Vitória contra o Taleban gera contratempo na guerra contra as drogas

David Filipov

DARA-E-NUR, Afeganistão - O trabalho é tão duro, diz Begham, que em certos dias ela deseja morrer. Mas precisa viver, pela sobrevivência de sua família. É por causa de seu trabalho que outras pessoas, a milhares de quilômetros de distância de sua casa no leste do Afeganistão, vão sofrer e morrer.

Begham produz papoulas de ópio para sobreviver. Todo dia, antes do sol nascer, ela empurra seu magro corpo cansado para os campos, cuidadosamente divididos em terraços que descem da casa de taipa da família, e cuida de sua plantação. Assim como fazem todos os outros da vila.

"Meus três filhos estão chorando e eu tenho que deixá-los para ir ao campo. Tenho que fazer isso para alimentá-los". Ela conta sua história na cozinha mal iluminada da casa da família. "Gostaria de ter dinheiro o suficiente para não precisar fazer esse serviço".

A deposição do Taleban foi uma vitória na guerra da coalizão chefiada pelos EUA contra o terrorismo. Mas resultou em um contratempo na guerra contra as drogas.

O ministro de relações exteriores do Afeganistão, Abdullah Abdullah, disse, na quarta-feira (26), que o governo interino da nação acabará com o tráfico de drogas. Os novos líderes em Cabul, no entanto, estão muito ocupados com várias outras prioridades.

E, agora que o Taleban, que proibiu a plantação, foi deposto, os agricultores já estão plantando papoulas por todo o Afeganistão novamente.

Centenas de campos de papoula recentemente semeados polvilham a encosta da montanha rochosa, na qual as casas de taipa de Dara-e-Nur estão agarradas como castelos de areia. Milhares de outros campos espalham-se no vale ensolarado abaixo, que se estende 45 km ao sul de Jalalabad. Dentro de três meses, esse vale estará vermelho de papoulas. Em junho, os compradores chegarão para comprar as vagens de sementes ricas em ópio.

Estas e a heroína mortal que produzem começarão sua viagem para a Europa Ocidental e os EUA. E as famílias como a de Begham terão o que precisam para comprar roupas e comer por outro ano.

Para compreender como algo tão destrutivo como a heroína pode sair de algo tão simples como a necessidade de uma mãe cuidar de seus filhos, é preciso apenas observar o desastre que é a economia afegã.

Três anos de seca transformaram grande parte da terra arável do Afeganistão em areia. Mais de 22 anos de guerra sem interrupção destruíram qualquer indústria que o país jamais teve. Muitos afegãos, como Begham, há muito voltaram-se para a plantação de ópio para sobreviver. Os agricultores afegãos cultivaram mais de 197.000 acres de papoulas no ano passado, produzindo 75% da heroína do mundo, de acordo com o Programa de Controle de Drogas das Nações Unidas. Isso foi antes do Taleban reprimir a produção de drogas.

A proibição de plantar papoula, talvez a única lei da milícia puritana islâmica que conquistou aprovação internacional, cortou a produção de papoulas em 90% em 2001. Mas não há evidências que os novos governantes do Afeganistão reprimirão o cultivo tanto quanto o Taleban.

Neste ano, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas divulgado em outubro, a produção de papoula aumentou três vezes em áreas controladas pela Aliança do Norte, cujas tropas, apoiadas pela campanha de bombardeios americanos, desde então tiraram o Taleban do poder. Os senhores de guerra que formam a aliança há muito têm reputação de controlar grande parte do processamento e contrabando do ópio e da heroína para as repúblicas ao norte, antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, de onde as drogas partem para a Europa Ocidental e EUA.

A Organização das Nações Unidas também divulgou que o Afeganistão tem 417 fábricas de heroína, muitas das quais em território da Aliança do Norte. Sua existência mais do que anula a mensagem antidrogas que o novo governo em Cabul vem espalhando, em declarações oficiais e cartazes cobrindo as ruas da capital, que proclamam que "O vício de drogas é estranho ao Islã".

Talvez os novos governantes do Afeganistão não controlarão a produção de drogas tão duramente quanto o Taleban, mas a proibição da milícia também sofreu críticas. Algumas autoridades do setor de combate a entorpecentes acreditam que o Taleban estava secretamente armazenando ópio para forçar aumento do preço da heroína. O preço de mercado de um quilograma de ópio bruto subiu de US$ 30 (cerca de R$ 69), no ano passado, para US$ 700 (aproximadamente R$ 1.610) em setembro, de acordo com as Nações Unidas. Na cidade de Begham, por exemplo, o Taleban não exatamente proibiu a plantação de papoula; as autoridades meramente criaram um imposto de mais de 50% sobre todo o dinheiro arrecadado pelos agricultores.

Ainda assim, fazia mais sentido plantar papoula do que o trigo de inverno. O trigo requer quatro vezes mais água que a papoula. Ninguém vai até Dara-e-Nur para comprar trigo. Begham sabe que a única renda que sua família de 12 verá no ano que vem chegará em junho, quando os compradores do Paquistão virão até aqui e lhe darão US$ 2.400 (cerca de R$ 5.520) em troca de 40 kg de vagens de sementes ricas em ópio que espera colher.

O marido e o irmão de Begham passaram os últimos cinco anos lutando pelas milícias locais contra o Taleban, trabalho que não dá direito a salário. Sua sogra e cunhada não trabalham. Elas cuidam das seis crianças quando Begham está no campo, arando a terra com arado de madeira puxado a boi, plantando e capinando. Durante a colheita, raramente ela deixa os campos.

"Toda vez que vou ao campo, sinto-me como se estivesse indo para o cemitério", disse Begham. "Com a diferença que, quando você morre, você fica na tumba para sempre e não sofre. Esse trabalho me faz sofrer muito. Tenho doença mental e dor no coração".

O dinheiro que recebe por seu trabalho nem de longe é o suficiente para concertar os dois quartos que o Taleban destruiu em um ataque de foguete, há três anos. Essa parte de sua casa agora termina em um monte de areia. As galinhas entram e saem da cozinha, que também é sala de estar, procurando algo para ciscar na areia.

Begham é analfabeta; quando um visitante lhe perguntou sua idade, ela hesitou e disse, "20". Depois, sentindo que as pessoas não estavam acreditando, deu um sorriso envergonhado e disse, "Não sei contar quantos anos tenho".

Ela nunca viu um viciado em ópio. As pessoas de Dara-e-Nur às vezes mascam sementes de papoula para manter-se quentes no tempo frio, mas ninguém fuma a resina.

O único que expressou preocupação moral sobre os negócios da família foi seu marido, Najibullah, que passa grande parte de seu tempo em Jalalabad com seu comandante. "Todos os países do ocidente devem nos ajudar porque esse ópio vai para o Ocidente e causa grande dor", disse.

Begham não se preocupa com a destruição provocada pelas papoulas plantadas pela família. Sabe, entretanto, que aquele trabalho a está matando. Enquanto acenava em despedida, do frágil parapeito de seu castelo de areia, suas últimas palavras falaram do desespero e futilidade da vida de uma agricultora de papoula afegã:

"Às vezes, queria ter uma arma para me matar".

Tradução: Deborah Weinberg Ópio

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