Tédio leva jovens sauditas à guerra santa

Charles M. Sennott

Khamis Mushayt, Arábia Saudita -- Nesta cidade indescritível, de shopping centers modernos e projetos residenciais recém construídos, a mesquita Seqeley estava coberta de luz neon verde convidativa, calorosa, enquanto os fiéis reuniam-se para orar.

A mesquita foi doada à cidade pela família Seqeley, um ramo da proeminente e respeitada tribo Alshehri. Proprietários de empreiteiras, os Seqeley trabalharam com o falecido magnata da construção civil, Mohammed Bin Laden, para construir a tortuosa estrada que corta Khamis Mushayt.

Foi nesta mesquita que quatro jovens sauditas --dois irmãos da família Seqeley, Wael e Walid Alshehri, e seus amigos, Ahmed Alnami e Saeed Alghamdi, de Abha -- fizeram o juramento solene de lutar pelo "jihad", segundo vários amigos e um secretário local.

Segundo seus amigos, o grupo reuniu-se na mesquita na primavera de 2000, em uma cerimônia informal, de oração e meditação, na qual juraram lealdade ao jihad e, se necessário, morrer em defesa do Islã. Depois disso, deixaram suas famílias furtivamente.

Eventualmente, foram absorvidos pela rede terrorista Al Qaeda de Osama Bin Laden. Investigadores americanos dizem que eles estavam entre os sauditas que seqüestraram quatro aviões de carreira em 11 de setembro.

Mohammed Seqeley Alshehri, pai de Wael e Walid, é um homem duro e firme, que se recusou a conversar com o repórter do Boston Globe. No entanto, seu filho Abdel Rahman, 40, um dos 17 filhos de Mohammed com quatro diferentes esposas, convidou o repórter à casa da família, na frente da mesquita. Pai e filho voltaram da prece da noite e, enquanto o pai gritava contra a mídia ocidental em um quarto, Abdel Rahman servia chá em um "majlis", ou sala de visitas, na frente da grande casa.

"Você precisa entender que meus irmãos não eram puristas islâmicos", começou Abdel Rahman, que morava com seus irmãos na grande casa da família. "Eram jovens, estavam entediados, e não temos a menor idéia do que aconteceu com eles".

"Para dizer a verdade, nenhum dos dois era muito inteligente, não tinham motivação para nada", disse Abdel Rahman. "Tudo isso é impossível de acreditar". Abdel explicou que seu pai havia construído a mesquita local e era um muçulmano rígido, que privou seus filhos de qualquer ligação com a modernidade. Dentro do puritanismo estrito da escola Wahhabi de islamismo, são estritamente proibidas: televisão via satélite; Internet; música; e mulheres, antes que os jovens tenham idade suficiente para um casamento arranjado.

A família Alshehri é de militares e três irmãos mais velhos são oficiais em base aérea próxima. Seu tio, Major General Faez Alshehri, é diretor de logística das forças armadas do país. A base --da qual os EUA lançaram algumas ofensivas aéreas contra o Iraque na Guerra do Golfo- foi atacada em agosto de 2000 por um atirador solitário, provavelmente seguidor de Bin Laden. O atirador matou um guarda saudita e feriu vários trabalhadores britânicos no local.

Wael e Walid não prestaram serviço militar, mas estavam mergulhados na tradição da família de serviço à Força Aérea Saudita. Wael era professor de educação física na base. Investigadores americanos dizem que Wael pode ter tido experiência em simulador de vôo.

A personalidade dos dois irmãos era um complexo mosaico saudita. Eram religiosos, mas também fumavam Marlboro, visitavam sites da Web em um cybercafé e gostavam de música pop.

A mudança aconteceu no final de 1999, quando Wael, 25, entrou em depressão profunda, disse Abdel Rahman. Segundo seus amigos, não era apenas depressão, mas talvez até uma tendência suicida, e foi forçado a tirar licença do trabalho como professor de educação física. Ele foi ver um curandeiro religioso em Meca, acompanhado de Walid, 21, que estava "perdido na vida", disse o irmão. Foi aí que os dois aparentemente foram influenciados por um clérigo que aconselhou a ambos a lerem o Alcorão, fazerem jejum e adotarem o jihad.

