Os mulás congelados do Irã

Costuma-se afirmar em nosso país que após o dia 11 de setembro nada será como antes. Esta verdade vale com força ainda maior para a República Islâmica do Irã.

O regime ficou dividido entre radicais autênticos e outros que se arriscam a perder sua reputação nacional por adotar uma postura moderada, pois não foram capazes nem de resistir às intimidações dos radicais ou dissociar-se do sistema governamental teocrático comandado por um líder clerical supremo.

Os moderados vinculados ao presidente Mohammad Khatami deixaram claro que estão exasperados e cada vez mais impacientes diante do fechamento de jornais, das ameaças a parlamentares e do atual processo público contra 15 escritores, professores e jornalistas que incorreram no erro de congregar-se na casa de um ativista político conhecido por sua oposição aos radicais.

Será contra este pano de fundo marcado pela crise da política nacional que a reação do regime aos eventos no vizinho Afeganistão deverá ser avaliada. Caso as lideranças políticas de Teerã formulassem as reações nacionais de modo racional, em acordo com os tradicionais interesses de sua nação, eles não existiriam diante desta rara oportunidade para reforçar a segurança iraniana por todos os lados.

Os nada sutis americanos rapidamente derrubaram o Taleban, a quem os iranianos desprezam por causa do massacre de seus companheiros xiitas no Afeganistão. Na verdade, após o Taleban ter assassinado dez diplomatas iranianos e um jornalista em 1999, os mulás que governam o Irã posicionaram mais de 200.000 soldados ao longo da extensa fronteira com o Afeganistão e foram dissuadidos de destruir o Taleban somente depois que o Paquistão assumiu o papel de mediador e passou a exercer forte pressão contra seus clientes do Taleban.

Graças a intervenção norte-americana no Afeganistão os clientes afegãos de Teerã na Aliança do Norte se tornaram a força predominante no governo pós-guerra do Afeganistão. Ainda mais promissores para Teerã são os sinais de que figuras destacadas do governo Bush estão decididas a dar fim a Saddam Hussein, cuja queda tem sido a principal esperança do Aiatolá Khomeini, e cujo regime representa a mais séria ameaça à segurança nacional iraniana.

Acima de tudo, estas mudanças extraordinariamente favoráveis garantidas pelos americanos tornaram viável um aprimoramento extremamente necessário das relações do Irã com Washington. Os moderados que apóiam Khatami - e sobretudo aqueles que já perderam a paciência com as promessas malogradas do presidente - desejam um governo que saiba tirar proveito destas oportunidades.

No entanto os radicais congelaram-se no interior de seu próprio temor de serem derrubados dentro do país. Eles encaram a queda da teocracia do Taleban como uma premonição de seu próprio destino nas mãos de seu povo; vêem as bases americanas que estão sendo montadas no Afeganistão, no Uzbequistão e no Quirguistão, e se sentem cercados pelas forças do "Grande Satã".

Washington deve responder com sinais de que não simpatiza com os radicais porém não pretende prejudicar os interesses regionais do Irã. Em defesa do futuro iraniano e dos interesses americanos, o governo deve apelar da forma mais direta possível à uma população iraniana que se torna cada vez mais receptiva aos ideais americanos ao mesmo tempo que despreza cada vez mais seus próprios líderes.

Tradução: André Medina Carone Islamismo

UOL Cursos Online

Todos os cursos