Promessa de alimentos e barracas de lona atraem milhares para campo de refugiados

ANTHONY SHADID

THE BOSTON GLOBE


MASLAKH, Afeganistão - No maior campo afegão para famílias refugiadas, as Nações Unidas estão se empenhando para alimentar pelo menos 150 mil pessoas que vivem em casebres de barro. Maslakh - a tradução do nome é "açougue" - é o palco de um desastre humanitário que os frustrados administradores do campo reconhecem que contribuíram para criar.

Diariamente, centenas de afegãos deixam as regiões geladas e atingidas pela seca, no norte do país, e entram no campo de Maslakh, um terreno desolado, encharcado pela chuva, com 4,8 quilômetros de extensão, próximo à cidade ocidental de Herat.

Os refugiados vêm em busca de comida e e também pela promessa de barracas de lona, fogões, cobertores, lenha, sabão e enlatados. Os funcionários da ONU admitem que o campo, que foi criado há dois anos, passou a ser um pólo de atração para os refugiados. Mas eles dizem que não possuem outra opção, a não ser ajudar aqueles que continuam chegando.

Em uma terra de tragédias, Maslakh talvez seja o local mais amargo. Um campo para famílias refugiadas que promete uma vida melhor do que nas vilas onde os desabrigados nasceram. Ele representa um desafio singular para as nações doadoras, que prometeram fornecer mais de US$ 4,5 bilhões (R$ 10,75 bilhões) para ajudar na reconstrução de um país, após 23 anos de guerra, seca, ausência de leis e fanatismo religioso.

"O problema se assemelha a um vulcão. As pessoas parecem brotar da terra como lava", diz Rafael Robillard, que supervisiona a região ocidental do Afeganistão para a Organização Internacional para Migração da ONU.

Maslakh está localizada sobre uma planície pedregosa e atacada pela erosão, cercada por montanhas íngremes. De caminhão, o acampamento fica a dois dias das províncias de Baghdis, Ghowar e Faryab, uma região a nordeste de Herat que foi devastada por um rigoroso inverno e por uma seca ainda mais inclemente, que já dura três anos. O destino dos aldeões, em sua maioria camponeses, ficou ainda pior, devido à interrupção da remessa de alimentos pela ONU, após o início dos bombardeios norte-americanos, em outubro.

Herat - de longe a maior cidade no Oeste do Afeganistão, com uma população de cerca de 350 mil habitantes - fica a apenas alguns quilômetros do acampamento, e muitos moradores são atraídos pelas promessas de comida. Em Maslakh, a ONU distribui 1.800 sacas de trigo por dia, assim como um mingau rico em proteínas, feito nas 14 cozinhas improvisadas no campo.

"Eles recebem comida", afirma Jordan Dey, porta-voz da ONU em Cabul. "Nós também lhes fornecemos água e uma barraca. A situação no campo é apenas um pouquinho melhor do que nos seus locais de origem".

Valetas escavadas pelos refugiados serpenteiam pelo campo, formando um labirinto. Elas foram feitas para a retirada do barro utilizado na construção de casebres, cujos telhados são feitos com lonas de plástico. Os recém-chegados são alojados em barracas montadas próximas as valetas cheias de água e de esgoto, o que constitui uma ameaça especial no verão, quando os mosquitos invadem a área e a ameaça de malária é maior.

Detritos humanos e animais se amontoam pelo campo. Apesar da existência de cinco clínicas de saúde, os males respiratórios, a diarréia e as doenças de pele estão disseminados entre os refugiados.

Mesmo assim, Maslakh é um testemunho à determinação para se criar uma comunidade a partir do caos. Algumas partes do campo se assemelham a vilas, com casas de barro alinhadas em fileiras. As ruas que as separam se transformaram em mercados improvisados, onde podem-se ver sacolas com óleo, açúcar, farinha de trigo, biscoitos, cenouras e laranjas.

As mulheres cuidam de animais e das crianças, com os seus vestidos brilhantes nas cores laranja, verde e vermelho fazendo um estranho contraste com a paisagem árida e amarronzada.

A promessa de Maslakh, raramente cumprida, é proporcionar uma vida melhor.

