População de áreas de fronteira ainda apóia Bin Laden

Farah Stockman

Wana, Paquistão -- Nas últimas duas semanas, as lojas de munição e as casas de chá nesta cidade isolada da fronteira estão tomadas por um único boato: Osama bin Laden estaria se escondendo com os seus guarda-costas da Al Qaeda nos picos próximos das Montanhas Shawal. E, no decorrer dessas duas semanas, tanto os lojistas quanto os apreciadores de chá desta cidade têm feito uma declaração taxativa: nenhum dinheiro no mundo os persuadiria a entregar o saudita. Jamshed Khan, um grisalho comerciante de munições que trabalha na sua loja, em uma rua escondida, não quis dizer porque acredita no boato, mas jurou apoiar o famoso fugitivo.

"Tenho certeza de que ele está em Shawal", disse ele. "Nós não o entregaríamos a ninguém".

Bakhiar, um comerciante de televisores e laptops, disse que "os fregueses da loja ouviram falar sobre a presença de Bin Laden na montanhas Shawal, mas nenhum deles foi capaz de confirmar a notícia".

Um líder tribal de uma área próxima a Wana, que pediu para não ser identificado, disse que foi abordado recentemente por um velho que o informou sobre a presença de Bin Laden.

As Montanhas Shawal, que ficam a cerca de 50 quilômetros de Wana, na fronteira mal determinada entre os dois países, é cheia de picos não habitados, tão perigosos que alguns deles nunca foram explorados, segundo líderes tribais locais. Várias cavernas naturais ou feitas pelo homem se espalham pelos sopés das montanhas.

Não se sabe se os boatos sobre a presença de Bin Laden em Shawal se baseiam em relatos de membros da Al Qaeda ligados ao saudita ou, segundo alguns, em especulações daqueles que acreditam que Bin Laden não possuía outra rota de fuga do seu esconderijo em Tora Bora, que fica a 240 quilômetros da cidade. Mas uma coisa é certa: em poucos locais o homem mais procurado do mundo encontraria mais hospitalidade do que em Wana.

Morando na parte mais ocidental de Waziristan do Sul, uma área tribal semi-autônoma, que está fora da jurisdição legal paquistanesa, vários dos membros das tribos de etnia pashtun forjaram laços fortes com o ex-regime do Afeganistão. Muitos lutaram ao lado do Taleban - a maioria dos membros do movimento era também pashtun - e perderam irmãos e primos nos bombardeios aéreos norte-americanos.

Vários moradores de Wana possuem parentes na cidade de Birmal, do outro lado da fronteira com o Afeganistão. As mulheres daqui usam burqas, caso se aventurem para fora de suas casas, e a música, banida no Afeganistão pelo ex-regime Taleban, é raramente ouvida por estas bandas, apesar dos negócios movimentados com aparelhos de sons roubados de automóveis.

Nesta remota parada de caminhões que cruzam a fronteira, onde a presença de estrangeiros é oficialmente proibida, os moradores lamentam abertamente a queda do Taleban. Um forasteiro é avisado de que comentários negativos, ou mesmo perguntas, sobre o movimento derrotado podem gerar violência.

"O povo de Waziristan apoiou o governo muçulmano do Taleban, mas dentro do novo cenário, eles entendem que não há muito a fazer pelo regime derrotado", diz Mulavi Taj Mohammed, um comerciante local e filho de Noor Mohammed, o chefe tribal da área e presidente do Jammiat Ulma-e-Islam, um poderoso partido político de âmbito nacional. "Mesmo assim, os habitantes dos dois lados da fronteira são simpáticos às pessoas dedicadas à causa do islamismo, como os membro do Taleban".

Muitos dos moradores de Wana lutaram pelo Taleban, segundo Mohammed. "A maioria deles morreu e os outros foram presos no Afeganistão".

Mesmo assim, diz ele, as autoridades locais começaram a seguir as novas ordens baixadas pelo governo paquistanês, que está patrulhando intensamente a fronteira na tentativa de impedir que Osama Bin Laden e membros da Al Qaeda entrem no país.

"Nós modificamos a política na área... e agora não há movimento da Al Qaeda ou do Taleban por aqui", afirma.

Ele "não pode dizer ao certo" se Bin Laden está escondido nas cavernas das Montanhas Shawal, e insiste em dizer que o fugitivo não fez nenhum contato com os moradores locais.

Porém, os homens de turbante que se reúnem nas mesas dos quiosques ao ar livre para tomar chá têm tanta simpatia pelo Taleban que os refugiados afegãos que falam a língua persa, e que moraram em Wana durante anos, recentemente fugiram, temendo ser vítimas de violências por parte dos vizinhos, que os associam com o novo governo do Afeganistão, capitaneado pela Aliança do Norte.

Noor Mahommed, o chefe tribal da área, lhes garantiu segurança, mas eles fugiram assim mesmo, no meio da noite, segundo o relato de Mohammed.

Os líderes tribais insistem em dizer que apóiam a nova atitude do Paquistão contra o ex-regime Taleban e contra Bin Laden. Mas, há duas semanas, os moradores da área acompanharam silenciosamente, com uma expressão de ódio no olhar, os caminhões militares paquistaneses, que passaram pela região pela primeira vez na história. "A turma daqui não gosta do exército", disse um líder tribal que pediu para não ter seu nome identificado.

Na rua principal de Wana, onde os garotos perambulam com rifles pendurados ao ombro, umas poucas pessoas disseram que entregariam Bin Laden, caso cruzassem com ele.

"Nós o entregaríamos à coalizão e assim protegeríamos a nossa própria terra dessa ameaça", afirma Mohammad Khan, professor escolar. Mas um número muito maior de comerciantes e de fregueses jura honrar as suas tradições tribais pashtuns no sentido de defender um hóspede, ainda que isso signifique perder uma grande recompensa financeira.

"Não ligamos para dinheiro", diz Rahman, um morador de Wana e ex-burocrata do ministério do Exterior do Taleban. Ele disse que "já sacrificou um irmão" na defesa de Bin Laden.

"Nós o defenderemos e lutaremos por ele até a última bala", diz Zaheer Khan, um motorista de táxi que dirige um Toyota Corolla sem placas. "Ouvimos falar que ele estaria nesta área. A sua presença não foi confirmada, mas, de qualquer forma, nós lhe damos as boas-vindas".

Tradução: Danilo Fonseca

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