Fracassa campanha para reabilitar imagem dos americanos no mundo muçulmano

Anthony Shadid

WASHINGTON - A vigorosa campanha americana para conquistar a simpatia do mundo muçulmano obteve menos vitórias do que sua contra parte militar, segundo admitem autoridades americanas.

A campanha de relações públicas empreendida pelo Pentágono, pela Casa Branca e pelo Departamento de Estado foi impulsionada pela percepção inegável após 11 de setembro da falta de credibilidade dos americanos em todo o mundo muçulmano. Ela foi dirigida principalmente a árabes e muçulmanos e teve como objetivo contrapor-se ao sentimento de revolta presente na região. Árabes e muçulmanos identificam uma postura antimuçulmana e um apoio forte dos americanos a Israel.

Houve alguns sucessos: as autoridades americanas inundaram, por um certo período, as redes de televisão e os jornais do mundo árabe; o Departamento de Estado atualizou seu website e tornou-o mais acessível; um diplomata americano abandonou sua aposentadoria para defender a causa americana falando um árabe fluente junto ao público do Oriente Médio.

No entanto, passados três meses são poucas as vitórias que o governo americano pode contar - e são muitos os reveses e as oportunidades perdidas. Alguns analistas e autoridades afirmam que a imagem dos Estados Unidos não é hoje melhor do que antes de 11 de setembro, e que ela talvez tenha sido ainda mais prejudicada.

O fracasso seria devido, segundo autoridades americanas, ao fato de o país ter negligenciado durante anos as ferramentas de propaganda do país, ao pouco discernimento de Washington em relação aos sentimentos antiamericanos no mundo muçulmano, e a um programa que foi lançado tardiamente e que tende a ser mais aleatório do que sistemático.

Um representante do governo que preferiu não identificar-se avaliou o programa como um soberbo fracasso. Outros, que são diretamente encarregados da missão, argumentaram que se esperava demais de uma campanha de relações públicas. E algumas aberturas, como aparições da Conselheira Nacional de Segurança, Condoleezza Rice, foram inutilmente provocativas, e apenas destacaram posições americanas que já despertavam ressentimento.

"Como se pode superar isto?" perguntou ontem um veterano do Departamento de Estado. "Uma campanha de relações públicas não pode resolver todos os problemas sozinha".

Algumas autoridades americanas identificam aqui um problema maior. Elas afirmam que a diplomacia tornou-se uma arte do passado com o final da Guerra Fria por conta de uma contínua deterioração dos financiamentos para o Departamento de Estado e sua agências e das mudanças promovidas na Agência de Informações dos Estados Unidos, que deixou de ser um braço independente.

Mesmo os diplomatas que não participam do atual governo partilham do pessimismo de quem integra o governo.

"Eu diria que o vigor e o financiamento (para a diplomacia pública) decaíram consideravelmente após a Guerra Fria", afirmou Philip Wilcox, ex-diplomata no Oriente Médio e chefe do setor de contraterrorismo do Departamento de Estado durante o governo Clinton.

Como resultado, afirma Wilcox, "vivemos agora um período ruim, especialmente nos mundos árabe e muçulmano, onde há forte desconfiança e profundo antagonismo perante os Estados Unidos".

Uma das peças centrais da campanha americana para melhorar sua imagem junto ao mundo muçulmano foi a criação de seu Centro de Informações da Coalizão, um escritório de relações públicas encarregado de reagir prontamente ao que surge na imprensa - tanto americana quanto internacional - e que possui ramificações em Washington, no Paquistão e em Londres.

No Departamento de Estado, Charlotte Beers, uma ex-executiva publicitária que dirigiu duas das maiores agências americanas - Ogilvy & Mather e J. Walter Thompson -, foi indicada para o cargo de subsecretária de diplomacia e assuntos públicos.

A criadora das campanhas publicitárias do arroz Uncle Ben's e American Express refere-se aos Estados Unidos como um produto que deseja vender no exterior. Este mês ela revelou um de seus maiores projetos: anúncios em rádios e jornais para solicitar informações sobre acusados de terrorismo que serão divulgados nos Estados Unidos e que provavelmente serão traduzidos pelo Departamento de Estado para o árabe, o espanhol e outras línguas estrangeiras antes de serem lançados no exterior.

Além disso, em outubro o Departamento de Estado chamou de volta de sua aposentadoria o ex-embaixador Christopher Ross, que fala árabe fluentemente, para defender a causa americana junto à imprensa do mundo árabe. E um grande número de autoridades americanas - desde o secretário de Estado Colin Powell até o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, além de Condoleezza Rice - fizeram aparições regulares na Al Jazeera e em outros canais de língua árabe, e concederam entrevistas a grandes jornais do Oriente Médio.

