Serviço público e miséria privada convivem lado a lado no Afeganistão

Marcella Bombardieri

Cabul, Afeganistão -- Abdul Zahir, funcionário público no governo interino, trabalha 14 horas por dia.

De manhã, ele é supervisor de serviço público, podendo ser encontrado no seu escritório, interagindo com os cerca de 220 funcionários do setor de irrigação que estão ligados ao seu departamento. Mas não espere ver Zahir na sua mesa de trabalho após as orações do meio-dia.

À tarde, ele se dirige a uma fileira de pequenas lojas próximas ao Departamento de Serviços Públicos -- pequenos e apertados estabelecimentos, entupidos de contêineres de transporte da era soviética, que ainda possuem as suas portas de metal estampadas com a foice e o martelo. Zahir é o proprietário do segundo contêiner à esquerda, onde produtos tais como ovos, laranjas, batatas e cebolas estão arrumados sobre prateleiras de madeira, juntamente com querosene, óleo diesel, cigarros, pilhas elétricas e meias femininas.

Em cada dez lojas do gênero no bairro, três são administradas por burocratas. Mas esses lojistas não estão tentando enganar o governo. O que eles querem é simplesmente sobreviver.

Burocrata de longa data, cujos rendimentos estão beirando o teto salarial do serviço público, Zahir, de 42 anos, ganha cerca de US$ 38 por mês, isso quando recebe de fato o salário. Ainda que recebesse os seis meses de salários atrasados, ele não seria capaz de sustentar a mulher, o filho e as cinco filhas. Por isso, Zahir vem fazendo o bico como lojista há sete anos. Em um dia favorável, ele e o seu filho conseguem ganhar entre US$ 1,35 e US$ 2.

"Sou um dos mais ricos aqui, graças a Deus, já que conto com os rendimentos da loja", afirma Zahir, comparando a sua situação com a dos outros funcionários públicos. "Nós sofremos muito".

Muito se tem dito sobre o fato de a ONU ter começado a pagar os dois primeiros meses de salários que o governo deve há muito tempo aos trabalhadores no Afeganistão. Ainda que esses salários sejam pagos, um outro problema persiste: funcionários do setor público não ganham o suficiente para viver, e o governo arrasado pela pobreza não tem como dar aumento aos servidores.

Alguns estão passando tanta necessidade que o Programa Mundial das Nações Unidas para Alimentos começou a distribuir duas mil toneladas de comida para os funcionários públicos de Cabul.

Essa situação gera muitas repercussões. Uma delas é a moral baixa e, portanto, a lealdade questionável. Uma outra é a distração e a fadiga, já que a maioria dos funcionários públicos do governo afegão tem mais de um emprego.

E uma outra é simplesmente o limite estabelecido pelo relógio: a jornada de trabalho dos funcionários públicos é de 8h às 13h, seis dias por semana. Essa jornada não pode ser aumentada até que o governo consiga melhorar as condições de vida no país. Um porta-voz da administração interina, Omar Samad, diz que a maior esperança para que se melhore a situação dos servidores públicos reside na perspectiva de os países doadores fornecerem rapidamente os US$ 4,5 bilhões prometidos ao Afeganistão em janeiro, durante a Conferência de Tóquio.

Quanto mais cedo esse dinheiro chegar, maior será a possibilidade de que o governo consiga reativar a economia e alimentar os trabalhadores.

"É realmente necessário que se dê crédito aos funcionários públicos. Eles vêm passando há muito tempo por períodos difíceis. No entanto, conseguiram sobreviver, e ainda têm disposição para servir ao seu país", afirma Samad. "A comunidade internacional precisa nos ajudar porque a população está perdendo a fé e a esperança. Este governo quer que todos tenham mais fé e mais esperança, assim como mais pão e manteiga na mesa".

Alguns dos companheiros de trabalho de Zahir estão em situação bem pior do que ele. Jan Pil, 58, faz faxina, serve chá e é estafeta na repartição de Zahir, ganhando aproximadamente US$ 33 por mês. Ele não possui uma loja que o ajude a sustentar as duas esposas e dez filhos. Durante cinco anos ele tem enviado vários dos seus filhos mais novos para as ruas, a fim de que peçam esmolas em um bairro distante de sua casa.

Dizendo aos outros que são órfãos, as crianças conseguem trazer pouco menos de um dólar diariamente para casa. Na maior parte dos dias, a família de Pil sobrevive à base de pão com chá. Algumas vezes eles conseguem comprar batatas, mas quase nunca comem carne.

"É vergonhoso", diz Pil, referindo-se ao fato de enviar as suas crianças para esmolar nas ruas. "Mas o que posso fazer?".

Segundo Zahir, outros funcionários põe as mulheres para pedir esmolas. Elas evitam ser reconhecidas usando as burcas. Ou então eles simplesmente batem o ponto no escritório e saem para trabalhar em outros locais, como cambistas ou lojistas.

Segundo Samad, a confusão se instalou porque o Taleban não pagava um salário que garantisse a sobrevivência dos funcionários, nem tampouco lhes fornecia refeições. O governo era tão ineficiente que não havia muito o que fazer, diz ele. O governo gostaria de aumentar os salários dos trabalhadores entre 20% a 50%, afirma Samad, mas isso tão cedo não vai ocorrer.

Portanto, Zahir continua fazendo o que sempre tem feito durante anos. Ele acorda às cinco horas, reza, e toma um café da manhã frugal. A seguir abre a loja, ficando nela até às oito horas, quando o seu filho de 26 anos, Mohammad Shakoor, o substitui enquanto Zahir vai para o escritório. Shakoor passou no exame de admissão para a faculdade de engenharia três anos atrás, mas a família não tinha o dinheiro para matricula-lo. Agora, o diploma universitário parece ser um sonho impossível para o jovem. A situação econômica da família caiu drasticamente. Eles abriram a loja após os seus bens terem sido saqueados em 1993 e 1994, durante a guerra civil.

Zahir, contador profissional, demonstra um certo embaraço ao falar sobre o seu outro emprego, especialmente naqueles dias que tem que ir ao escritório com a roupa suja de combustível, algo que ocorre freqüentemente quando trabalha na loja.

"Trata-se de algo bem distante da dignidade que temos no escritório", diz ele.

Zahir não gosta de reclamar sobre como é penoso trabalhar em dois empregos. Pelo contrário, ele repete sempre o quanto tem sorte por poder alimentar a família.

"Os afegãos possuem um hábito", explica. "Se eles contam com um emprego que lhes proporcione um rendimento capaz de garantir a sobrevivência da família, eles nunca se cansam do trabalho".

Mesmo que a situação do novo Afeganistão melhore um pouco, isso não acontecerá tão cedo.

"Há sete anos temos feito o mesmo", queixa-se. "Antigamente eu era forte e tinha energia para trabalhar. Agora estou realmente cansado".

Tradução: Danilo Fonseca

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