"Achamos que ficaríamos melhor aqui, que podíamos sobreviver e fazer algo por nossas crianças neste local", queixa-se Dost Mohammed, que divide uma tenda de lona branca com quatro outras famílias.

Mohammed conta que vendeu tudo o que tinha: cobertores, um tapete, e até a porta e as janelas da sua casa na província de Baghdis. Dessa forma, ele conseguiu juntar o equivalente a US$ 20 (R$ 48) e gastou a quantia na compra de passagens para a família em um caminhão que faz a viagem até aqui a cada dois dias.

"Achávamos que receberíamos trigo, óleo, lenha, além de algo com que nos vestirmos; sapatos e coisas desse tipo", diz Mohammed, que chegou com a família de 14 pessoas no mês passado. "Todos na vila estavam nos dizendo tal coisa, portanto, decidimos vir".

Em todo o campo, pode-se ouvir histórias similares.

Mah Bibi, uma viúva de 50 anos, que tem três filhos, vendeu as suas galinhas para comprar passagens no caminhão até Maslakh. Ela também ouviu os boatos.

"Todo mundo não parava de me falar que as Nações Unidas estavam fornecendo comida e barracas", diz ela. "Eu sou viúva e as minhas crianças estavam famintas, portanto segui os outros até aqui".

Para muitos refugiados, a promessa terminou em desapontamento.

Daoud - que deixou Baghdis há dois meses, após vender o seu jumento, tapete, vasos e panelas pelo equivalente a US$ 5 (R$ 12) - disse ter seguido cerca de mil outros refugiados até o campo. Ele agora se senta em frente a um fogão a gás com uma chaleira, tendo a sua volta os seus 11 filhos, todos enrolados em cobertores, amontoados com dez outras famílias em uma tenda que fornece pouca proteção contra os ventos e a chuva gelada.

"Vendemos a casa e todos os nossos bens", conta Daoud. "Não temos mais nada. Provavelmente vamos morrer por aqui".

Robillard, o funcionário da ONU, estima que entre 20% e 30% dos moradores de Maslakh são atraídos pela comida e outros suprimentos fornecidos no campo de refugiados, não tendo sido forçados a deixar as suas vilas devido à seca. Nas últimas semanas, a ONU começou a tentar anular esse atrativo através de um ambicioso programa para levar comida à população antes que ela deixe as suas vilas.

O Programa Mundial de Alimentos enviou uma quantidade de comida dez vezes maior do que a destinada a Malakh para as províncias de Baghdis e Ghowar, fortemente atingidas pela guerra e pela seca, e de onde vem grande parte dos moradores do campo de refugiados. No início deste mês a agência terminou de fazer a distribuição de sacos de farinha de trigo para 80% da população de Herat.

Os funcionários da ONU não estão certos de que os alimentos vão conter o atual fluxo de refugiados. "Ainda é muito cedo para se afirmar qualquer coisa", diz Alejandro Chicheri, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos em Herat.

Enquanto isso, a ONU luta para conter o desvio de alimentos feito por comerciantes e por certos refugiados que recebem uma quantidade até dez vezes maior do que a que lhes cabe, através da coleta clandestina de tíquetes de registro. Eles também têm que enfrentar comandantes militares locais, ansiosos para alimentar suas tropas.

Dentro de duas semanas, a ONU vai contratar 950 pessoas para fazer o registro de todos os moradores do campo de refugiados, e, a seguir, impedir a entrada de novas pessoas. Um outro campo com espaço para 30 mil pessoas será construído ao sul do aeroporto de Herat para aqueles que continuarem a chegar. Na primavera, a ONU planeja organizar comboios para transportar até quatro quintos dos moradores do campo de refugiados de volta às suas casas.

Entretanto, a solução mais permanente seria a reconstrução do país, um processo que até os observadores mais otimistas estimam que vai levar no mínimo três anos para atender às necessidades mais básicas.

"Tudo está destruído", lamenta Robillard. "No fim das contas, tudo vai depender da quantia que efetivamente seja doada ao país".

Tradução: Danilo Fonseca Afeganistão

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