Guerra agrava problemas econômicos dos paquistaneses

Yvonne Abraham

Islamabad, Paquistão - É meio-dia, e o terreno estreito e sujo próximo ao Mercado Peshawar More deveria estar vazio há muitas horas.

Os homens que se aglomeram aqui todas as manhãs, durante anos, já deveriam ter recebido a aprovação dos patrões e ter sido contratados para fazer trabalhos braçais.

Mas, dessa vez, a rotina foi quebrada. Uma multidão de homens aguarda. A variedade é grande. Há os vigorosos e de cabelo grisalho, os jovens e nervosos. Todos têm grande resistência física. Alguns trouxeram as suas próprias enxadas e picaretas. Outros empilharam pincéis de pintura limpos ao lado da estrada. A economia paquistanesa, que já estava caindo aos pedaços antes de 11 de setembro, ficou pior desde aquela data. Os homens que aguardam na fila não precisam ouvir um pronunciamento oficial do Ministro das Finanças para entender esse fato. As suas mãos lisas e os estômagos vazios já lhes avisaram que a situação anda preta.

"Estamos tendo que comer cada vez menos", afirma Khairullah Khan, um homem alto, de rosto chata e barba grisalha, nativo da Província da Fronteira Noroeste do Paquistão. "Não podemos mais comprar carne; apenas pão e chá e, às vezes, alguns legumes. A nossa dieta foi cortada pela metade", queixa-se Khan.

"Devido à guerra ao lado, nós também estamos em apuros", afirma. "Estamos passando por maus pedaços".

Mas, segundo os analistas, esses problemas começaram bem antes da guerra. A economia do Paquistão estava em crise quando a nação testou a sua primeira arma nuclear em 1998. As sanções internacionais devido aos testes fizeram com que a situação econômica piorasse. O país passou a lutar para pagar uma dívida de US$ 38 bilhões (R$ 95,11 bilhões) que paralisa a economia. O sistema tributário foi varrido por abusos e evasão fiscal. As taxas não oficiais de desemprego chegaram a 20% em algumas cidades.

"Há quatro anos estamos enfrentando uma recessão, grandes mudanças no governo, a falta de uma estratégia econômica consistente, uma crise política, a falta de determinação para modernizar a economia e privatizar as indústrias e bancos estatais e a relutância em cobrar impostos da população", afirma Ashmed Rashid, escritor e jornalista. "Uma parcela do povo pode estar rica, mas o governo está paupérrimo".

E então veio o dia 11 de setembro e com ele uma nova curva descendente. Embora o Paquistão tenha apoiado a coalizão contra o Taleban, e apesar do fim de algumas sanções, a nação passou a ser considerada como zona de guerra, sendo, portanto, muito arriscada para os investidores.

"Se havia alguma esperança de retomada dos investimentos estrangeiros, essa esperança no momento está morta", afirma Faisal Bari, professor associado de economia da Universidade Lahore de Ciências Administrativas. "Nenhum investidor ou empresa privada vai cogitar em investir no Paquistão neste momento, independente de os Estados Unidos estarem nos tratando amigavelmente ou não".

As encomendas do exterior por produtos e mão-de-obra paquistanesa foram canceladas. As indústrias locais e outros empregadores reduziram os gastos, demitindo milhares de trabalhadores. E os paquistaneses, cada vez mais nervosos com a guerra em andamento no vizinho Afeganistão, estão mais relutantes em gastar seu dinheiro.

Embora o Paquistão tenha sido recompensado este mês com um pacote de ajuda econômica no valor de US$ 1 bilhão (R$ 2,5 bilhões) pelo seu apoio aos Estados Unidos, os problemas econômicos estruturais do país continuam os mesmos.

"O verdadeiro problema é reverter o desemprego, e isso significa investimento. Mas não há nenhum sinal de que tal coisa esteja ocorrendo", diz Rashid. "Os norte-americanos não vão vir aqui e salvar a nossa economia".

Portanto, os homens de Peshawar More aguardam, assim como milhares de outros na mesma situação, nas esquinas e beiras de estradas de todo o Paquistão.

Em tempos melhores, eles conseguiam ganhar entre 150 a 200 rúpias por dia - o equivalente a algo entre US$ 2,50 e pouco mais de US$ 3. Agora, quando têm sorte, conseguem 100 rúpias.

"Ficamos sentados aqui, sem fazer nada, o dia todo", conta um dos 60 homens que rodeiam um visitante, esperando uma oferta de emprego. "Não há mais trabalho".

"Estou aqui há dez dias e só consegui trabalhar uma vez", conta outro homem.

O desemprego tem feito com que as críticas se avolumem. Todos culpam o presidente Pervez Musharraf pelas agruras econômicas da nação. Segundo um dos homens, a situação era melhor antes de o general-presidente tomar o poder. Eles também culpam o ditador por ter envolvido a nação em uma guerra.

Dez minutos antes, houve uma discussão entre dois homens que disputavam um trabalho: cada um deles conta que não tem um centavo sequer nos bolsos. A questão é decidida da maneira tradicional na região.

"O que for mais forte é o que tem razão", gritam vários homens, em inglês.

"O mais forte vai sobreviver", diz um outro. "Quem for mais forte e trabalhar por um salário menor, e quem conseguir passar por cima do outro consegue o emprego".

Mas, no final do dia, as brigas foram esquecidas. "As brigas são passageiras, já que aqui temos que conviver uns com os outros".

Distantes das famílias e de suas casas, os homens vivem em uma espécie de comunidade, dormindo nas calçadas ou sobre os telhados, pegando pequenas quantias emprestadas com os colegas que estão trabalhando e mandando os companheiros doentes de volta para a sua vila.

Segundo os paquistaneses do grupo, a vida já era muito dura sem a chegada dos refugiados afegãos, e a guerra fez com que um número ainda maior desses refugiados cruzasse a fronteira e entrasse no Paquistão. Os paquistaneses admitem que os afegãos estão ainda mais desesperados do que eles, cobrando apenas a metade do salário de um paquistanês por um dia de trabalho.

"O que posso fazer, a não ser cobrar menos?", diz Mohammad Saeed, um afegão que está no Paquistão há 20 anos e que viajou de Peshawar para Islamabad em busca de trabalho. "Temos que sustentar nossas famílias. Quando não há trabalho, temos que nos virar para encontrar o que comer. Portanto, encaramos qualquer oportunidade que apareça. Já os paquistaneses são mais exigentes".

Alguns dos paquistaneses dizem que viajaram para o leste a fim de se distanciar da fronteira, onde os salários são baixíssimos.

"Na nossa área há muitos refugiados afegãos que tomaram os nossos empregos. Por isso, fomos obrigados a vir para Islamabad", diz Khan. "Mas até aqui a concorrência é grande".

"Não sabemos mais para onde ir", diz ele. "Se pudermos conseguir um visto norte-americano, iremos para os Estados Unidos".

"Você não tem dinheiro nem para um pedaço de pão", zomba um dos seus colegas. "Como é que vai comprar uma passagem para os Estados Unidos?".

O comentário faz com que Khan pare de falar por um instante. Mas logo depois ele é tomado por uma inspiração. Trata-se da mesma lógica que fez com que milhares de afegãos e alguns paquistaneses se tornassem soldados talebans. "Podemos combater na guerra, se alguém nos pagar", diz ele.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos