Bin Laden usa psicologia e religião para montar sua rede

Michael Kranish e Anthony Shadid

Washington, EUA -- Enquanto as Forças Especiais americanas caçam Osama bin Laden nas cavernas do Afeganistão, está em curso uma outra busca por pistas que expliquem a visão de mundo que levou um dos integrantes de uma das famílias mais ricas do mundo a abraçar uma versão extremista do Islã, a atrair jovens de relativa riqueza para sua causa e transformá-los em assassinos suicidas.

Bin Laden, assim como a maioria dos 19 seqüestradores das aeronaves, não representa um típico terrorista.

No entanto, analistas já observaram que Bin Laden é o único filho da menos querida entre as mulheres de seu pai - uma mulher nascida na Síria. Portanto, Bin Laden seria muito apegado à mãe mas foi compelido a ganhar destaque sob os olhos do pai e do resto de sua família. De acordo com este retrato psicológico, Bin Laden se disporia a fazer qualquer coisa para conquistar poder e eclipsar seu pai, que morreu quando ele tinha dez anos de idade.

Outros analistas destacam que Bin Laden herdou US$ 300 milhões de sua família e que tentou agradar ao pai de diversas maneiras, chegando até a trabalhar com a família real saudita em monumentais projetos de construção. Bin Laden explicou certa vez sua relação com o pai desta forma: "Meu pai sempre frisou que um de seus filhos deveria lutar contra os inimigos do Islã. Portanto, sou o único filho que aje de acordo com o desejo do pai".

Bin Laden tornou-se mais zeloso acerca da religião do que vários outros membros de sua grande família, e foi orientado por um jordaniano chamado Abdullah Azzam, que já foi descrito como o substituto de seu pai. O lema de Azzam era "Apenas o rifle e a jihad: nada de negociações, encontros ou diálogos", de acordo com o recém-lançado livro "Holy War Inc.", de Peter Bergen.

Assim sendo, quando Azzam foi morto em 1989 com uma bomba colocada em um automóvel no Paquistão, Bin Laden - que até então era pouco conhecido fora da Arábia Saudita e do Afeganistão - jurou levar adiante a "guerra santa" de Azzam. Bin Laden estivera no Paquistão em apoio a guerra dos afegãos contra os soviéticos.

"O mito da superpotência foi destruído não apenas no meu espírito, mas no espirito de todos os muçulmanos", disse Bin Laden, ignorando que a vitória se deve em grande parte ao auxílio de US$ 3 bilhões oferecido pela CIA aos combatentes afegãos.

Em 1990, quando as forças americanas aterrissaram na Arábia Saudita para expulsar as forças iraquianas do vizinho Kuait, Bin Laden afirmou que o governo saudita deveria ser deposto por permitir a presença de forças americanas em seu território. Muitos muçulmanos consideram sagrado o território saudita, aonde se encontram dois pontos sagrados de visitação do Islã, Meca e Medina.

Suas exigências se tornaram mais amplas, e acabaram por se transformarem em uma convocação para a "jihad", ou guerra santa, contra a América. Inicialmente, Bin Laden solicitou que os Estados Unidos deixassem a Arábia Saudita, e em seguida, um ataque contra alvos militares americanos. Em 1998, ele disse que consistia em um dever religioso o ataque contra qualquer americano, até mesmo contra civis inocentes. Mais recentemente o líder do Taleban, o mulá Mohammed Omar, conclamou os seguidores de Bin Laden a destruir a América.

Bin Laden e seus seguidores alegam razões religiosas para suas ações, e baseiam-se em sua interpretação do ramo puritano do Islã, conhecido como Wahabismo. Este ramo é efetivamente uma doutrina de Estado na Arábia Saudita, e ele é ensinado - há várias gerações - em milhares de escolas religiosas espalhadas pelo Oriente Médio e Ásia Central. Muitos chegaram a contar com financiamento de origem saudita, tanto público quanto privado.

"As escolas religiosas são radicalmente antiamericanas", afirma Jerrold Post, que crio o perfil dos terroristas para a CIA. "Aqui [Bin Laden] prega para um grupo que já foi formado previamente. Com 8, 9, ou 10 anos de idade eles já gritam "jihad, morte à América".

