Agências humanitárias tentam atrair afegãos de volta para o campo

DAVID FILIPOV

THE BOSTON GLOBE



ACAMPAMENTO DA 65ª DIVISÃO, Afeganistão - Procurando colocar um fim ao ciclo da fome que devastou a zona rural do Afeganistão, as agências humanitárias estão tentando persuadir fazendeiros que fugiram do campo a voltar a suas vilas, antes que seja muito tarde.

Dentro de apenas cinco semanas a estação de plantio estará encerrada para os dezenas de milhares de agricultores afegãos, especialmente para aqueles que trabalham nas áreas de grande altitude. Perder a estação significaria um outro ano de fome ou de dependência de doações de organismos internacionais.

Como incentivo, cada família camponesa que retornar receberá sementes, ferramentas, utensílios de cozinha, alimentos e material de construção, bem como a garantia dos comandantes locais de que ninguém roubará esses itens de valor.

O problema é que muitos agricultores preferem a abjeta pobreza dos campos de refugiados ao risco de passarem fome em suas terras. Eles passaram os últimos dois anos nos campos de refugiados, já que a vida nas suas aldeias depende da água das chuvas, que tem sido escassa nos últimos três anos. Eles temem que este ano as coisas não sejam diferentes, o que significaria que um retorno a suas terras redundaria em fracasso certo.

Contrapondo-se a esses temores está a política oficial do governo interino do Afeganistão. Ressuscitar a agricultura é uma das prioridades em uma terra onde 85% da população é composta de agricultores. Por isso, no mês passado, Hamid Karzai, chefe do governo interino, prometeu fazer com que o país volte a contar com as abundantes colheitas que ocorriam no passado.

"Os agricultores precisam se apressar e fazer o plantio, caso contrário será muito tarde", afirma Arnauld Serra-Horguelin, do Comitê Internacional de Resgate, de Nova York, que espera poder fechar 19 campos que abrigam um número estimado em 250 mil refugiados nas imediações da cidade de Mazar-e-Sharif, no norte do país.

No sábado, várias centenas de agricultores e suas famílias, aqueles que decidiram tentar mais uma vez trabalhar na terra, embarcaram em caminhões para retornar a Sholgara, uma vila em uma área montanhosa, 65 quilômetros ao sul de Mazar-e-Sharif, onde a luta entre as milícias tajique e uzbeque prossegue.

Uma condição crucial para o retorno dessas pessoas é a obtenção de garantias dos comandantes militares locais de que ninguém vai molestar os agricultores que retornam, afirma Muhammad Azam, da fundação tcheca People in Need, que organizou o programa de regresso a Sholgara. Agora, a People in Need está se empenhando em fazer com que as famílias de agricultores retornem a Dara-e-Suf, que possui uma estação de plantio mais tardia, já que fica no alto das montanhas.

O Programa Mundial das Nações Unidas para Alimentos tem avaliado as condições das aldeias agrícolas duramente atingidas pelo êxodo, a fim de determinar quais delas são capazes de assimilar o retorno da população refugiada. Mesmo com o pacote de auxílio, a maior parte dos agricultores vai estar bastante vulnerável. Vários deles perderam as suas casas devido às batalhas. O Taleban queimou muitas das aldeias agrícolas no interior, e mesmo aqueles que ainda têm as suas casas terão que vender os seus bens para se mudarem de volta para o campo.

Peter Schimann, da Organização para Agricultura das Nações Unidas (FAO), diz que, o fato de se fornecer uma quantidade limitada de sementes aos agricultores pode significar que muitos deles fracassarão.

"Para ter sucesso, eles precisam de pelo menos 100 quilos de sementes", explica Schimann, que recentemente trocou o seu posto na representação da FAO em Mazar-e-Sharif por uma nova posição. "Em determinados casos, eles só estão recebendo 50 quilos".

Schimann diz que seria melhor fornecer aos agricultores toda a quantidade de sementes de que eles precisassem, o que pelo menos implicaria em uns poucos casos de prosperidade e possibilitaria a geração de oportunidades de empregos para outros. Mas Serra-Horguelin diz que a falta d'água significa que muitos agricultores não serão capazes de trabalhar em suas terras. Além do mais, um grande número de refugiados que retornam nunca tiveram terras, e sobreviviam como meeiros.

Segundo ele, esses indivíduos terão que arranjar outras atividades, tais como a reconstrução de estradas ou a construção de escolas, clínicas médicas, poços artesianos e outras obras de infra-estrutura.

"Existe muito trabalho a ser feito", diz ele.

Mas tem muita gente que não deseja deixar os campos de refugiados, não importa o que lhes seja oferecido.

É esse o caso das cinco mil pessoas da colina de Alborz, cerca de 40 quilômetros a sudoeste de Mazar-e-Sharif. Eles querem começar a partir do zero. Isso porque, de acordo com seu ponto de vista, o local de onde vieram é inabitável. Dessa forma, eles estão solicitando ao governo e às organizações humanitárias que permitam que construam uma cidade no deserto. Tudo que pedem é que alguém cave um poço artesiano suficientemente profundo para alcançar o lençol freático.

"Não queremos regressar à nossa aldeia", afirma Saifudin, o vice-chefe do Acampamento da 65ª Divisão, cujo nome é uma referência ao bombardeado quartel militar soviético onde vivem as pessoas de Alborz.

"Não há trabalho, escola ou abrigo. Os nossos pais não tiveram escolas, e morreram na escuridão. Queremos eletricidade. Somos todos analfabetos. Queremos educação".

Eles não podem permanecer no campo por mais um ano. O Campo da 65ª Divisão só possui um banheiro e casebres de barro, espremidos e sem ventilação. Não há alimentos, a não ser aquele obtido por meio de esmolas ou em troca de pequenos trabalhos.

Ghulmi, que divide um casebre minúsculo, de apenas um aposento, com suas seis crianças e duas outras família, desfia fardos de algodão para obter pão. Dois dias de trabalho equivalem a um pão. O único alimento disponível é o milho, que eles colhem nos campos e cozinham em água. Como combustível, eles usam estrume de carneiro e camelo. Não existem remédios, a não ser algumas pílulas amareladas de açúcar, aparentemente fornecidas por médicos locais como placebo.

Uma das crianças, Boz Mohammad, de quatro anos, tem a barriga inchada característica da desnutrição, e os seus pés foram congelados pelo frio. Há o perigo de que ocorra uma gangrena. Um homem chamado Nadir mal olha para o garoto, que pega uma cenoura no chão e a mastiga.

"Juro a vocês que faz muito tempo que não como nada", lamenta.

O Programa Mundial de Alimentos instalou centros de distribuição de comida em Alborz para esses indivíduos. Mas eles ainda relutam em retornar, e o prazo para o regresso está se esgotando.

"Estes são os dias durante os quais deveríamos estar semeando", afirma Nadir, olhando para o céu de fim de inverno. "Mas esperaremos o inverno terminar ante de nos mudarmos para qualquer lugar, se é que algum dia vamos nos mudar".



Tradução: Danilo Fonseca

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