Ganhador do Nobel de literatura fala sobre o seu estilo e o seu sucesso

Mark Feeney

Nova York, EUA - "Um escritor é, em última instância, o seu mito, e não os seus livros", escreveu certa vez V.S. Naipaul. Poucos autores demonstram melhor a veracidade dessa afirmação do que o próprio Naipaul.

O mito é o de um cronista no exílio e de um anjo do mundo pós-colonial: um supremo forasteiro. Assim como todos os mitos poderosos, Naipaul está ancorado na verdade. Três vezes sem país, ele nasceu em Trinidad, filho de pais hindus, e viveu por meio século na Inglaterra. Quando não estava na Inglaterra ele viajava pelo Terceiro Mundo - Caribe, Índia, África, América Latina - escrevendo sobre os males que atingem esses ex-bastiões do império, falando de dentro e de fora dessas regiões.

Porém, o supremo forasteiro é, ao mesmo tempo, o supremo membro do círculo. Isso, também, faz parte do mito. A rainha Elizabeth sagrou Naipaul cavaleiro em 1990. No mês passado, ele recebeu a notícia de que ganhara o Prêmio Nobel de Literatura deste ano. Na quinta-feira às 18h, Naipaul fez uma leitura do seu novo romance, "Half a Life", na Biblioteca Pública de Boston, na Copley Square.

Sentado em um salão no Hotel Carlyle, Naipaul, de 69 anos, descarta a idéia de que o Nobel vá afeta-lo. "Vivo de maneira muito privada, de forma que possa ser dono de mim mesmo", diz ele.

Essa posse de si tem sido algo de fundamental não só para a vida de Naipaul mas também para os seus 13 romances e 12 livros de não-ficção que publicou. O seu trabalho evoluiu: das calmas comédias dos primeiros romances, tais como "Uma Casa para o Sr. Biswas" (1961), às conclusões pessimistas de trabalhos mais recentes, como "A Bend in the River" (1979), chegando à introspecção com tom de despedida evocada no seu romance que tem o maior caráter autobiográfico, "O Enigma da Chegada" (1987). Realmente, a sua obra possui duas constantes: uma lucidez infalível e uma capacidade de transformar o escrutínio em um exercício moral.

Mas talvez, ainda mais do que os seus romances, sejam os livros de viagem de Naipaul (ou, como ele prefere chamá-los, "explorações") que fizeram com que conquistasse a sua reputação. Livros como "India: A Wounded Civilization" (1977) e "The Return of Eva Perón with The Killings in Trinidad (1980) lançaram um olhar frio sobre o assunto.

"É preciso muita sorte, já que o livro pode fracassar em qualquer etapa", afirma Naipaul sobre as viagens literárias. "Pode ser que não se ache pessoas com quem falar. A sua narrativa pode não progredir, portanto, estamos lidando com grandes apostas. Até o momento os livros funcionaram. Mas tenho consciência da grande sorte embutida neles. Durante a escrita do último livro, quando viajei em 1995 e 1996, senti que não devia fazê-lo de novo, pois a minha sorte iria acabar".

Esse último livro, "Beyond Belief", como o volume que o precedeu, "Among the Believers", oferece uma visão altamente crítica do islamismo praticado no Irã, no Paquistão, na Malásia e na Indonésia. Desde 11 de setembro, os dois livros deram a Naipaul uma certa aura de especialista em assuntos internacionais. Ele suspira enquanto descreve um almoço do qual participou no Manhattan Institute, um instituto de pesquisas conservador de Nova York, onde quase todos os tópicos se centraram no terrorismo.

"Não tenho nada a declarar sobre isso", diz ele. "Não sei nada sobre o assunto. Há os dois livros que escrevi, um publicado em 1981 e o outro bem recentemente, em 1998. Mas eles não falam de árabes. São sobre outros ramos do mundo islâmico, os povos convertidos. Portanto, suponho que as pessoas redescobriram esses livros. Eles são fáceis de serem lidos, iluministas, e creio que esse seja o motivo de toda essa agitação".

