Taleban americano diz que educação liberal estimulou a sua "busca religiosa"

Tatsha Robertson

Fairfax, EUA -- Em uma casa confortável nesta comunidade estranha e ultraliberal, John Walker Lindh seguiu o conselho dos pais e buscou o seu próprio caminho religioso há quase dois anos.

Isso o levou a uma acidentada peregrinação, que acabou fazendo com que o jovem terminasse lutando ao lado dos soldados do Taleban no Afeganistão, tornando-se prisioneiro da Aliança do Norte.

Autoridades norte-americanas disseram no domingo que Lindh, 20, está agora sob custódia em Camp Rhino, a base dos fuzileiros navais próxima a Candahar. Essas autoridades disseram que Lindh, um "prisioneiro de guerra", está fornecendo informações úteis.

O fato de Lindh ter terminado nas fileiras do Taleban chocou muitos moradores locais. Mas é a sua odisséia religiosa que tem provocado muita discussão.

"A maior parte das crianças que conheço são atraídas para a religião dos seus pais", diz Cagney Pisetsky, 21. "Eu estudei o movimento Hare Krishna, lendo o Bhagavad-Gita, um livro de textos sagrados do hinduísmo. Também examinei a religião dos índios norte-americanos, e encontrei canais para me conectar a ela".

As experiências religiosas são encorajadas na localidade de Fairfax, onde Lindh foi criado. Trata-se de um enclave que fica um pouco ao norte de São Francisco e um paraíso para ex-hippies.

O centro religioso da cidade é Spirit Rock, um grande centro budista oculto entre colinas. Há uma mesquita logo abaixo do condomínio de casas de madeira, onde mora a mãe de Lindh. Nesta cidade, com uma população de pouco mais de seis mil habitantes, é possível estudar a religião dos índios norte-americanos, o taoísmo, o hinduísmo, o budismo, o sufismo, o rastafarianismo, o vudu, o islamismo e tudo o mais que fique entre essa salada religiosa. Somente 12% dos habitantes freqüentam igrejas e sinagogas tradicionais.

"Qualquer que seja a religião que se busque, ela pode ser encontrada em Mary County", afirma Eugene Cash, um instrutor budista de Spirit Rock. "E isso tanto pode ser bom quanto ruim para as crianças".

Segundo Thomas Peters, médico do centro de saúde pública de Marin County, não há nada de errado em um jovem embarcar em uma jornada espiritual, contanto que isso ocorra em um ambiente em que ele encontre apoio. Cash e Peters afirmam que tal fenômeno muitas vezes representa o início da luta de um jovem para se encontrar na vida ou o começo de um compromisso mais profundo".

"Realmente não me surpreendi ao ouvir a história desse jovem", conta Brice McDermott, 40, referindo-se a Lindh. "Quando se faz uma análise, chega-se à conclusão de que a maior parte dos jovens de pouco mais de 20 anos que vive aqui é criada para ser radical".

Mas, segundo Peter, muita gente não chega a extremos como Lindh, ainda quando se trata dos filhos da geração da contracultura dos anos 60.

Em Marin County - que deixou de ser uma áre de cultivo de maconha para se tornar um endereço de milionários - os pais são chamados de radicais. Muitos deles foram líderes do movimento pela liberdade de expressão nas universidades californianas, e se mudaram nos anos 60 e 70 para Fairfax, onde se tornaram médicos e advogados, mantendo, entretanto, o seu interesse pelas religiões orientais.

"Foi isso o que essa garotada sempre aprendeu", diz Sarah McConneloug, 31, que trabalha com arranjos florais e é nativa de Fairfax. "Aqui, entender a espiritualidade é um caminho no qual as pessoas procuram compreender outras tradições".

Pisetsky, que usa uma argola no nariz e uma boina, e que trabalha em uma fazenda de produtos naturais, diz que o seu pai, que nasceu em uma família judaica e se tornou ateu, permitiu que ele tivesse liberdade de escolha religiosa.

Lauren Cambria, 22, foi criada por um pai católico e conservador, mas foi estimulada pela sua mãe, uma liberal, a buscar o seu próprio caminho religioso. Ela diz que quando era garota parou de freqüentar uma escola dominical, terminando por entrar no mundo das drogas. Aos 16 anos ela arrumou a sua vida e passou a buscar algo de mais profundo com o qual pudesse se conectar. Hoje em dia Cambria é praticante do budismo e do taoísmo.

