Jornalistas ocidentais são alvos em uma guerra sem fronteiras

John Donnelly

Carachi, Paquistão -- Daniel Pearl passou seus últimos minutos de liberdade caminhando ao longo da movimentada rua Abdullah Haroon. Ele começou a caminhada em frente a uma delegacia de polícia e continuou, passando pela Miami Travels, Cosmos Tours, várias lojas de câmbio, uma empresa de telefonia celular, e finalmente por um comerciante de rua que vendia buquês de rosa. Do outro lado da rua, um homem o esperava para seqüestrá-lo.

O bairro é uma das áreas de maior segurança de Carachi, um detalhe que não foi mencionado em muitas reportagens. O consulado norte-americano fica a 200 metros do local do seqüestro, e logo ao lado há um hotel e um parque bem cuidado, onde as crianças empinam pipas.

O seqüestro e assassinato de Pearl, um repórter do The Wall Street Journal, se constitui em um apanhado de lições para jornalistas ocidentais, mas a mais importante delas é que o perigo se estende para bem além da frente de batalha. Atualmente, o risco para os jornalistas é tido como maior no Paquistão, país que Pearl acreditou ser mais seguro do que o Afeganistão, e em qualquer outro local onde existem militantes islâmicos.

"O risco nunca foi desprezível, mas a escala do atual fenômeno é diferente", afirma Ann Cooper, diretora executiva do Comitê de Proteção aos Jornalistas. "Com certeza a situação é outra. Há mais países e mais jornalistas envolvidos, o que leva a situações mais incertas".

O atual problema com que se defrontam os jornalistas é como encontrar um ponto de equilíbrio. De um lado está a avaliação dos riscos. Do outro está o cumprimento de uma missão para com a sociedade, buscando notícias que informem melhor o público. Tomar a decisão correta é algo como nadar submerso em um lago de Vermont: não dá para ver quase nada à frente após cada braçada.

A última jornada de Pearl é esclarecedora. Assim como também é aquela de Peter Baker, correspondente internacional do The Washington Post, e vários outros repórteres que estão trabalhando nas proximidades de Gardez, no Afeganistão. Quando avaliadas em conjunto, ambas revelam um pouco do processo de raciocínio dos jornalistas, e até que ponto os repórteres trabalhando em campo dependem de sua esperteza e da solidariedade profissional -- além de torcerem para que os deuses estejam de seu lado.

Pearl, que era correspondente do seu jornal em Bombaim, partiu para o Paquistão com a mulher, Mariane, logo após os ataques de 11 de setembro. Em determinado momento ele decidiu que ficaria em solo paquistanês, e não se juntaria aos seus colegas que cruzavam a fronteira rumo ao Afeganistão.

"Não creio que seja seguro", ele me disse em uma manhã no final de novembro, quando tomávamos café no Continental Hotel, em Peshawar, onde estava hospedado. "Não quero me arriscar tanto".

E foi isso que ele fez. Pearl fez várias matérias no Paquistão. No dia seis de janeiro, após ler um artigo no The Boston Globe sobre possíveis conexões entre o homem do sapato-bomba, Robert Reid, e o militante islâmico radical, xeique Mubarik Ali Gilani, Pearl pediu ao seu tradutor que o ajudasse a encontrar Gilani.

O tradutor, Asif Farooqi, que trabalhava para Pearl havia três meses, disse em uma entrevista que, no dia 9 de janeiro descobriu uma fonte conhecida apenas como Aref. Aref lhe disse que Gilani morava em Rawalpindi, a cerca de meia-hora de carro de Islamabad. O homem, porém, advertiu: "Se houver algum estrangeiro envolvido, eu não vou te acompanhar".

Aref e Farooqi não encontraram ninguém na suposta casa de Gilani. No dia seguinte, Pearl e Farooqi voltaram lá por conta própria. Um vizinho lhes disse que ninguém morava na residência havia três meses.

A busca de Pearl prosseguiu. No dia 11 de janeiro, o tradutor falou novamente com Aref, buscando outros contatos com Gilani. Naquela noite, Aref acertou um encontro para às 21h com um homem chamado Bashir, no Hotel Akbar, em Rawalpindi. Segundo a polícia paquistanesa, Bashir era na verdade Ahmed Omar Saeed Sheikh, o principal suspeito de ter seqüestrado Pearl. A polícia concluiu que Saeed não possuía nenhuma relação com Gilani.

Durante três horas, Pearl e Bashir conversaram em inglês. Ao final do encontro, segundo Farooqi, Pearl pediu a Bashir que lhe ajudasse a entrar em contato com Gilani. Segundo Farooqi, Bashir não fez nenhuma promesa.

No decorrer dos 12 dias seguintes, Farooqi afirma que não ouviu mais nenhum comentário de Pearl sobre a história. Ele assumiu que tinha sido descartado da operação por determinação de Bashir. Nesse período, Pearl e Bashir trocaram vários e-mails. Pearl enviou matérias que tinha escrito, segundo a polícia, e Bashir finalmente concordou em marcar um encontro com Gilani.

Em 23 de janeiro, o dia do seqüestro, Pearl visitou um funcionário do consulado dos Estados Unidos e perguntou se seria seguro ir sozinho com um guia para se encontrar com Gilani. O funcionário desaconselhou tal aventura, segundo Farooqi e Jameel Yusuf, que é encarregado dos casos de seqüestro da polícia de Carachi.

Pearl chamou Farooqi e, pela primeira vez, lhe falou sobre o plano. "Ele me perguntou se seria perigoso me encontrar com Gilani, e eu respondi que não, já que Gilani é uma figura pública".

