Para os EUA, a Bósnia é um trunfo na guerra contra o terrorismo

BRIAN WHITMORE

THE BOSTON GLOBE


SARAJEVO, Bósnia Herzegovina - Quando as tropas norte-americanas desembarcaram em uma Bósnia devastada pela guerra, há seis anos atrás, como parte de uma força internacional de segurança, a operação foi vista por muita gente como uma missão bem intencionada para colocar um fim ao processo de limpeza étnica promovido no país, onde não havia nenhum interesse nacional óbvio dos Estados Unidos em jogo.

Mas desde os ataques de 11 de setembro, a presença da Otan nesta dividida nação dos Bálcãs se transformou em um grande trunfo na guerra ao terrorismo, podendo ter impedido a ocorrência de futuros ataques, atrapalhado o funcionamento das células da Al Qaeda e salvo vidas norte-americanas, segundo oficiais militares dos Estados Unidos.

A experiência na Bósnia demonstra que os esforços humanitários liderados pelos Estados Unidos, direcionados à manutenção da paz e à reconstrução do país, podem ter produzido posteriores benefícios colaterais inesperados.

Com as suas fracas instituições estatais, as suas bordas porosas, e uma grande população muçulmana traumatizada pela guerra, a Bósnia é vista há muito tempo como um foco natural de terrorismo - um Afeganistão em potencial instalado no coração da Europa.

Mas graças em grande parte à cooperação das autoridades bósnias, das delegações internacionais e dos 17 mil soldados da força de paz estacionados aqui, incluindo 3.100 estadunidenses, esse potencial sombrio não se materializou.

Desde 11 de setembro, oficiais bósnios, estadunidenses e da Otan dizem que fizeram grandes esforços para coletar material chave de inteligência e desmontar as redes de terrorismo da região.

Nesse ínterim, as Nações Unidas e outras organizações internacionais auxiliaram as autoridades locais a exercer um maior controle sobre as fronteiras porosas da Bósnia, fortalecendo o controle de imigração e baixando leis que fazem com que o país se torne menos hospitaleiro para com terroristas.

"Creio que seria correto dizer que a Bósnia é hoje muito diferente daquele paraíso de férias, que é como os terroristas viam o país", afirma um oficial militar dos Estados Unidos. Durante a guerra da Bósnia, de 1992 a 1995, quando tropas paramilitares sérvias e croatas lançaram uma campanha brutal de limpeza étnica contra os muçulmanos do país, milhares de mercenários islâmicos, a maioria de países árabes, vieram para cá lutar.

Após a guerra, centenas deles ficaram, casaram com mulheres nativas, e ganharam a cidadania de um governo bósnio que lhes era grato. Porém, mais tarde se suspeitou que alguns desses guerreiros teriam laços com grupos terroristas, incluindo a Al Qaeda. Cerca de 44% dos 3,7 milhões de habitantes da Bósnia são muçulmanos, mas eles praticam uma versão mais tolerante da fé, e não o fundamentalismo islâmico pregado pelos recém-chegados.

Enquanto isso, o deficiente sistema bósnio de imigração facilitava a entrada de potenciais terroristas islâmicos no país, que se misturavam a população e desapareciam, para planejar futuros atentados.

Desde os ataques de 11 de setembro contra os Estados Unidos, a polícia Bósnia e a SFOR, a força de paz local liderada pela Otan, prenderam mais de 20 pessoas, a maioria de origem árabe, devido à suspeita de que estivessem envolvidas com terroristas ou que os apoiassem.

O caso mais notável envolveu seis argelinos suspeitos de planejar um ataque contra a embaixada dos Estados Unidos em Sarajevo. O prédio voltou ao controle dos Estados Unidos no mês passado. Um dos argelinos teria feito ligações telefônicas para Abu Zubaydah, um importante assessor de Osama Bin Laden, segundo informações de autoridades locais.

Além disso, a polícia bósnia e a SFOR detiveram e deportaram um jordaniano e três egípcios. Eles também detiveram, interrogaram e libertaram quatro bósnios, um jordaniano e cinco paquistaneses.

Oficiais da polícia bósnia dizem que 17 pessoas, que segundo relatórios de inteligência dos Estados Unidos poderiam estar ligadas ao terrorismo, estão sobre vigilância intensa. A polícia local também afirma que está investigando 120 instituições islâmicas de caridade, que poderiam ter laços com o terrorismo.

"Graças à boa cooperação entre os oficiais da Bósnia Herzegovina, a SFOR e a Otan, os laços da rede Al Qaeda na Bósnia foram cortados", afirmou um relatório de outubro da SFOR. "Mas isso não significa que o perigo tenha acabado, e sim que estamos fazendo com que seja muito difícil para a Al Qaeda conduzir no futuro operações na Bósnia Herzegovina".

Oficiais norte-americanos dizem que um grande motivo para o sucesso em minimizar a ameaça terrorista na Bósnia é o trabalho conjunto das forças de paz e da população, que ainda vêem os norte-americanos como os salvadores que colocaram um fim aos anos de derramamento de sangue inter-étnico.

A pedido das autoridades ocidentais, as autoridades bósnias também se mobilizaram para criar políticas de imigração mais rigorosas. Elas introduziram requisitos para a concessão de vistos de entrada no país para cidadãos do Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Tunísia e Bahrain.

Mesmo antes de 11 de setembro, a ONU supervisionou uma grande reforma do serviço de fronteiras da Bósnia, com resultados visíveis. Segundo as estatísticas da ONU, no ano de 2000, mais de 24 mil visitantes que chegaram nos dois principais aeroportos da Bósnia desapareceram após entrar no país. Já nos dez primeiros meses de 2001, esse número tinha caído em 66%, ficando em 8.952.

"Queremos ser um país que ajuda a encontrar soluções para o problema do terrorismo, e não um local onde tais problemas venham à tona", diz Rasim Kadic, vice-ministro da Bósnia para a Integração Européia e membro da força tarefa anti-terrorismo do país. "Não queremos que os nossos cidadãos se tornem reféns dessa situação".

O governo também está revendo todos os passaportes concedidos a estrangeiros desde 1992, e, a partir daquela data, já cassou a cidadania de cerca de 94 pessoas.

"Aquilo que os bósnios fizeram para se ajudar após o 11 de setembro aumentou dramaticamente a sua capacidade de policiar o país, as fronteiras e de fazer com se transformassem em uma nação melhor governada", elogia um oficial militar estadunidense.

Quando no ano passado começaram a circular rumores de que os guerreiros da Al Qaeda fugindo do Afeganistão poderiam rumar para a Bósnia, Muhamed Besic, que era na época o principal chefe da força policial da nação, deixou claro que eles não seriam bem vindos.

"Esse pessoal acredita que há um paraíso aguardando por eles aqui", disse Besic à imprensa. "Mas eu prometo a todos aqueles ligados ao terrorismo que a Bósnia será para eles um verdadeiro inferno".



Tradução: Danilo Fonseca

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