EUA ainda devem evitar os erros dos soviéticos, dizem especialistas

David Filipov

MAZAR-E-SHARIF, Afeganistão - O Taleban caiu, o aeroporto está funcionando, a ajuda humanitária fluindo, e tudo isso graças às forças armadas dos Estados Unidos. A população do norte do Afeganistão está tão satisfeita com as tropas norte-americanas que alguns estão atribuindo à presença americana as pesadas chuvas e a nevasca da semana passada, que prometem colocar um fim aos três anos de uma seca cruel.

"Os norte-americanos aparecem, acabam com o Taleban, e depois até a chuva volta a cair: a população está vendo isso como um bom presságio", diz o major Mark Kneram, oficial de logística da Segunda Brigada da 10ª Divisão de Montanha do Exército dos Estados Unidos, cuja base fica no aeroporto nas imediações dessa cidade do norte do país. "As pessoas daqui realmente nos receberam de braços abertos".

Mas os veteranos da desastrosa campanha soviética no Afeganistão advertem que essa reação positiva após os primeiros meses de envolvimento dos Estados Unidos pode ser enganadora. Alguns russos prevêem que uma prolongada guerra de guerrilha, com os mesmos mortíferos ataques relâmpago que acabaram por minar a moral dos soviéticos, pode ser um quadro futuro para as tropas norte-americanas estacionadas no Afeganistão.

Os veteranos russos apontam para dois perigos em potencial para a campanha dos Estados Unidos. O primeiro é que os ex-soldados talebans, que rapidamente se misturaram à população logo após a Aliança do Norte, apoiada pelos Estados Unidos, os ter expulsado das principais cidades afegãs em novembro, podem voltar a se armar e lançar ataques contra as tropas norte-americanas.

O outro perigo, segundo os veteranos, é que as forças norte-americanas venham a fazer novos inimigos caso a sua campanha para localizar e destruir os membros remanescentes do Taleban e da Al Qaeda venha a causar mortes entre civis.

"Em março haverá muitos problemas", prevê Vladimir Tamarov, cujo livro sobre a campanha soviética no Afeganistão, "Uma História de um Soldado Russo", foi publicado nos Estados Unidos no ano passado. "Os afegãos não lutam no inverno. É muito frio. Eu não me surpreenderia se aqueles que desistiram da luta reaparecessem, encontrassem as suas armas e iniciassem um combate contra os norte-americanos na primavera".

"O mesmo aconteceu com os soviéticos", diz Tamarov, que combateu em uma unidade soviética aerotransportada no Afeganistão, entre 1984 e 1986.

Pode não ser apropriado comparar neste momento a amarga ofensiva bélica da União Soviética, que por uma década tentou domar o Afeganistão, à campanha dos Estados Unidos contra a Al Qaeda, uma operação apoiada por muitos afegãos, já que ela procura livrar o país dos estrangeiros seguidores de Osama Bin Laden.

Mas os veteranos russos e os acadêmicos afegãos se lembram de que as coisas também andaram bem para os soviéticos em 1980, o primeiro ano da sua campanha. Foi só mais tarde que a situação se deteriorou e a lista de mortes começou a crescer.

"Durante o meu primeiro ano no país, a população foi muito amigável", conta Gennady Chebyshev, um coronel da reserva, que lutou no Afeganistão durante toda a campanha soviética. "Eu era capaz de contratar um motorista e passear através do país. Ninguém levantava um dedo contra mim. A população me convidava para tomar chá".

"Essa situação mudou quando começamos a bombardear os vilarejos, em retaliação aos ataques realizados pelos soldados da resistência afegã, disse no mês passado Chebyshev, que hoje trabalha para uma empresa vendedora de telefones de comunicação por satélite, em Moscou. "Foi aí que o povo se tornou hostil, e a guerra de verdade começou".

Ali Asghar Paiman, vice-ministro do Planejamento do governo interino do Afeganistão, diz que, inicialmente, a maioria dos afegãos ficou alegre quando Moscou ajudou a derrubar o impopular regime comunista do presidente Hafizullah Amin.

"No início foi fácil para os soviéticos, já que o povo afegão pensou que a União Soviética o tinha libertado", explica Paiman.

Mas, a seguir, Moscou substituiu Amin por um regime comunista fantoche que começou a oprimir os líderes muçulmanos do Afeganistão, e os afegãos perceberam que "os soviéticos estavam interferindo com os assuntos internos do país", diz Paiman.

O general Tommy Franks, comandante da coalizão militar liderada pelos Estados Unidos, disse que os norte-americanos estão evitando repetir os erros cometidos pela União Soviética nos anos oitenta.