Às 17h30, Pearl entrevistou Yusuf no seu escritório, próximo à delegacia de polícia. Durante a entrevista -- Pearl não fez menção ao encontro marcado -- o repórter recebeu duas ligações telefônicas do seu contato. No último telefonema, Pearl disse: "Estarei aí dentro de dois ou três minutos". A seguir, ele partiu.

Os motivos dos seqüestradores ainda são obscuros. O que se sabe, a partir dos relatos feitos por Farooqi, Yusuf e outros é que a história não consistiu simplesmente em fazer com que Pearl caminhasse rumo a uma armadilha. A relação entre Pearl e aqueles que viriam a ser seus seqüestradores foi se desenvolvendo progressivamente, baseada parcialmente na confiança depositada por Pearl em um estranho. No entanto, essa confiança era apenas parcial, conforme se deduz do fato de o repórter ter pedido conselhos ao funcionário do consulado e a Farooqi.

Boaz Ganor, diretor do Intituto de Política Internacional de Contra-Terrorismo, com sede em Israel, diz que os repórteres devem desconfiar de pessoas que prometem reportagens exclusivas com militantes islâmicos. "Os elementos que planejam tais seqüestros sabem exatamente o que dizer para atrair os jornalistas", alerta Ganor.

No Afeganistão, os perigos incluem seqüestros, roubos e tiros. A maioria dos jornalistas viaja em grupos. Eles andam freqüentemente acompanhados por guarda-costas quando se aventuram na periferia das cidades.

Na segunda-feira passada, um grupo de jornalistas do The Washington Post, Newsweek, France-Presse e The Toronto Star viajou até a aldeia de Zormat, próxima a região de Shah-e-Kot, onde atualmente se travam batalhas. Durante uma entrevista, um dos tradutores ouviu um morador dizer que tropas americanas haviam aprisionado o seu patrão. "Por que não deveríamos seqüestrar esses jornalistas?", disse o homem.

Ao entenderem o perigo que corriam, os repórteres se apressaram em partir. Mas, quando saíam de Zormat, Baker, repórter do The Washington Post, percebeu que os veículos da France Presse e do The Toronto Star haviam sumido. Arriscando a própria vida, Baker mandou o motorista dar meia volta para encontrar os colegas.

Ele os localizou e pediu que deixassem o local urgentemente. "No entanto, eles preferiram ficar. Eles estavam olhando os bombardeios, achando que estavam seguros, sem se preocupar muito. Foi quando Kathleen foi atingida", disse Baker, falando do seu telefone por satélite.

Alguém aparentemente arremessou uma granada contra o carro que levava Kathleen Kenna, a repórter do Star. Ela ficou gravemente ferida, e terminou sendo levada para uma base de forças especiais dos Estados Unidos próxima a Gardez.

Lá, os soldados norte-americanos concordaram em transferi-la de helicóptero para as imediações de Cabul. Esse foi o mesmo dia em que dois helicópteros norte-americanos foram atingidos por fogo do Taleban ou da Al Qaeda, o que causou a morte de sete soldados.

Às 22h30, quando o comboio de jornalistas retornava a Gardez, a menos de três quilômetros de distância, peças de morteiro começaram a explodir próximas aos veículos. Aparentemente, os faróis dos carros fizeram com que eles se tornassem alvos para o fogo inimigo. Eles se dividiram, os motoristas fizeram o possível para desligar os faróis, e durante vários minutos dirigiram na escuridão até a base das forças especiais norte-americanas. Os jornalistas suplicaram para entrar.

"Eles não dos deixaram entrar", disse Baker. "Os soldados nos disseram que havia afegãos demais conosco. Havia muito poucos soldados das forças especiais na base naquela noite, algo que não sabíamos no momento, e eles estavam se sentindo vulneráveis. Acredito que os seus superiores não nos dariam permissão para entrar".

O grupo decidiu passar a noite no veículo, em vez de se arriscar dirigindo à noite até Gardez. Os afegãos que faziam a guarda da base norte-americana avisaram que atirariam contra eles, caso saíssem dos veículos.

Em ambas as situações, envolvendo Pearl e Baker, os repórteres foram guiados por uma poderosa lógica interna que lhes dizia que a reportagem compensava o perigo. Para Pearl, tratava-se da chance de falar com um xeique suspeito de ter planejado um ataque terrorista. Para Baker, era um artigo sobre a maior batalha da guerra.

Mas nenhum deles poderia adivinhar o que havia pela frente. Pearl pagou com a vida. Baker continua vivo. "A morte de Pearl vai deixar todo mundo mais cuidadoso, e pode fazer com que algumas empresas de notícia mudem as suas políticas", diz Cooper, do Comitê de Proteção aos Jornalistas. "Mas o que está acontecendo é uma grande mina de matérias, e não há como fugir disso".

Em outras palavras, a criatividade de um jornalista para cobrir a guerra contra o terrorismo precisa agora se ampliar, para que ele pense criativamente em como se manter vivo.

Na noite de segunda-feira alguém ligou um gerador elétrico em frente à base das forças especiais dos Estados Unidos, próxima a Gardez. Os jornalistas esticaram os fios dos seus computadores, passando-os pelas janelas dos carros, e os ligaram ao gerador.

Depois, cobriram as janelas com xales. Enquanto escreviam, eles pensavam em mais um perigo. A luz mortiça das telas dos computadores poderia atrair mais tiros de morteiro.

Tradução: Danilo Fonseca

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