Ativista afegã quer recuperar direitos das mulheres em seu país

Brian Macquarrie
CAMBRIDGE, Massachusetts - Vestindo uma jaqueta preta de couro, e com uma xícara de café expresso com leite diante dela, Rina Amiri se inclina para frente em um café de Harvard Square e afirma com confiança que não se tornará uma "ativista pela paz de butique".

Não importa que esta californiana, que está cercada por estudantes de Harvard enquanto fala, seja filha de um médico, e prima de terceiro grau do rei exilado do Afeganistão.

Amiri disse que os ataques terroristas mudaram sua vida antes tranqüila, transformando uma acadêmica tímida em uma ativista concentrada em reconstruir seu país nativo a qualquer custo.

Ela, que fugiu do Afeganistão com sua família quando era criança em 1973, até mesmo preparou um testamento.

"Minha vida virou de cabeça para baixo", disse ela. Agora, Amiri está se fazendo perguntas como: "Pelo que você viveria, pelo que você morreria?"

A transformação foi repentina, provocada por uma declaração que Amiri fez ao senador John F. Kerry durante seu encontro em 18 de setembro com estudantes muçulmanos na Escola Fletcher de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts.

Quando o plenário foi aberto para perguntas, Amiri enfatizou que nem todos os muçulmanos pensam da mesma forma, ou nutrem ódio contra os Estados Unidos.

"A cor de nosso cabelo ou de nossa pele não reflete o que está em nossos corações e mentes", disse Amiri.

Após o discurso, ela foi abordada por repórteres. De lá para cá, ela emergiu do anonimato em uma torre de marfim em Tufts e Harvard para se tornar uma das principais vozes da região pelos direitos das mulheres e pela assistência aos refugiados no Afeganistão.

Desde então, ela tem dado palestras, escrito artigos de opinião, aparecido em programas de TV, e participado em fóruns que discutem o destino de seu país natal.

E nas duas últimas semanas na Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard, Amiri tem participado do encontro anual das "Women Waging Peace" (mulheres lutando pela paz), uma rede de ativistas de várias áreas de conflito ao redor do mundo.

A meta de curto prazo de Amiri é voltar a atenção da mídia e da ajuda humanitária para os milhões de refugiados que fugiram da chuva de bombas e balas que a coalizão liderada pelos Estados Unidos está despejando sobre as forças do Taleban no Afeganistão. Ela argumenta que o destino dos refugiados, que se torna cada vez mais perigoso com a proximidade do inverso rigoroso, está intimamente ligado ao futuro da segurança dos Estados Unidos.

Assim como a guerra civil afegã que se seguiu à retirada das forças soviéticas em 1989 criou uma oportunidade para o extremismo do Taleban, disse Amiri, a indiferença do Ocidente para com os novos refugiados poderá gerar mais ressentimentos e uma perigosa instabilidade política. De tal tumulto, disse Amiri, pode surgir futuros terroristas.

"Não podemos dizer que (o Afeganistão) não é o nosso quintal, que não é do nosso interesse", defende Amiri. "Os Estados Unidos precisam assumir um papel de liderança".

Amiri planeja retornar em breve ao Afeganistão para trabalhar pela reconstrução política do país, e a reemergência das mulheres em todos os níveis da sociedade afegã. Quando o Taleban chegou ao poder nos anos 1990, as mulheres foram forçadas a uma cidadania de segunda classe, destituídas da maioria de seus direitos, e obrigadas a esconderem seus rostos e corpos em público.

Até a sua volta, Amiri trabalhará atrás de tribunas, falando diante de microfones, e do outro lado dos blocos de notas dos jornalistas. Mas falar tem seu preço, mesmo que o custo até o momento seja medido apenas em momentos efêmeros de ansiedade pessoal.

"Há pessoas em nosso meio que odeiam que uma mulher afegã -especialmente uma mulher- assuma uma posição contra o Taleban", disse Amiri.

Amiri expressou tal posição na CNN, na National Public Radio, na Wbur-FM, e em discursos na Escola Fletcher, Universidade de Harvard, Boston College, Simmons College, MIT e na Escola do Museu de Belas Artes.

Ela também escreveu artigos de opinião para jornais e revistas, incluindo o The Boston Globe, e foi citada em artigos e editoriais publicados em todo o país.

Amiri conseguiu fazer tudo isto ao mesmo tempo em que estuda questões da Ásia Central e Sudoeste Asiático na Escola Fletcher, e presta consultoria aos esforços de ajuda a refugiados do Fundo Educacional das Mulheres Afegãs no Paquistão.

"Eu perdi completamente minha vida social", disse Amiri. "Tudo o que faço está centrado na questão afegã".

A questão repercute profundamente em Amiri, apesar de nunca ter voltado ao Afeganistão desde que sua família fugiu em 1973 de um golpe de estado que derrubou o rei. "Meu pai sentiu que corria risco de vida", disse ela, cuja tribo inclui o velho rei exilado, Mohammed Zahir Shah. O monarca perdeu seu trono em parte por ter enfurecido os extremistas muçulmanos quando tentou estender a educação e outros direitos às mulheres.

Amiri vê a si mesma nas imagens atuais de crianças refugiadas afegãs, segurando firmemente as mãos de seus pais enquanto lutam para chegar até o Passo de Khyber e ao Paquistão. Apesar de ter 4 ou 5 anos na época -Amiri não sabe exatamente qual é a sua idade- a ligação é dolorosa.

"Por alguma virada celestial da moeda, minha família tinha recursos para partir", disse ela.

Após uma breve estadia em Bombaim, a família imigrou para São Francisco, onde eles mantiveram uma vida afegã em meio à enorme diferença cultural da Califórnia.

"Minha família fala apenas farsi em casa. Nós ouvimos música afegã, comemos comida afegã. Nossos casamentos são afegãos", disse Amiri. "Nós vivemos naquela cultura congelada. Nós preservamos a noção do que significa ser afegão".

Agora, apesar de estar a um quarto de século nos Estados Unidos, Amiri está disposta a voltar para casa. Ela deseja voltar pelas crianças, assim como pelas mulheres que ela diz terem tido um papel vital na educação e no comércio do Afeganistão pré-Taleban.

"Eu estou em posição de fazer isto, em razão da minha identidade", disse Amiri. "Eu sou um rosto humano para o problema".

Amiri também traz inteligência e sensibilidade à discussão, disse Najim Azadzoi, chefe da Comunidade Afegã da Nova Inglaterra.

"Ela tem uma compreensão muito boa da situação. Ela não é tendenciosa. Ela não está ligada politicamente a nenhum partido", disse Azadzoi. "Nós realmente precisamos de alguém com tal caráter, especialmente entre as mulheres".

Para Amiri, a causa é tanto de importância global quando de natureza pessoal -reviver o sofrimento do povo afegão.

"Eu não posso tomar partido em uma guerra. O único partido que tomo é o das pessoas", disse ela. "Eu tenho um propósito agora".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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