Imigrantes brasileiros nos EUA querem voltar para casa

Douglas Belkin

Uma semana após os ataques de 11 de setembro, Elaine Cristina deixou o seu filho na escola, se reuniu em sua casa com outra brasileira para tomar um café, e ambas falaram sobre o que está havendo de errado com os Estados Unidos.

Após ter passado quatro anos em New England, Elaine Cristina, 26, vê os Estados Unidos como um país frio, agitado e pouco amigável.

Ela ganhou e poupou bastante dinheiro. "Esse é o único motivo pelo qual eu agradeço a este país", disse ela, durante o café com a amiga, na mesa de sua cozinha em Cambridge, Massachusetts. Mas, com a situação de guerra, Elaine não está convencida de que, caso fique aqui, poderá gastar aquilo que juntou.

Dessa forma, quando ela e a amiga terminaram o seu café, ambas haviam tomado uma decisão. Era hora de voltar ao Brasil.

Reclamando de uma nova atmosfera hostil aos imigrantes, menos oportunidades e mais violência, milhares de brasileiros como as duas embarcaram em aviões de volta para o Brasil, desde os ataques de 11 de setembro. E muitos outros estão pensando em fazer o mesmo.

Os brasileiros entrevistados citaram várias razões para voltar ao Brasil: a repressão policial contra os trabalhadores sem documentos, a desaceleração da economia norte-americana e uma sensação nítida de que os imigrantes - que, já antes dos atentados, muitas vezes achavam que mal eram tolerados - estão sendo mais hostilizados do que nunca.

Mas, antes disso, aumentou a sensação entre os brasileiros de que os Estados Unidos são uma sociedade fraturada, onde os vizinhos se alienam uns dos outros. Muitos afirmam que o fato de os 19 sequestradores terem sido capazes de viver anonimamente no país se constitui em um reflexo de tal alienação.

"Não creio que teria tanto medo de atos terroristas no Brasil, porque lá as pessoas sabem ao lado de quem estão morando", diz Cristina. "Aqui, as pessoas não conhecem umas as outras. Tudo o que se faz é trabalhar. Eu morei no mesmo prédio durante dois anos e nunca tive chance de trocar um 'oi' sequer com os meus vizinhos".

Massachusetts abriga uma das três maiores comunidades brasileiras dos Estados Unidos. Somente em Boston há 50 mil brasileiros, segundo algumas estimativas. O total de brasileiros em toda a região de New England seria de 250 mil.

A maioria chegou aqui a partir do final dos anos 80, quando a economia brasileira se esfacelou por completo, e muitos permanecem nos Estados Unidos. Em geral eles se enquadram em dois casos: ou estão comprometidos com negócios aqui, ou não contam com muitas opções para ganhar a vida no Brasil.

Mas para a legião de jovens brasileiros de classe média e com alto nível de escolaridade que invadiu as faculdades do país nos últimos cinco anos, já começou um mini-êxodo de volta para a pátria.

Nas semanas após o dia 11 de setembro, os vôos para o Rio de Janeiro ficaram lotados, os negócios nas companhias especializadas em fazer mudanças para o Brasil aumentaram em 50% e as escolas que ensinam inglês como segunda língua de repente viram as suas salas de aula ficar vazias.

Segundo os líderes de outras comunidades de imigrantes localizadas em Boston, entre todos os sul-americanos, os brasileiros são aqueles que têm mais propensão para voltar à terra natal.

Ao contrário dos salvadorenhos, nicaragüenses e colombianos, os brasileiros não têm experiência com a guerra, e ficam horrorizados com ela, segundo Jennifer Burtner, coordenadora de estudos brasileiros no Centro David Rockfeller para Estudos Latino Americanos da Universidade de Harvard.

Histórias de policiais que obrigam os imigrantes a parar seus carros no acostamento e exigem deles documentos de identificação são comuns entre a comunidade brasileira em Boston, e o grau de ansiedade entre aqueles que não contam com documentos de imigração é alto.

"No Brasil há uma sensação generalizada de que não gostamos de conflito", diz Burtner. "Mas tampouco gostamos de opressão".

Enquanto que a mídia dos Estados Unidos estava anunciando que ainda não havia tropas de elite no Afeganistão, as redes de televisão brasileiras anunciavam erroneamente que dezenas haviam morrido nos combates. E, quando a mídia norte-americana anunciava que os Estados Unidos haviam oferecido uma recompensa de US$ 25 milhões (R$ 59,25 milhões) por Osama Bin Laden, a principal manchete de um jornal brasileiro na semana passada dizia que Bin Laden havia oferecido US$ 50 milhões (R$ 118,5 milhões) pela cabeça de George W. Bush.

Como conseqüência, as linhas telefônicas entre o Brasil e Boston ficaram entupidas de ligações de pais que suplicavam aos seus filhos para voltar para casa "antes que fosse muito tarde".

"Moro aqui há 14 anos e os meus pais nunca pediram que eu voltasse para casa até ter ocorrido o conflito no Afeganistão", conta Fausto Mendes da Rocha, diretor do Centro de Imigração Brasileira, uma casa local de apoio aos brasileiros. "Eles vêem a televisão e se apavoram, achando que todo mundo está exposto ao antraz".

Aqueles que possuem menos escolaridade e que não têm meios de contar com uma vida decente no Brasil estão resistindo a esses chamados. A geração que já se estabeleceu aqui em geral ignora esses apelos. Mas Cristina e suas amigas estão fazendo as malas e abandonando os seus planos com relação aos Estados Unidos.

"Achei que fosse ficar por mais uns três ou quatro anos e estudar", diz ela. "Mas agora vejo que é hora de voltar".

Vários brasileiros da região com mais de 20 ou 30 anos de idade são capazes de citar o nome de dezenas de amigos que voltaram para casa depois dos ataques. Flávia da Silva, que se graduou recentemente pela Universidade Brandeis, também tem muitos amigos que abriram mão de bons empregos e de carreiras promissoras porque eles - ou os seus pais - ficaram muito assustados com os recentes eventos.

Além disso, existe a dura realidade de morar nos Estados Unidos como trabalhador ilegal. A mulher de Rocha tem uma carteira de motorista cuja validade expira em fevereiro, e com a repressão aos trabalhadores ilegais desde os ataques, ela provavelmente não vai conseguir outra carteira, diz ele.

Sem a carteira ela não pode dirigir e, sem transporte, não pode chegar até as casas onde faz faxinas, diz Rocha. Isso significa um prejuízo mensal de US$ 3 mil (R$ 7,1 mil) no orçamento doméstico. Portanto, depois de 14 anos no país, Rocha está pensando em fazer as malas e voltar para o Brasil.

"Na comunidade brasileira é muito comum ouvir os outros dizer que é hora de voltar", diz Rocha. "Agora talvez tenha chegado o meu momento de dizer o mesmo".

Tradução: Danilo Fonseca

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