O Wahabismo é uma referência ao evangelista do século 18 Mohammed ibn Abd al-Wahhab, que clamava por um retorno a um Islã mais puro e simplificado que havia resistido a séculos de tradição que concederam ao Islã uma história robusta de competições e, por vezes, a tradições culturais e intelectuais contraditórias.

A tradição Wahhabi condena a filosofia e outras disciplinas como "ciências do demônio". A música era proibida, assim como uma extensa lista de outros avanços considerados como inovações perigosas. (O Taleban está vinculado ao ramo Deobandi do Islã, surgido na Índia do século 19 e bastante semelhante ao Wahabismo).

Quinze entre os 19 seqüestradores vieram da Arábia Saudita, e quase todos eles partilhavam da concepção religiosa do Wahabismo.

Os seqüestradores sauditas também eram geograficamente próximos, e muitos deles vieram das províncias de Asir e al-Baha, na região sudeste do país. Estas províncias não foram beneficiadas pelo boom do petróleo na década de 70. Porém os seqüestradores eram, de modo geral, o fruto de uma educação de classe média. Boa parte deles eram parentes de pregadores religiosos, chefes de polícia, pilotos e empresários. Acredita-se que quase todos eles tenham vivido por algum tempo no Afeganistão.

"Há uma completa mudança em relação ao protótipo que conhecíamos", afirma Vincent Cannistraro, ex-chefe de contra-inteligência da Cia. "Aquilo que vemos desde o início do terrorismo, no Hamas, na Palestina, é que eles vivem em uma situação alienada, desesperada. Eles não tem nada a perder. Há um outro impulso. Aqui neste caso eles dizem: 'nós fazemos isto porque estamos em uma guerra santa ditada por Deus'".

De fato nenhum dos seqüestradores envolvidos no ataque de 11 de setembro era palestino. Os quatro pilotos tiveram educação, e ao menos três provinham de famílias razoavelmente ricas".

Rona M. Fields, uma psicóloga que estudou terroristas em todo o mundo, afirma que os seqüestradores tiveram um desenvolvimento incompleto. "Eles acreditam que sua identidad grupal - a religião muçulmana - foi vitimada e oprimida por outros", ela afirma. "Isto é muito comum em outros grupos de terror. Eles se encontram naquilo que se define ... como o segundo estágio do desenvolvimento moral, o estágio da justiça retributiva ou "vendetta". Isto significa que quando se comete um mal contra seu grupo, é como se o mal fosse cometido contra eles próprios, e eles respondem com a busca pela vingança".

Os terroristas jamais chegaram ao estágio seguinte da formação moral, no qual a justiça é uma questão moral universal que depende da regra definida pela lei, ela diz. Deste modo, eles eram alvos fáceis para a influência de Bin Laden. Na verdade, Fields acredita que Bin Laden seja um grande psicólogo, que "maneja tudo que sabe a respeito do psiquismo humano para moldar e manipular um grupo".

As'ad AbuKhalil, um pesquisador do Centro de Estudos do Oriente Médio na Universidade de Berkeley, Califórnia, acredita que as idéias dos árabes "tem menos a ver com o Islã e mais a ver com o ódio, o ódio em relação ao que se passa com os palestinos, ao que se passa com os iraquianos. Tem muito mais a ver com um clima geral de frustração privações, ódio e ressentimento produzido por décadas de derrotas, pobreza e repressão".

Bin Laden abriu as comportas deste ódio e inundou-o com o Wahabismo. Sua declaração feita em 1998 merece destaque por conclamar o assassinato de civis americanos, algo que Bin Laden tenta racionalizar ao afirmar que os muçulmanos são ameaçados pelos Estados Unidos.

A questão para as autoridades americanas consiste em saber se o sucesso militar americano no Afeganistão indica que a jihad de Bin Laden fracassou, ou se suas declarações darão vazão a mais terrorismo.

"Para ele está muito claro: ele considera os Estados Unidos como agressor, o inimigo dos sauditas, dos palestinos, dos iraquianos e de todo o povo muçulmano. Ele considera ser sua responsabilidade" a busca por vingança contra os Estados Unidos, afirma Diaa Rashwan, um especialista sobre as milícias do Islã no Centro de Estudos Políticos e Estratégicos al-Ahram, no Cairo. "Ele se transformou em um líder messiânico da jihad".

Tradução: André Medina Carone

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