Na guerra ao terrorismo, EUA podem usar táticas diferentes contra outros países

BRYAN BENDER

THE BOSTON GLOBE



WASHINGTON - Se o presidente George W. Bush quiser expandir a campanha dos Estados Unidos contra o terrorismo de forma que ela englobe o Irã, o Iraque e a Coréia do Norte, ele provavelmente utilizará uma combinação de ações clandestinas, sanções econômicas e pressão diplomática, a fim de modificar o comportamento desses países, segundo afirmaram na quarta-feira funcionários do governo e especialistas em segurança nacional.

De acordo com eles, a única alternativa além dessa abordagem gradual seria a guerra aberta. Essa opção é muito mais arriscada - e, portanto, bem menos provável.

O comandante-em-chefe dos Estados Unidos assinalou os governos de Bagdá, Teerã e Pyongyang, no seu discurso do Estado da União, na noite da última terça-feira, afirmando que considera esses regimes como um "eixo do mal", devido à sua letal combinação de armas de destruição em massa e associações bem documentadas com grupos terroristas que tentam obter tais armas. O presidente afirmou que esses países serão um dos principais focos da campanha contra o terrorismo nos próximos meses.

Mas a natureza desses regimes, a falta de informações concretas sobre os seus arsenais altamente secretos, e as suas temíveis capacidades militares fazem com que, no caso deles, o tipo de ataque desfechado contra o Afeganistão seja uma medida mais problemática. Apesar dos altos índices de aprovação do presidente, a idéia de um ataque a esses países faz com que membros do Congresso e das forças armadas se retraiam.

De acordo com os especialistas, embora uma ação militar em escala total seja improvável, caso ela fosse executada, o alvo provavelmente seria o Iraque, e não o Irã e a Coréia do Norte. O Iraque tem sido uma espinha atravessada na garganta dos Estados Unidos há anos, e sabe-se que há um setor do governo que gostaria de ver uma ação enérgica contra o regime iraquiano.

Acredita-se que os três países possuam grandes arsenais de armas de destruição em massa, e que continuam a buscar matéria-prima e pessoal especializado para desenvolver ainda mais esses arsenais.

O Iraque, sob a liderança do presidente Saddam Hussein, continua a conduzir o seu programa de armas de destruição em massa, ainda que esse programa tenha sido considerado ilegal pelos vencedores da Guerra do Golfo. Observadores crêem que o país tenha armazenado armas químicas e biológicas e que continue a realizar pesquisas para construir armas nucleares.

"Considerando-se o comportamento do Iraque no passado, é possível que o país tenha utilizado o período transcorrido desde o final da Guerra do Golfo para retomar os seus programas proibidos de armamentos", diz um recente relatório de inteligência da CIA. Acredita-se, no entanto, que o arsenal de mísseis do país seja pequeno, consistindo de uns poucos foguetes de curto alcance.


Já o Irã, de acordo com o relatório da CIA, "continua sendo um dos países mais ativos na busca da aquisição de armas de destruição em massa. O Irã possui um programa de armas químicas e biológicas que se acredita incluir milhares de toneladas de substâncias letais".

Segundo os oficiais de inteligência da CIA, não se acredita que o Irã possua armas nucleares, mas que procura obtê-las para utiliza-las como um elemento de dissuasão contra o vizinho Iraque e, em menor escala, contra Israel. O país também desenvolveu - com a assistência da Rússia, da China e da Coréia do Norte - um eficiente programa de mísseis de longo alcance que poderiam ser utilizados para lançar ogivas químicas, biológicas ou nucleares.

Quanto à Coréia do Norte, a comunidade de inteligência estadunidense acredita que o país possua entre 500 e 5 mil toneladas de armas biológicas, podendo também já possuir várias bombas nucleares. Possuindo o mais avançado programa de mísseis dentre os três países, o governo norte-coreano poderia ameaçar não só a Coréia do Sul e o Japão, mas também a extremidade ocidental dos Estados Unidos.

No entanto, acredita-se que o programa de armas de destruição de massas e de mísseis implementado pela Coréia do Norte se destinaria mais a exercer pressões políticas do que militares. Os norte-coreanos apostariam que seria possível utilizar essas armas em barganhas para obter concessões que fortaleceriam o regime.

Mas o paradeiro e a dimensão desse arsenal continua sendo um grande mistério - um fato que faz como que seja difícil para os estrategistas militares dos Estados Unidos destruir tal arsenal antes que o regime norte-coreano pudesse utiliza-lo em uma retaliação.

Além do mais, tanto o Irã quanto o Iraque e a Coréia do Norte possuem forças armadas apreciáveis que teriam que ser enfrentadas - o que não foi o caso no Afeganistão. "A Coréia do Norte poderia até nos proporcionar uma guerra muito séria", admite um oficial do Pentágono, que acrescentou que tanto o Irã quanto o Iraque possuem forças armadas que estão entra as maiores do mundo.

Como conseqüência, ao invés de uma guerra total, os especialistas prevêem que o presidente Bush optaria pelas ações clandestinas, sanções econômicas e manobras diplomáticas para atacar o problema representado pelas armas de destruição em massa e as atividades terroristas nesses países, e para estrangular as suas fontes de matéria-prima e equipamentos. "O cenário mais provável é que, quanto ao Irã, a CIA procure pelos fornecedores iranianos de verbas e material para os grupos terroristas do Oriente Médio", afirma John Pike, da GlobalSecurity.org, em Washington.

O deputado Barney Franks - que faz parte do grupo de congressistas preocupados com a possibilidade de Bush seguir um curso que jogue as forças armadas dos Estados Unidos em um potencial atoleiro - prevêem que o Irã pode em breve ter que enfrentar sanções mais rigorosas dos Estados Unidos, e possivelmente de outros países, para que mude o seu comportamento.

No entanto, quanto à Coréia do Norte o governo estadunidense pode ainda ter uma oportunidade para recomeçar o diálogo iniciado pelo governo Clinton, em uma tentativa de pôr um fim ao impasse na Península da Coréia, que já dura 50 anos.

"Clinton obteve resultados concretos em relação à Coréia do Norte", diz Frank. "Eles não são mais loucos e suicidas como costumavam ser. Interromper as negociações com a Coréia do Norte foi a pior medida tomada por Bush".

Tanto no caso do Irã quanto da Coréia do Norte, a Rússia e a China provavelmente desempenhariam um importante papel para que as medidas econômicas e diplomáticas tomadas pelos Estados Unidos para acabar com os programas de armas de destruição em massa desses países pudesse obter sucesso.

"A Rússia e a China teriam que tomar uma posição firme contra esses programas, caso quisessem continuar sendo membros da coalizão contra o terrorismo, liderada pelos Estados Unidos", afirmou um alto funcionário do Departamento de Defesa. Nos últimos anos, a Rússia tomou medidas para impedir que mísseis e a chamada "tecnologia dual", que pode ser utilizada para o desenvolvimento de armas de destruição em massa, fossem exportados para o Irã. Já a China prometeu fazer o mesmo, ainda que as empresas chinesas continuem a ser alvo de sanções dos Estados Unidos, devido aos negócios que possuem com o Irã e a Coréia do Norte.

Quanto a Saddam Hussein, a história é totalmente diferente. A remoção do ditador iraquiano sem uma grande invasão militar é improvável, e, portanto, a próxima grande campanha bélica da guerra de Bush será provavelmente dirigida contra Bagdá.



Tradução: Danilo Fonseca Terror

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