Ao ouvir uma pergunta, Naipaul tem o hábito de repetir suavemente, "Sim, sim", ou "Diga-me, diga-me". As palavras se constituem menos em encorajamento ou afirmação do que em uma pontuação verbal: uma forma de conceder pausas a si, espaçar as suas respostas, formular uma resposta antes mesmo que a pergunta se cristalize. Quando a resposta vem, ela chega rapidamente e costuma ser curta e concisa. "Não gosto de dar entrevistas", diz Naipaul. "Gosto de permanecer com os meus pensamentos e idéias e não de descarta-los rapidamente. Caso contrário as idéias fogem, não são processadas de forma apropriada, não fermentam".

A fermentação não é uma condição que alguém associa naturalmente a Naipaul. O seu estilo é de repouso alerta e de suavidade. Ele não desperdiça palavras ou energia. O seu andar lento e firme é o exemplo mais óbvio disso. Na verdade, é o resultado de um problema de coluna. Naipaul passou por uma complicada cirurgia na espinha dorsal há uma década. De fato, é difícil imagina-lo se movimentando de um local a outro apressadamente. Quando ele agita uma mão no ar, esse gesto é compensado pela outra mão, que fica descansando sobre o colo.

Essa economia geral de movimentos se estende ao impressionante instrumento que é a sua voz. Mais do que um murmúrio, sem chegar a ser um encantamento, é uma melodia de violoncelo - elegante, aveludada - com vogais bem pronunciadas e consoantes amortecidas; uma expressão de sílabas agradáveis.

O efeito geral é de grande segurança: a face quadrada e pesada, com os olhos encobertos; os cabelos grossos penteados para trás, a barba igualmente espessa formando uma espécie de base monumental para a cabeça. A impressão que se tem é de uma grande força contida. Naipaul tem 1m67, mas é como se fosse necessário utilizar uma fita métrica para se certificar de que ele não é alto. Tudo que diz respeito a ele é grandioso. O seu pai era jornalista e os avós camponeses. Mesmo assim, Naipaul tem os modos e a autoridade de um aristocrata natural: alheio ao que se passa a sua volta, imponente e superior. Parece mais que Naipaul aceitou receber o Nobel do que a Academia Sueca decidiu conceder-lhe o prêmio.

Naipaul tem a fama de ser uma pessoa difícil. Essa reputação ganhou um impulso significativo em 1998, quando o romancista Paul Theroux publicou um livro de memórias, "Sir Vidia's Shadow", que não deixou dúvidas sobre os motivos que fizeram com que ele e Naipaul deixassem de ser amigos. Theroux descreveu Naipaul, um ex-mentor, como egocêntrico, venenoso, preconceituoso e dotado do hábito de fazer exigências impossíveis.

No entanto, atualmente, a única "exigência" que ele faz é no sentido de se sentar em uma cadeira, ao invés de um banco, a fim de poupar a sua coluna. Ele é, na verdade, extremamente amigável, embora não seja muito sociável. Isso, afinal, faz parte do ser aristocrata. Apresentar-se para ser visto, mas não para ser inspecionado.

No mês passado, Naipaul disse a um entrevistador: "Se um escritor não gerar hostilidade, ele está morto". Ele agora explica melhor o significado de tal afirmação. "Se um escritor é simplesmente adorado por tudo que diz e faz, isso significa que nada do que ele afirma é novidade. E os escritores devem ser estimulantes, provocar o desacordo. A palavra 'hostilidade' seria provocativa, mas eu basicamente me refiro a desacordo. Devemos sentir que fomos tomados por uma forma de ver o mundo".

Muitos críticos viram nos ensaios de Naipaul sobre os países subdesenvolvidos uma espécie de ataque. Onde os admiradores vêem nele um obstinado observador de verdades duras, outros detectam niilismo, na melhor das hipóteses, e racismo, na pior. "Ele não explica, apenas lamenta sarcasticamente", escreveu Edward Said, professor de literatura da Columbia University, ao comentar a visão de Naipaul sobre os povos do Terceiro Mundo. "Ele não aprende; eles provam".

