Bin Laden, esse meio termo é realmente perigoso", diz Bulliet. "O poder do lado violento do islamismo depende da deslegitimização do meio termo, e as Nações Unidas se constituem em um dos locais onde se pode buscar uma articulação do meio termo".

Embora essa mensagem possa acabar sendo menos efetiva, a posição de Bin Laden pode não ser abalada. Os analistas dizem que, em uma região desencantada, a sua imagem - ampliada pela sua capacidade em ludibriar as forças dos Estados Unidos - pode superar o indivíduo.

Diaa Rashwan, um especialista em militância islâmica no Centro de Estudos Políticos e Estratégicos Al-Ahram, no Cairo, diz que para muitos exilados sauditas ele emergiu como um símbolo de resistência ao domínio norte-americano. Essa imagem se transformou na substância do mito, diz ele, tornando irrelevante o discurso individual.

"Ficar vivo, apenas permanecer vivo. Para muita gente isso é suficiente para gerar simpatia para Bin Laden", diz Rashwan.

Tradução: Danilo Fonseca

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