"Eu oro, medito e vejo o pôr do sol todos os dias", diz Cambria, em frente a um café. Ela usa um boné de esqui e calças jeans baggy. "Não sou perfeita. Veja, estou usando jeans da Calvin Klein, mas tento fazer o que preconiza a minha religião e passar essa mensagem para os outros".

Mas nem todos os pais são tão liberais quando se trata dos seus filhos experimentarem outras religiões.

Debra Chamberlain Taylor, uma instrutora budista, diz que os pais muitas vezes a procuram, preocupados com o entusiasmo demonstrado pelos filhos para com uma religião em particular, temendo que isso deixe os jovens vulneráveis ao recrutamento por parte de seitas. "Sinto simpatia por um adolescente que se dedica a um intenso compromisso religioso", diz Taylor. "Eles têm fome de algo que transcenda as coisas materiais e os seus colegas".

Cash e Taylor dizem que viram jovens em Marin County que se tornaram obcecados com a recém-descoberta espiritualidade.

Mas Cash, que tem uma filha adolescente, afirma que, ao notar que um jovem está se tornando muito radical quanto à determinada religião, pede a ele que vá devagar e aproveite um pouco mais a vida.

"Eu realmente os encorajo a se engajar - conseguir empregos e cultivar relacionamentos, a realmente participarem do mundo ao invés de romperem com ele", diz Cash.

Frank Lindh, advogado de uma empresa, diz que não sabe ao certo quando foi que o filho começou a se desconectar do mundo no qual cresceu.

"Eu simplesmente não consigo unir os pontos", disse ele em uma recente entrevista.

Fora de Marin County o jovem Lindh não está recebendo simpatia dos californianos. A sua família recebeu ameaças de morte e pessoas estão ligando para estações de rádio para dizer que ele é um traidor que merece ser executado. Essas pessoas acusam o liberalismo de Marin County como sendo a raiz do problema de Lindh.

O pai de Lindh diz que o filho, que foi criado freqüentando a Igreja Católica, decidiu aos 16 anos se converter ao islamismo, após ter lido "A Biografia de Malcom X".

A sua ex-esposa, Margaret Walker, assim como muitos outros pais da localidade, apresentou ao seu filho a espiritualidade dos índios norte-americanos e o budismo. Mas ele resolveu dedicar a sua vida ao islamismo.

John abandonou os seus CDs de hip-hop e se absteve de fazer sexo e de ingerir bebidas alcoólicas. Ele mudou o seu nome de John Phillip Walker Lindh para Suleyman Al-Lindh. Ao invés de usar calças jeans e argolas no nariz, como os seus colegas que se reuniam em um estacionamento, ele adotou as vestes muçulmanas. John passava seu tempo no Centro Islâmico Mill Valley, e, um dia, pediu aos pais para ir estudar no Iêmen, já que o árabe falado naquele país é o mais puro.

Há mais de um ano ele foi para o Paquistão, a fim de estudar o Alcorão em uma madrassa próxima a Bannu. Os seus pais dizem que perderam contato com o filho por volta de maio. Ele reapareceu na semana passada, como um dos 85 guerreiros talebans que sobreviveram a uma violenta rebelião em uma prisão próxima a Mazar-e-Sharif. Ao sair rastejando de um complexo subterrâneo, Lindh estava cabeludo e tinha uma longa barba, mas a sua pele era mais clara do que a dos outros combatentes.

Na semana passada ele falou com os jornalistas norte-americanos com um estranho sotaque. Ele disse que o seu nome era John Walker e que, enquanto estava no Paquistão, conheceu os simpatizantes do Taleban e, há seis meses, treinou nos campos de Osama Bin Laden.

No momento, as autoridades estão tentando determinar se Lindh pode ajudar as investigações sobre o terrorismo no Afeganistão e nos Estados Unidos. Através dos seus advogados, seus pais disseram que desejam visita-lo. Em Fairfax, os moradores simpatizam com os pais do jovem. "Creio que todos deveríamos meditar ante de julgá-los", afirma Nancy Culhane, mãe de dois rapazes e duas moças. "Creio que isso poderia ter acontecido com qualquer um de nós".

Tradução: Danilo Fonseca

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