Pesquisa descobre como uma proteína combate tumores

Raja Mishra

Pesquisadores do Hospital Beth Israel Deaconess descobriram o complexo mecanismo biológico por trás de uma proteína, aumentando a probabilidade de que um dia ela possa ser controlada para tratar pacientes de câncer.

A proteína, chamada tumstatin, ajuda a estancar o fluxo de sangue para os tumores, levando-os à morte. Mas os cânceres mais fatais podem superar o fornecimento natural de tumstatin do corpo. O trabalho, publicado na última edição da revista "Science", poderá ajudar os cientistas a encontrar uma maneira de aumentar esse fornecimento.

As descobertas são os últimos avanços na ciência da angiogênese, um braço da biologia desbravado pelo dr. Judah Folkman, de Harvard, e que se tornou uma das principais frentes na guerra contra o câncer.

Várias proteínas semelhantes que cortam a alimentação dos tumores foram descobertas no laboratório de Folkman, transformadas em drogas e já estão sendo testadas em seres humanos. Na verdade, a própria tumstatin foi identificada há dois anos. Mas na maioria dos casos os cientistas têm poucas pistas sobre como as proteínas congestionam o fluxo sanguíneo para os tumores. O trabalho é um dos primeiros a delinear essa ação em nível molecular detalhado -o padrão de ouro na pesquisa biológica.

"Está surgindo uma imagem dessas proteínas no corpo", disse Folkman. "É realmente um trabalho elegante." Os direitos a todas as aplicações da tumstatin são detidos pela firma de biotecnologia ILEX Oncology, de San Antonio (Texas). Tanto o Hospital Beth Israel Deaconess como o pesquisador-chefe do trabalho, Raghu Kalluri, do departamento de medicina do hospital, têm ações da companhia, que deverá começar a testar drogas relacionadas à tumstatin ainda este ano.

"Talvez consigamos combinar todos esses tipos de drogas em coquetéis mágicos contra o câncer", disse Kalluri, que se reúne semanalmente com Folkman para discutir idéias. "A excitação sobre a tumstatin é que sabemos como ela funciona. Existe uma tremenda biologia por trás disso." A biologia começa com a angiogênese -a criação pelo corpo de novos vasos sanguíneos para reparar tecidos danificados. O corpo secreta proteínas que iniciam esse processo quando necessário, depois envia outras proteínas para desligá-las quando o trabalho está pronto -como o acelerador e os freios de um carro.

Os tumores cancerígenos emitem sinais de "acelerar" suficientes para sobrecarregar os freios, garantindo um fluxo sanguíneo que lhes permite crescer e se disseminar. Essa foi a principal descoberta de Folkman, há três décadas.

A tumstatin é uma proteína-freio. A equipe de Kalluri, estudando camundongos, descobriu que ela se liga a uma integrina aVb3, uma proteína aceleradora dos vasos sangüíneos. "A tumstatin as fecha e impede que se dividam", ele disse.

A equipe de Kalluri também descobriu como criar artificialmente estoques de tumstatin. Os pesquisadores têm a teoria de que ela pode ser administrada a pacientes para ajudar a frear seus tumores. A ILEX, com a ajuda de Kalluri, está seguindo essa estratégia. O mapa biológico fornecido pelo trabalho publicado esta semana poderá ajudar a refinar essa abordagem.

A endostatin e a angiostatin, primas de alto perfil da tumstatin, surgiram do laboratório de Folkman e já estão sendo extensamente testadas em seres humanos. Os primeiros resultados mostraram que não têm efeitos colaterais, mas não ocorreu o efeito de encolher os tumores, esperado por alguns. Dados mais extensos sobre sua eficácia poderão surgir ao longo deste ano.

Dezenas de outras drogas anti-angiogênese estão em estágios variados de testes ao redor do mundo. Nenhuma provou ser a solução mágica, mas os pesquisadores, incluindo Folkman, acreditam que poderiam funcionar bem em combinações.

Embora a pesquisa anti-angiogênese seja hoje um caminho bem conhecido, Folkman disse que o trabalho demonstra "quão poderosas são essas proteínas". E Kalluri descreveu a motivação pessoal que anima sua pesquisa. "Minha avó morreu de câncer de seio. Seus últimos dois anos foram terríveis. Ela queria morrer", ele disse. "Talvez possamos criar drogas contra isso."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos