Mortalidade de bebês e gestantes no Afeganistão é uma das maiores do mundo

ELIZABETH NEUFFER

THE BOSTON GLOBE



CABUL, Afeganistão - É o silêncio - e não o choro dos recém-nascidos - o que mais chama a atenção dos visitantes nos corredores do Hospital Maternidade Malalai, na capital afegã.

Isso se deve, em parte, ao fato de tantos dos bebês que nascem aqui morrerem e também porque aqueles que sobrevivem são desnutridos e fracos.

Em uma semana típica, morrem 40 bebês no hospital, o equivalente a 10% dos que nascem nesse período. Isso ocorre em um hospital que é considerado um dos melhores da capital.

A pobreza, a ignorância, as décadas de guerra e os anos de repressão contra as mulheres por parte do regime fundamentalista Taleban foram fatores que se conjugaram para que o Afeganistão tenha hoje, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo - além da maior taxa de mortalidade materna, já que quase a metade das mortes de mulheres em idade de procriar é atribuída ao trabalho de parto.

"Eu já perdi quatro filhos", queixa-se Sab Zagul,de 40 anos, deitada em um leito do hospital, esperando por uma operação para remover do ventre inchado o seu quinto filho morto. "Eu estava apavorada demais para procurar o hospital na época do Taleban". Em toda a nação, um quarto de todas as crianças morre antes de completar cinco anos de idade

O fornecimento de cuidados adequados de saúde para as mulheres e os seus filhos, após anos de negligência por parte do Taleban, se tornou uma necessidade crítica para o governo interino do Afeganistão. Mas ainda não se sabe se o novo governo será capaz de mobilizar o apoio internacional - e o financiamento - para fazer com que tal fato aconteça.

Os doadores internacionais prometeram fornecer uma ajuda de US$ 4,5 bilhões (R$ 10,91 bilhões) para auxiliar na reconstrução do Afeganistão, mas, segundo estimativas, a tarefa vai exigir uma quantia de US$ 15 bilhões (R$ 36,37) no decorrer da próxima década.

Uma fonte de preocupação para o governo do líder interino Hamid Karzai são os US$ 34 milhões (R$ 82,45 mihões) que o governo Bush ainda precisa liberar para o Fundo de População das Nações Unidas. Cerca de US$ 600 mil (R$ 1,45 bilhão) dessa soma devem ser destinados para mulheres afegãs refugiadas.

Embora a Casa Branca originalmente tenha solicitado a liberação dessa verba - e o Congresso tenha aprovado maciçamente a proposta - uma objeção feita pelo deputado Chris Smith, que é oponente do aborto, fez com que o governo Bush adiasse o depósito da quantia no fundo das Nações Unidas.

Smith, um republicano de Nova Jersey, argumenta que o fundo tolera os abortos forçados e a esterilização involuntária na China, ao apoiar os programas de planejamento familiar daquele país, uma alegação que é rejeitada pelas autoridades da ONU.

"É ultrajante o fato de as mulheres afegãs terminarem por ser punidas", diz Adrienne Germain, da organização International Women's Health Coalition. "Isso está incapacitando uma agência capaz de fazer diferença".

O Fundo de População das Nações Unidas gostaria de começar por investir os US$ 5 milhões (R$ 12,12 milhões) necessários à compra de nova mobília e equipamentos, bem como para o treinamento das equipes dos hospitais maternidades afegãos, na esperança de diminuir o índice de mortalidade.

"O equipamento é obsoleto, e não inexistente", disse Oliver Brasseur, do Fundo de Populações da ONU, em uma entrevista concedida em Cabul. Ele disse ter presenciado a realização de cirurgias sem esterilização apropriada, e visto salas de cirurgia com vasos sanitários entupidos. "A qualidade do serviço médico precisa melhorar muito", afirma.

Brasser lembra como, durante o período do Taleban, os membros do regime visitavam freqüentemente os hospitais para se assegurar de que as mulheres usavam a burca, a vestimenta que as cobre da cabeça aos dedos dos pés. Segundo ele, os fundamentalistas aproveitavam essas visitas para roubar os estoques, desde agulhas hipodérmicas até contraceptivos.

As determinações estritas baixadas pelo Taleban não ajudaram em nada a melhorar os índices recordes de mortalidade materna. As mulheres não tinham permissão para trabalhar, o que reduziu o rendimento de muitas famílias. Elas não podiam se locomover fora das suas residências sem estar acompanhadas. E os médicos do sexo masculino foram praticamente proibidos de prestar assistência às mulheres.

"No decorrer dos últimos cinco anos, as mulheres foram discriminadas no que diz respeito ao acesso aos poucos serviços disponíveis no país", acusa Lakhdar Brahimi, representante especial da ONU no Afeganistão. Um estudo feito pela organização médica Physicians for Human Rights, no ano passado, mostrou que entre 21% a 64% das mulheres não tinham acesso ao sistema de saúde.

A ignorância quanto à saúde feminina é um fenômeno antigo nessa sociedade profundamente islâmica. Mesmo antes do Taleban, não se ouvia falar em educação sexual, e muito menos em contracepção. Nem tampouco se permitia que as mulheres tivessem uma pausa entre as gestações. Os absorventes íntimos, por exemplo, eram - e ainda são - desconhecidos por aqui.

Mas nos últimos anos, devido ao fato de o Afeganistão contar com tão poucos hospitais - e também porque um número tão pequeno de mulheres ousa freqüenta-los ou pode arcar com os custos do tratamento nessas instituições - cerca de 90% de todos os partos são feitos nas residências, a grande maioria assistida por uma familiar ou amiga desqualificada para tal tarefa.

O resultado é que os bebês e as suas mães morrem em grande quantidade.

"Os talebans eram tão fanáticos que preferiam ver as mulheres e os seus bebês morrerem do que permitir que elas se consultassem com um médico", critica Nazdana Paktiawal, médica no único hospital de Paktia, uma província ao sul de Cabul. "A maioria das mulheres morria porque sangrava até a morte".

Paktiawal, que aguardava nas instalações do Ministério da Saúde, na esperança de conseguir mais equipamentos cirúrgicos, calcula que presencia a morte de sete a oito mulheres por semana. Elas são trazidas com muito atraso ao hospital, de forma que não conseguem sobreviver.

As mulheres estão indo em massa aos hospitais, agora que o Taleban caiu. Em Cabul, os ambulatórios estão lotados de pacientes que viajaram durante dias de vilas isoladas a fim de procurar assistência médica.

Algumas, como Sab Zagul, chegaram muito tarde para salvar os seus filhos. Outras, amontoadas em duplas nos leitos disponíveis no Hospital de Saúde Infantil de Cabul, se agarram à esperança de que os filhos não morram das doenças que tipicamente as vitimam, tais como a diarréia e a pneumonia.

Recentemente, na unidade de terapia intensiva, não havia eletricidade pela manhã. A sujeira se espalha pelo chão e as janelas possuem buracos. Uma fogueira de lenha aquece o quarto, fazendo, entretanto, com que o ambiente fique enfumaçado - o que está longe de ser a condição ideal para os jovens pacientes, todas eles lutando para respirar e sofrendo de pneumonia.

O bebê Milad, de seis meses de idade, com os olhos vítreos e a respiração difícil, jaz apático no colo da mãe, Wida, de 26 anos. Essa é a sua primeira visita ao hospital, e ela pode ter chegado muito tarde.

"Estou muito preocupada com essa criança", afirma a médica Wasima. "No momento, precisamos urgentemente de oxigênio, mas isso não existe por aqui".

As agências da ONU afirmam ser fundamental intervir de forma rápida e generosa no Afeganistão. O principal motivo para que se tomasse tal medida seria combater a desesperança que prevalece no país e, assim fazendo, assegurar que o terrorismo nunca mais firmasse raízes em solo afegão.

Mas a pobreza, a ignorância e a falta de serviços que permitiram que o Taleban chegasse ao poder ainda prevalecem no país, assim como a falta de assistência médica que ameaça a vida das mães e dos seus filhos, que serão os futuros líderes do Afeganistão.

"Se as crianças puderem contar com uma chance modesta de crescer em um ambiente razoavelmente estável, a possibilidade de que o terrorismo retorne é menor", afirma Carol Bellamy, diretora da Unicef, argumentando que são necessárias mais verbas para aprimorar os serviços de saúde para mães e crianças no Afeganistão. "É preciso lutar contra o terrorismo, mas também é necessário criar um clima que não proporcione condições para que o terror chegue a se instalar".



Tradução: Danilo Fonseca

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