Bin Laden utiliza táticas afegãs para escapar de forças norte-americanas

Indira A.R. Lakshmanan

Quetta, Paquistão --­ Oito semanas após os Estados Unidos terem iniciado o bombardeio do Afeganistão, Osama bin Laden continua oculto em um terreno acidentado e pouco habitado, composto de montanhas inacessíveis e de cavernas ocultas.

A maneira como o fugitivo mais procurado do mundo, para cuja captura há uma recompensa de US$ 25 milhões, tem conseguido escapar dos satélites e dos equipamentos de escuta de alta tecnologia, além das tropas especiais norte-americanas, compõe uma história fascinante de um homem que transformou o ato de se esconder em uma verdadeira arte. Em um país do tamanho do Texas, com um terreno tão acidentado que poderia ocultar legiões de fugitivos, Bin Laden estaria evitando ser detectado através da adoção de expedientes como a mudança de localização todas as noites e a utilização de mensageiros que viajam em lombos de burro, ao invés de optar por telefones de comunicação via satélite.

Especialistas no Afeganistão e na Al Qaeda, a rede terrorista de Bin Laden, atribuem o seu sucesso em escapar do cerco à sua personalidade paranóica, e à sua familiaridade com a topografia do Afeganistão. Essa familiaridade se deve aos anos em que lutou na guerra contra a ocupação soviética, de 1979 a 1989.

Segundo os especialistas, igualmente importante é a lealdade com que o saudita conta no seu círculo interno de colaboradores, a cooperação de afegãos que lhe são simpáticos, grandes falhas nas operações norte-americanas de coleta de inteligência e a falta de desertores do Taleban e da Al Qaeda que fornecessem informações confiáveis sobre o seu paradeiro.

Os líderes anti-Taleban e os oficiais militares dos Estados Unidos insistem em dizer que estão fechando o cerco sobre Bin Laden. Segundo eles, o terrorista estaria nos últimos dias escondido provavelmente em um complexo oculto de cavernas ao leste do Afeganistão ou ao sul da província de Candahar, a última fortaleza dos seus protetores talebans.

Mas muitos aqui duvidam de que o exilado saudita possa ser encontrado em quaisquer dos lugares onde está sendo procurado pelos Estados Unidos.

"Ninguém pode encontrar Osama", afirma Haji Namatullah Noorzai, chefe da tribo Noorzai, da província de Candahar. "A complexidade do terreno está além da imaginação de qualquer pessoa. Até mesmo alguns reis que governaram o país foram incapazes de conhecer todo o Afeganistão".

Noorzai acabou de retornar à sua cidade na fronteira, após negociações fracassadas no sentido de persuadir o Taleban a se render em Candahar, privando assim Bin Laden de mais um local onde pudesse se abrigar.

"Os Estados Unidos terão de vasculhar cada metro quadrado. Essa é a única maneira de encontrá-lo", concorda Sidney Peterssen, diretor do Comitê Sueco para o Afeganistão.

Peterssen passou os últimos cinco anos dirigindo a maior organização governamental de auxílio no Afeganistão. Ele descreve as montanhas Hindu Kush como sendo tão remotas que quem se aventura por suas passagens costuma viajar durante dois dias seguidos sem encontrar uma única pessoa. "É fácil de se esconder em um local como esse", diz ele.

O local recentemente mencionado como sendo um provável esconderijo de Bin Laden é Tora Bora, uma fortaleza que fica cerca de 50 quilômetros ao sul de Jalalabad, encravada nas Montanhas Brancas, no leste do Afeganistão.

Podendo somente ser alcançada após uma marcha de três horas, em um terreno inclinado, a partir da estrada mais próxima, e oculta por árvores, Tora Bora abriga um lendário complexo fortificado de cavernas, composto de salas e túneis que podem esconder mil pessoas, escavado a uma profundidade de 350 metros no pico Ghree Khil, de quatro mil metros de altitude. O complexo foi construído para abrigar os guerrilheiros mujahedins, com o auxílio dos Estados Unidos, durante a guerra contra os soviéticos, e acredita-se que tenha sido utilizado no passado por Bin Laden e pela Al Qaeda.

Os comandantes anti-Taleban que declararam um governo provisório em Jalalabad dizem que estão 90% certos de que Bin Laden se encontra em Tora Bora.

Na terça-feira, o chefe de segurança da província de Jalalabad, Hazrat Ali, disse que estava montando uma força de cerca de três mil homens para caçar Bin Laden nas Montanhas Brancas. Ele disse que uma das suas patrulhas se engajou na terça-feira em uma rápida batalha com um grupo de combatentes da Al Qaeda.

Segundo Ali, o intenso bombardeio aéreo dos Estados Unidos tem expulsado os combatentes da Al Qaeda do principal complexo de Tora Bora, fazendo com que os guerrilheiros se dirijam às montanhas mais altas, onde estariam se dividindo em pequenos grupos.