No final da primavera de 2000, eles desapareceram. A família não sabia para onde tinham ido, disse Abdel Rahman. Segundo os amigos, os dois tinham ido ao Paquistão e, depois, para o Afeganistão, onde receberam treinamento em combate corpo a corpo e com armas leves, no campo de treinamento de Al Farouk. Eles voltaram à Arábia Saudita em dezembro de 2000, gabando-se para os amigos de sua experiência.

Por meio da mesquita da família e talvez por círculos militantes, os dois homens fizeram amizade com Ahmed Alnami, da cidade próxima de Abha.

Alnami, 23, era claramente de classe média. Seu falecido pai tinha sido funcionário do Ministério de Assuntos Islâmicos e Doações, e ele era o mais jovem de seis filhos.

Alnami tocava guitarra árabe tradicional e tinha boa voz. Ele se reunia com amigos da escola em torno de fogueiras, no parque do topo do Souda, o ponto mais alto da Arábia Saudita, e os fazia rir imitando a estrela pop saudita Mohammed Abdou. Até mesmo fumava tabaco de maçã em um Narguilé, cachimbo tradicional de água. Tocar, cantar e fumar são atitudes reprovadas pelos homens de sua família como não islâmicas.

Então, no verão e outono de 1999, Alnami começou a mudar rapidamente. Quando voltou para casa, depois de uma colônia de férias religiosa patrocinada pelo governo saudita, tinha se tornado obsessivamente religioso. Segundo um amigo, sua família temia que a mudança radical em seu comportamento fosse causada por "desordem bipolar". Ele deixou crescer a barba, afastou seus antigos amigos e parou de tocar. Sua doce voz passou a ser usada para chamar os fiéis à prece na mesquita de Al Basra em Abha e, ocasionalmente, na mesquita de Khamis Mushayt, onde teria encontrado os irmãos Alshehri.

Quando Alnami reencontrou seus velhos amigos de Abha, ele tentou afastá-los "dessas práticas do mal", como chamava, e trazê-los para "o caminho certo e verdadeiro do islã". Ele entrou para a Escola de Lei Islâmica da Universidade King Khalid, famosa por criar fundamentalistas islâmicos. Seus amigos acreditam que foi ali que mergulhou fundo nos círculos militantes.

Na faculdade, ele fez amizade com outro jovem saudita, chamado Saeed Alghamdi, que também era de Abha.

"Ele simplesmente afastou-se de nós -era como se o tivéssemos perdido", disse um colega de colégio que trabalha em uma gráfica, olhando retratos de Alnami.

Os irmãos Alshehri se reuniram com Alnami e Alghamdi na mesquita de Seqeley, na primavera de 2000. Ali fizeram seu voto de entrar para o jihad, em uma cerimônia informal liderada por Wael Alshehri, que havia adotado como nome de guerra "Abu Moassaeb al-Janubi". Abu Mossaeb é o nome de um amigo do profeta Maomé, que deixou tudo para seguir seus ensinamentos. "Al-Janubi" significa "do sul".

Esse encontro virou tema de conversas entre os grupos de homens, com seus 20 e poucos anos, nas ruas de Khamis Mushayt e Abha, que têm pouco a fazer além de fofocar. Também houve alegações de envolvimento de "filhos de Asir" e referências à cerimônia em uma sala de bate papo do site popular da Internet www. alsaha.com, , de acordo com dois acadêmicos que o monitoram de perto.

Entre os relatos conflitantes e informações vagas sobre os seqüestradores, o que é certo, de acordo com os investigadores americanos, é que os dois irmãos Alshehri estavam a bordo do vôo 11 da American Airlines, quando deixou Boston e chocou-se contra a torre norte do World Trade Center. E seus amigos, Alnami e Alghamdi, estavam a bordo do vôo 93 da United Airlines que partiu de Newark e caiu em Stony Creek Township, Pensilvânia, aparentemente depois de luta dentro do avião.

Tradução: Deborah Weinberg

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