Anemia em ratos é curada com o auxílio do vírus HIV

Raja Mishra

Cientistas usaram o vírus HIV geneticamente modificado para curar ratos que sofriam de anemia falciforme, trazendo esperança a milhões de pessoas em todo o mundo que padecem dessa dolorosa enfermidade e dando um grande impulso ao conturbado campo da terapia genética.

Pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts utilizaram o vírus HIV modificado para introduzir um gene corretivo em ratos de laboratório portadores da anemia falciforme. Os animais foram curados em um período de dez meses. Os resultados da experiência foram divulgados na edição de sexta-feira da revista "Science".

Embora os cientistas advirtam que os testes com seres humanos vão demorar ainda pelo menos dois anos, e que possa ser necessário um tempo ainda maior até se chegar ao uso médico disseminado da técnica, eles afirmam que as descobertas se constituem em uma grande promessa para o futuro.

"Trata-se de um feito significativo que nos fez avançar rumo à terapia genética humana para uma doença bastante séria", diz Claude Lenfant, diretor do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue.

Cerca de mil bebês nascem anualmente nos Estados Unidos com a anemia falciforme, e 70 mil norte-americanos padecem da doença. Ela causa danos ao tecido pulmonar, dores intensas e derrames, muitas vezes obrigando os pacientes a ficar confinados em suas casas para se tratarem. As minorias raciais nos Estados Unidos são especialmente afetadas. Um entre cada 500 indivíduos negros tem a doença. Entre os hispânicos essa relação é de um em cada mil.

O avanço também marca uma etapa positiva para o campo da terapia genética, através da qual os cientistas tentam curar as doenças genéticas injetando genes saudáveis nos pacientes - um conceito que, na prática, tem se revelado de difícil realização. A técnica, bastante divulgada, enfrentou fortes críticas dois anos atrás, depois da morte de um paciente jovem da Pensilvânia. As críticas também engrossaram depois que vários outros testes com seres humanos não resultaram em nenhum progresso.

Até o momento, a terapia genética tem demonstrado um potencial para o tratamento das chamadas "crianças de bolhas", que sofrem de raras deficiências genéticas que destroçam o seu sistema imunológico. Mas, segundo Philippe Lebouch, o principal chefe da equipe que conduziu o novo estudo e professor de Harvard e do MIT, a experiência forneceu indicações que apontam para aplicações amplas. "É algo de verdadeiramente importante. A anemia falciforme é uma doença muito comum, distribuída por todo o mundo", disse ele em uma entrevista em Paris.

A anemia falciforme há muito tempo é um doas alvos preferidos da terapia genética, já que a doença é causada por um único gene defeituoso. A doença pode ser rastreada até uma mutação em um gene que auxilia na elaboração da estrutura da hemoglobina, um componente do sangue que transporta oxigênio dos pulmões para outros órgãos. Nas vítimas da doença, a hemoglobina adquire a forma de uma foice, ou de uma lua crescente, prejudicando a sua capacidade de navegar através da corrente sangüínea. O sangue se torna pegajoso e denso, causando danos debilitantes e potencialmente fatais aos órgãos.

As células sangüíneas defeituosas são produzidas pela medula óssea. Portanto, os cientistas encontraram uma forma de consertar essa medula, substituindo o gene anormal da sua hemoglobina por um gene saudável.

O segredo da terapia genética é elaborar um vetor, ou seja, um instrumento transportador, que possa burlar o sistema imunológico enquanto introduz genes curativos no organismo do paciente. Esse instrumento, neste caso específico, foi um vírus modificado do HIV, que teve as suas características prejudiciais neutralizadas e no qual se introduziu um gene saudável de hemoglobina.

No estudo, Lebouch e sua equipe removeram amostras de medula óssea de ratos doentes, e depois utilizaram radiação para destruir o restante da medula. A seguir, o HIV geneticamente modificado foi inserido nas amostras de medula óssea.

O vírus infectou rapidamente a medula óssea em um tubo de ensaio. Depois, a medula foi injetada de volta nos ratos. No organismo dos roedores o material se proliferou, espalhando o gene da hemoglobina saudável e corrigindo o erro que produziu a hemoglobina causadora da anemia falciforme. Dez meses depois, os ratos foram dissecados e não foi encontrado nenhum traço da doença em seus organismos.

Os pesquisadores que estão conduzindo essas pesquisas dizem que as experiências com seres humanos provavelmente vão ocorrer dentro de dois anos. Até o momento, eles estão iniciando testes com macacos em laboratórios em Seattle. Segundo Leboulch, nesses testes os cientistas vão se certificar de que o HIV geneticamente modificado não contém erros genéticos danosos. Eles também vão procurar ter certeza de que o HIV modificado funciona tão bem nos seres humanos quanto nos ratos. Embora o vírus tenha sido utilizado anteriormente para a terapia genética humana, as vítimas da anemia falciforme possuem um número de células de medula mil vezes maior do que os ratos. Portanto, o vírus precisa se proliferar de maneira bem mais rápida antes que o sistema imunológico detecte o intruso e comece a atacá-lo. Em um teste anterior utilizando a terapia genética, essa resposta imunológica matou o paciente.

Segundo Robert Pawliuk, cientista da Genetix Pharmaceuticals Incorporation, de Cambridge, Massachusetts, que colaborou para a pesquisa de Leboulch, as próximas experiências proporcionarão respostas a essas questões. "A nossa principal preocupação é para com a segurança dos pacientes", diz ele.

Tradução: Danilo Fonseca

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