No sábado passado, o ministro do Exterior da Aliança do Norte, Abdullah Abdullah, afirmou que é mais provável que Bin Laden esteja oculto nas montanhas do sul do Afeganistão, onde um governo simpático ao saudita ainda está no poder. "Acredito que alguns dos seus comandados estejam em Tora Bora, mas não o próprio Bin Laden", afirmou Abdullah.

Os especialistas em Bin Laden entrevistados também duvidam que ele ainda estaria em um refúgio tão conhecido.

"Tora Bora foi abandonado por ele em 1998, quando o líder do Taleban, Mulá Mohammed Omar, lhe disse para deixar o local, porque a inteligência paquistanesa estaria colaborando com a CIA e Osama poderia ser localizado", afirma Hamid Mir, um jornalista paquistanês que é biógrafo de Bin Laden, sendo a única pessoa a entrevistá-lo desde 11 de setembro.

Mir se encontrou com Bin Laden pela primeira vez em março de 1997, em uma caverna próxima a Jalalabad, que, segundo o jornalista, talvez ficasse em Tora Bora. Em 1998 eles se encontraram novamente por vários dias, em um grande complexo próximo ao aeroporto de Candahar. Mais recentemente, Mir foi levado de Cabul vendado, drogado e enrolado em um lençol para um encontro com o saudita, em uma casa de estuque, em um local frio, em 8 de novembro. Antes de falar com Bin Laden, Mir recebeu a ordem de tomar três banhos quentes seguidos, um procedimento que, segundo os guardas, era necessário para remover qualquer substância química do seu corpo e de suas mãos, que pudesse ser transferida para Bin Laden e, de alguma forma, transmitir a localização do fugitivo.

Mir disse ter rodado a esmo em um veículo por cinco horas até um local que ele acredita ficar ao norte de Cabul. Ele suspeita que Bin Laden deixou o local imediatamente após a sua entrevista de duas horas. As fontes de Mir dizem que o saudita estaria escondido em algum lugar na província de Candahar, que possui florestas fechadas e altas montanhas, na região oeste e noroeste.

Mas o general Hamid Gul, ex-chefe da inteligência paquistanesa durante a última guerra afegã, descarta Tora Bora e Candahar como sendo os esconderijos de Bin Laden. "Se ele é uma pessoa tão esperta, por que iria para locais tão conhecidos?", pergunta Gul. "Existem áreas no Afeganistão que são extremamente inacessíveis, onde nem os russos, no decorrer de uma década, jamais se aventuraram".

Nisar Malik, um produtor da TV paquistanesa que é o único jornalista a ter visitado a cidade de Candahar, controlada pelo Taleban, no mês passado, disse que o principal motivo pelo qual Bin Laden está foragido há tanto tempo é o fato de ele não confiar em ninguém, viajar em pequenos grupos, e revelar a sua localização apenas para o pequeno grupo que o assessora e para os seus guarda-costas.

Segundo Gul, a recompensa de US$ 25 milhões pela cabeça do saudita provavelmente não vai surtir efeito, já que Bin Laden é capaz de oferecer o dobro dessa soma pelo silêncio. Além do mais, Mir diz que seria "impossível" comprar os membros da Al Qaeda, já que eles são leais à sua causa e passaram por um processo de lavagem cerebral".

Malik concorda que a lealdade é um fator que contribui para a proteção de Bin Laden. "A sua gente o ama e lutaria por ele, já que durante 15 anos Osama serviu de exemplo, sentando-se no chão e comendo com eles, e optando por não ficar curtindo a vida em Nice e Dubai, algo que, com a sua fortuna, poderia ter feito tranqüilamente", diz Malik. "Os seus seguidores mais próximos dariam a vida por ele em um piscar de olhos. Eles nunca o abandonarão".

Rahimullah Yusufzai, diretor executivo do jornal paquistanês "The News", e o único jornalista, além de Mir, a ter entrevistado tanto Bin Laden quanto o Mulá Omar, culpa a "má qualidade da inteligência norte-americana" pelo fracasso dos Estados Unidos em capturar qualquer um dois homens.

"Eles não possuem nenhum agente de operações infiltrado, atuando no solo, que esteja ouvindo conversas em locais públicos", diz Yusufzai. "Os norte-americanos dependem de escutas telefônicas e de vasculhar e-mails... Mas qual é o nível tecnológico presente no Afeganistão?".

Yusufzai acredita que Bin Laden possa estar utilizando sósias para confundir os batedores inimigos, mas não crê que, para tentar fugir do Afeganistão, o líder da Al Qaeda tentaria se disfarçar usando estratégias como fazer a barba ou usar uma burka (vestimenta para as mulheres, imposta pelo Taleban, que cobre a pessoa da cabeça aos pés).

"Ele disse incontáveis vezes que quer ser martirizado", diz Yusufzai. "Mas, até lá, Osama vai tentar evitar ser capturado pelo período que for possível".

Tradução: Danilo Fonseca

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