Naipaul não aceita essa visão de si, como "a figura reacionária colonial", mas muita gente acredita que a sua posição política impediu que ele ganhasse o Nobel mais cedo.

"Todo grande escritor é produto de uma série de circunstâncias especiais", Naipaul escreveu certa vez sobre Joseph Conrad. As circunstâncias que produziram Sir Vidiakhar Surajprasad Naipaul foram realmente muito especiais. Ele cresceu imbuído da determinação absoluta de se tornar um escritor, ainda que sabendo que, para que isso se concretizasse, teria que deixar Trinidad. Ele precisava, segundo diz o próprio Naipaul, de ir "aos lugares onde os livros são impressos e publicados, criticados, vendidos nas livrarias... Não dava para escrever no lugar onde eu estava. Não haveria sentido nisso. Quem publicaria a sua obra? Quem te pagaria? Como é que você ganharia a vida?"

Para deixar Trinidad, Naipaul estudou incessantemente a fim de se qualificar para uma bolsa de estudos em Oxford. O dia em que soube ter conseguido a bolsa, ele relembra, " foi um dia de alegria ofuscante". Ele passou quatro anos em Oxford, tendo obtido um título em Inglês, e conhecido a sua primeira esposa, Patricia Hale. (Ela morreu em 1996. Ao final daquele ano ele se casou com Nadira Khannum Alvi, uma jornalista paquistanesa. Naipaul não têm filhos). Após Oxford, ele se mudou para Londres e fez trabalhos como autônomo para a BBC. O seu primeiro romance, "The Mystic Masseur", foi publicado em 1957. Parte do novo romance de Naipaul, "Half a Life", se passa naquele período. Ele tem início na Índia, descrevendo os antecedentes e a família de Willie Chandran, o seu herói. Willie se muda para Londres para estudar, onde conhece uma mulher de Moçambique, Ana, com quem se casa. Eles retornam para a casa dela, e a parte final do romance se passa na África.

"O interessante nesse livro é que todos os que o apreciam o lêem da sua própria maneira. Isso tem a ver com a forma como foi escrito, sem muitos detalhes concretos. Portanto, os retratos na mente de cada leitor podem ser algo que ele compreende, algo de sua própria vida, e os relacionamentos são igualmente simples. É uma das estranhezas do livro", afirma Naipaul.

Naipaul atribui a abstração do livro ao seu próprio processo de envelhecimento. "Sou um homem mais velho. Portanto, esse livro tem essa ligeira qualidade mística, de forma que o leitor pode se inserir nele. É uma qualidade característica dos contos de fadas".

A idade é algo que está presente na obra de Naipaul. Na sua obra anterior, "A Way in the World" (1994), o herói faz a seguinte observação sobre a sua juventude, "Era uma época na qual todos os dias eram longos". Ao ser perguntado se sente que, atualmente, cada dia é mais curto, Naipaul concorda. "Estou próximo do fim das coisas. Você deve entender isso. Aos 69 anos uma pessoa está próxima do fim. Nessa idade já se trabalhou muito, e o trabalho cansa. O cérebro fica cansado. Eu tenho um contrato para escrever mais dois livros e creio que esse será o meu limite".

No entanto, a idéia de que Naipaul deixe de escrever parece impensável. Ao ser perguntado se é capaz de imaginar o que teria feito caso não fosse escritor, Naipaul balança a cabeça.

"Não, não. Essa é uma história bizarra, uma coisa bizarra que aconteceu. E o mais bizarro de tudo é que eu tenha levado isso adiante até chegar a essa idade. É impressionante, já que não sabia dos truques para aprimorar o meu trabalho e como escrever, não conhecia os desapontamentos, os pequenos desencantos e tropeços ao longo do caminho. Eu não sabia nada sobre isso. Tive que aprender por conta própria. Eu creio que, na verdade, fico impressionado com todo esse meu percurso".

Naipaul deixa escapar uma risada seca e suave.

"Estou encantando, encantando por ter sido capaz de escrever todos esses livros".

Tradução: Danilo Fonseca

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