Apoio de americanos à guerra no Afeganistão depende de discurso do governo

Tatsha Robertson, Anne E. Kornblut e Robert Schlesinger

Com o aumento de tropas terrestres americanas no Afeganistão, cresce a possibilidade de baixas. Diante dessa situação, o presidente Bush parece contar, pelo menos por enquanto, com algum apoio público para enfrentar eventuais mortes e ferimentos dos soldados dos EUA, .

Analistas militares e de opinião pública frisam que tal tolerância só se manteria enquanto o governo Bush continuasse a explicar de forma convincente as razões pelas quais o país está lutando no Afeganistão, e enquanto a população sentisse que os seus lideres estão sendo honestos sobre a possibilidade de perder soldados.

"A tolerância norte-americana às baixas está diretamente relacionada ao modo como a guerra é explicada ao público pela liderança nacional", afirma Tom Nichols, professor de estratégia da Universidade Naval dos EUA.

Até o momento nenhum soldado americano morreu na guerra no Afeganistão. Mas a administração Bush está preparando o público para aceitar eventuais mortes desde o início dos bombardeios aéreos, em 7 de outubro.

Tanto a Casa Branca quanto o Pentágono têm sido cuidadosos ao escolher a linguagem e as imagens para lembrar à população que os soldados individuais estão no solo, correndo riscos todos os dias. Uma parte dessa estratégia inclui a necessidade da permissão do Pentágono para fotografar as tropas de combate.

"Trata-se de um ambiente difícil para os norte-americanos que estão posicionados na região", disse na terça-feira o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. "Aliás, o ambiente é difícil para todas as tropas da coalizão que estão no local e para as forças de oposição que tentam implementar alguma estabilidade nas vilas e cidades".

Esta semana, o presidente Bush advertiu que a guerra contra o Taleban entrou na sua fase mais perigosa e mortífera. E o secretário de Estado, Colin L. Powell, disse à CNN que "os militares sempre entendem que haverá baixas, e que nunca se deve entrar em um conflito acreditando-se que vidas não serão perdidas".

"Devemos sempre tentar travar uma guerra de maneira minimizar a perda de vidas do nosso lado. Isso é algo de coerente, e foi isso que aprendemos a fazer. Mas a missão vem em primeiro lugar. E, no desempenho dessa missão, é necessário que se espere a ocorrência de baixas; vidas serão perdidas. É por isso que eles são chamados de soldados", disse Powell, ex-general do exército e ex-comandante da Junta de Chefes do Estado Maior.

O vice-presidente Dick Cheney lembrou em um recente discurso que o número de mortes na campanha bélica no exterior nunca deve ser acrescentado à lista daqueles que morreram no World Trade Center, no Pentágono e nos quatro aviões seqüestrados no dia 11 de setembro. Desde então, as autoridades governamentais têm insistido em dizer que haverá baixas em combate, mas que o público não vai vacilar quando os soldados norte-americanos morrerem.

Ainda assim, alguns analistas afirmam que o apoio à guerra não está garantido no caso de os Estados Unidos começarem a perder um grande número de tropas terrestres.

"Creio que haverá um curto período de tolerância. Não acho que tal estado de espírito duraria muito tempo", afirma Albert Keim, professor aposentado da Eastern Mennonite University. "O meu palpite é que, se centenas de sacos com corpos começarem a chegar ao país, estaremos em apuros".

Cinco membros de forças especiais dos Estados Unidos que tentavam dominar uma rebelião de prisioneiros talebans em Mazar-e-Sharif foram feridos na segunda-feira quando uma "bomba inteligente" errou o seu alvo. Nenhum dos feridos corre risco de vida, mas o acidente demonstrou os riscos existentes quando soldados estão atuando no solo. Um outro norte-americano, que se acredita ser um agente da CIA capturado pelos prisioneiros durante a rebelião, teria sido morto.

Stanley Karnow, escritor e historiador do Vietnã, afirma que os norte-americanos aceitarão as baixas, contanto que o governo exiba progressos na guerra.

"O que aconteceu no Vietnã foi que tivemos baixas sem conseguirmos progressos nos campos de batalha", explica Karnow.

Apesar do forte apoio público a Bush, as pesquisas de opinião indicam que o governo perderia entre sete a dez pontos percentuais de aprovação caso houvesse "um número considerável de baixas", segundo o analista independente de pesquisas, John Zogby.

"Para mim, isso sugere que o apoio a essa guerra não é monolítico", diz Zogby. "É por isso que esse governo tem procurado de forma tão obstinada vender esse conflito ao público como sendo uma luta contra gente que trata mal as mulheres".

Tanto Karnow quanto Nichols dizem que a idéia de que os norte-americanos são incapazes de aceitar baixas de guerra é um mito.

"É importante não esquecer que já assimilamos mais de três mil baixas neste conflito, durante os ataques de 11 de setembro e, portanto, a população entende que a guerra é um negócio sujo", diz Nichols.

Estudos demonstraram que, embora a nação tenha retirado as suas tropas da Somália após a morte de 18 soldados em Mogadishu, em 1993, a população americana teria apoiado o presidente Clinton caso ele decidisse manter as tropas no país africano.

Tanto Nichols quanto Karnow dizem que o apoio público à Guerra do Vietnã era forte enquanto a população acreditava que os Estados Unidos venceriam o conflito, e até mesmo enquanto pensavam que certos objetivos pudessem ser atingidos.

Mesmo assim, Woody Powell, membro da organização Veteranos pela Paz, afirma que muitos norte-americanos foram tomados por uma sensação de poder ao ver as forças armadas dos Estados Unidos atuarem no Afeganistão sem sofrer uma única baixa em combate.

"Porém, acredito que agora essa situação mudará", diz Powell, que lutou na Guerra da Coréia. "Creio que vai ter gente revoltada, mas isso será o bastante para que haja pessoas dispostas a reclamar?".

Até recentemente, a luta em terra no Afeganistão foi deixada a cargo dos soldados "contratados" pelos Estados Unidos -- os rebeldes da Aliança do Norte que foram capazes de conquistar cidades como Cabul e Mazar-e-Sharif com o auxílio do bombardeio norte-americano. Os poucos norte-americanos que morreram na região foram vítimas de acidentes, e não de combates. Mas as autoridades governamentais agora enfatizam os riscos, em um momento em que cerca de mil fuzileiros navais se posicionam ao sul do Afeganistão.

"Tem gente nessas cidades que está escondida e disposta a amarrar granadas ao corpo e explodir a si própria e a quem mais esteja à sua volta", afirmou nessa semana Rumsfeld.

Tradução: Danilo Fonseca

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