Em vez de divisões de soldados e tanques, que ser transformaram em alvos durante a campanha soviética -primeiro para os afegãos descontentes e depois para as minas e os lançadores de granadas- os Estados Unidos têm se concentrado basicamente nos bombardeios aéreos e nas operações rápidas realizadas por unidades pequenas e móveis.

Os soviéticos vieram para conquistar o Afeganistão e instalar um governo amigável. Os norte-americanos chegaram em resposta a um ataque desfechado contra os Estados Unidos e para ajudar forças afegãs a se livrar tanto de um regime que ninguém mais suportava quanto dos militantes da Al Qaeda, que treinavam no país.

Os soviéticos tentaram impor um regime secular comunista ao povo afegão e puniram aqueles que resistiram. Os Estados Unidos têm se esforçado para respeitar as tradições afegãs e envolver a comunidade internacional no processo de reconstrução do país.

Mas tanto a campanha soviética quanto a norte-americana envolvem a presença de tropas de uma grande potência estrangeira no solo afegão. E é isso exatamente o que preocupa muitos afegãos.

"Muitos afegãos não querem a presença de forças militares estrangeiras em seu país", afirma Abdul Ghafur-Levor, editor em Cabul do Institute for War and Peace Reporting, cuja sede fica em Londres.

Por várias vezes os afegãos manifestaram preocupação quanto à possibilidade de as tropas dos Estados Unidos ficarem no país muito tempo depois de as suas bombas terem derrubado o Taleban. Abdul Khan, um comandante afegão cujas tropas lutaram contra os membros da Al Qaeda na fronteira oriental com o Paquistão, disse a dois repórteres norte-americanos em dezembro que "levassem as tropas norte-americanas consigo quando deixassem o país".

Mas, segundo Kneram, o ofical de logística norte-americano, as tropas dos Estados Unidos estacionadas próximas a Mazar-e-Sharif ainda não sentiram tal hostilidade.

"Não existe nenhuma força explícita que não queira a nossa presença aqui", diz ele, citando o aeroporto reparado pelos norte-americanos, a entrega diária de ajuda humanitária, e os operários afegão que foram contratados para fazer grande parte do trabalho local.

A morte de civis resultante de algumas operações dos Estados Unidos no Afeganistão não parecem ter mudado a natureza do sentimento dos afegãos para com os norte-americanos. Na semana passada, os militares norte-americanos libertaram 27 afegãos aprisionados após um ataque de forças especiais dos Estados Unidos contra um local suspeito de ser um esconderijo para a Al Qaeda, na província de Uruzgan, no sul do país. A operação matou 19 afegãos, e o Pentágono está investigando se algumas das vítimas eram inocentes, conforme insistem em afirmar alguns afegãos.

Não seria a primeira vez em que civis teriam morrido devido a erros nas operações norte-americanas. Mas Levor, do Institute of War and Peace Reporting, diz que, por hora, os afegãos entendem que a campanha norte-americana é dirigida contra a rede de Bin Laden e não contra eles. "Além do mais, os afegãos estão muito cansados de lutar, após 23 anos de conflitos", diz ele.

"O povo do Afeganistão sabe agora que os norte-americanos não vieram até aqui para conquistar o país", diz Levor. "Eles vieram para lutar, mas apenas temporariamente. Após um certo período, as tropas norte-americanas partirão".

Mas, segundo Tamarov, tal sentimento pode mudar, caso os norte-americanos sejam atacados e se vejam forçados a trazer mais tropas. Um outro problema potencial para as forças norte-americanas poderia vir das lutas tribais e étnicas que irromperam em partes do Afeganistão, caso essas batalhas se intensifiquem e enfraqueçam o novo governo, que é apoiado pelos Estados Unidos.

A campanha soviética no Afeganistão entrou em apuros quando a população perdeu a confiança no regime de Babrak Karmal, apoiado pelos soviéticos. Os Estados Unidos poderiam vir a enfrentar um problema semelhante caso o novo governo fracassasse em trazer estabilidade, paz e ordem ao país.

Até o momento, os conflitos regionais têm sido esporádicos e limitados. Mas, caso as batalhas se alastrarem, pode haver mais resistência tanto às tropas norte-americanas quanto às tropas de paz da ONU, cujas operações estão limitadas à capital, Cabul. O primeiro-ministro interino, Hamid Karzai, solicitou à ONU que expandisse as suas forças de segurança no país.

"Se em meados do ano as tropas norte-americanas começarem a enfrentar problemas, elas não terão escolha", disse Tamarov pelo telefone, de São Francisco, onde mora atualmente. "Mas nesse caso eles enfrentarão um dilema, que é a impossibilidade de ganhar uma guerra civil em um país estrangeiro. Foi isso o que os soviéticos descobriram. Quanto mais tropas eles traziam para o país, mais problemas eram criados".

Tradução: Danilo Fonseca

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