"Creio que temos sido bastante ativos", afirma Richard Boucher, porta-voz do Departamento de Estado, ao ser perguntado em uma entrevista a respeito da campanha. "Tivemos um certo êxito. E tenho certeza de que nossa mensagem ainda não chegou a muitas pessoas."

Mas dentro do governo há quem prefira uma política mais severa.

Um integrante do alto escalão do governo americano argumentou que o trabalho do Departamento de Estado está mais voltado para a criação de slogans publicitários do que para a elaboração de uma estratégia eficaz. Ele afirmou ainda que os centros de informações trabalham com profissionais que têm pouca experiência no exterior e que gastam maior parte do seu tempo com jornalistas americanos do que com repórteres estrangeiros. Este argumento é sustentado também por jornalistas estrangeiros.

Autoridades americanas admitem também que a campanha teve um início tardio. Beers apenas assumiu seu cargo em outubro, e muitos no Departamento de Estado se sentem frustrados com o excesso de expectativa que foi criado.

"Nós provavelmente demos o melhor que tínhamos", afirma um diplomata experiente, que argumenta que outros colegas de governo possuíam uma visão ingênua a respeito da baixa popularidade americana no exterior. "Nós precisamos colocar as coisas em perspectiva. Não se pode ter expectativas irreais. Se considerarmos o clima em que trabalhamos, o resultado não foi ruim".

Mas no estrangeiro, a visão predominante é diversa.

Hafez al-Mirazi, que dirige em Washington a sucursal da Al Jazeera - o canal árabe via satélite que ganhou destaque por transmitir declarações de Osama bin Laden e seus tenentes -, definiu o empenho publicitário americano como "um trabalho muito mal feito".

"As pessoas mais discutem a diplomacia do que a praticam", ele disse.

Ele se refere especialmente ao tratamento concedido à gravação de bin Laden, em que o exilado saudita aparentemente assume sua participação nos ataques de 11 de setembro.

A sucursal de Mirazi tentou persuadir a Casa Branca a apresentar com antecedência uma cópia da fita para que o canal pudesse inserir legendas em árabe para seu público. Mas a Al Jazeera acabou sendo obrigada a transmitir uma versão quase inaudível oferecida pela CNN com legendas em inglês, o que reduziu dramaticamente seu impacto junto a países de língua árabe.

Ele argumenta ainda que o interesse inicial de autoridades americanas pela Al Jazeera resultou somente em "entrevistas isoladas". "Agora já não sabemos mais deles", ele diz.

Autoridades americanas afirmaram que buscam um público maior após o contato inicial com a Al Jazeera, cuja popularidade é atribuída em grande parte à sua reputação de canal independente em uma região marcada pela presença de agências governamentais e publicações controladas pelo governo.

Mesmo assim algumas destas aparições parecem ter surtido efeito negativo.

Uma reportagem a respeito de uma entrevista de Condoleezza Rice, publicada na semana passada no jornal árabe "Al-Hayat", sediado em Londres, trazia a seguinte manchete: "Não fazemos pacto com Saddam, e a Síria e o Líbano devem dar fim ao seu apoio ao Hezbollah".

Nenhuma destas posições agrada aos leitores do Al-Hayat.

Ao invés de canalizar seu ódio para Saddam Hussein, a maioria dos árabes simpatiza com o sofrimento dos iraquianos - e responsabiliza os Estados Unidos pelas sanções dos últimos dez anos promovidas pela ONU e que teriam elevado, de acordo com a Unicef, a mortalidade infantil no país. E embora os Estados Unidos - que são o maior fornecedor estrangeiro de armamentos para Israel - considerem o Hezbollah libanês como uma organização terrorista, o movimento ainda desfruta de grande popularidade entre o mundo árabe, onde muitos o consideram como o responsável pela retirada de Israel do sul do Líbano no ano passado.

Enquanto Rice expunha posições já conhecidas dos americanos, um especialista se perguntava se uma visão mais nuançada teria servido melhor aos objetivos dos Estados Unidos. "É preciso treinar as pessoas para que elas conheçam sua audiência e possam dialogar com ela", afirma Tony Blinken, ex-integrante do Departamento de Segurança Nacional e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Outros mencionam as oportunidades que os americanos perderam ao não dialogar com este público.

Uma firma sediada em Washington que participa desta campanha diplomática conclamou o Pentágono a autorizar que religiosos muçulmanos que integrassem o Exército Americano concedessem entrevistas para órgãos de imprensa do mundo árabe e muçulmano, e oferecer a redes como Abu Dhabi TV e a MBC, sediada em Londres, acesso a imagens de vôos americanos lançando alimentos e remédios no Afeganistão. A firma garante que não obteve resposta.

Um representante do governo americano afirmou que as falhas apontadas indicavam a necessidade da criação de uma estratégia articulada. "Ninguém dentro do governo acredita que a diplomacia pública funciona como uma chave na ignição de um automóvel", ele disse.

Tradução: André Medina Carone

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