Caos econômico e tensão social não comprometem turismo em Buenos Aires

Francie Latour

Buenos Aires, Argentina -- Podíamos ver as barricadas, as barras de ferro contrapostas às palmeiras da Plaza de Mayo. Podíamos ver a polícia protegida por escudos, coletes à prova de bela nos arcos da Casa Rosada. Podíamos até mesmo fazer grafites nas paredes. Mas faltava algo ainda, e após 48 horas em uma capital que lançava sobre nós o seu feitiço perguntei-me em voz alta se eu e meu noivo não teríamos embarcado no avião errado.

Onde estavam as sublevadas e iludidas massas de Buenos Aires?

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Taxistas protestam em frente à Praça de Maio, em Buenos Aires
Dias antes de nossa saída, por poucos não reprogramamos nosso trajeto para evitar a Argentina. Na verdade, eu por pouco não reprogramei nosso vôo; Brian, meu noivo em busca de aventuras, sonhava com a emoção e a adrenalina de mergulhar em uma revolta de rua. A passagem do ano havia ocorrido dias antes, e meu vôo para um refúgio na América do Sul começava a parecer uma missão internacional de risco.

No segundo semestre do ano passado, nós decidimos nossa primeira viagem conjunta ao exterior enquanto folheávamos um Atlas. Naquela época a Argentina parecia ser um oásis tropical imune ao terror. Mais ao norte, no México, falava-se que nossos vizinhos não haviam prestado um minuto de silêncio sequer após 11 de setembro.

Em termos globais, as distâncias que nos separavam dos centros do conflito mundial pareciam ter evaporado, uma vez que as linhas aéreas ligavam Manhattan a Hamburgo e depois Riad, Bagdá e Cabul. De alguma forma, o continente sul-americano parecia abençoadamente irrelevante perante todo o conflito. As chances de algum conflito na Argentina não eram apenas reduzidas. Eram inexistentes.

Tudo isso ocorreu em outubro. Na época do Natal, 12 dias antes de nossa viagem, vimos o noticiários. Após décadas de ausência quase total no cenário mundial, a Argentina mergulhara no caos: um colapso histórico da economia, três presidentes em dez dias e as primeiras vítimas fatais de conflitos com a polícia.

Um telefonema de minha mãe no dia seguinte não me serviu muito para acalmar os nervos. "Você não vai mais, não é?", ela disse, mais fazendo uma exigência do que uma pergunta. Colegas mais nervosos me sugeriram uma visita ao web site do Departamento de Estado. Na festa do meu futuro cunhado, conversava-se a respeito de roubos em beiras de estrada e tráfico de drogas. Não recordo todos os detalhes, mas em uma das histórias havia uma emboscada, um túnel e uma batida de carro que deixou um homem paraplégico.

Eram estes os pensamentos que me consumiam enquanto sobrevoamos os pampas esverdeados que cercam a capital argentina. Agora, parados no meio da mais famosa praça desta cidade, a poucos metros dos portões prateados de um de seus maiores bancos, estávamos confusos. Os policiais e as barricadas estavam de prontidão, mas faltavam os manifestantes e as bandeiras e mastros. Víamos somente os pombos, vendedores ambulantes e uma Buenos Aires viva, porém segura. Enquanto circulávamos pela cidade, o mal-estar decantado pelas manchetes nos parecia enganoso, a começar por nosso hotel em San Telmo, um quarteirão de boêmios.

O hotel não possuía placa: apenas um portão de aço e uma entrada coberta que nos conduzia à escada de mármore. Debaixo da chuva fina, o motorista do táxi parou para examinar seu mapa. Este lugar é uma residência, ele disse, e não um hotel. Em parte ele estava certo, como viríamos a saber mais tarde; um quarto em El Sol de San Telmo é aquilo que você encontraria de mais próximo a uma visita ao seu tio distante e sua discreta porém bem reformada mansão fin de siécle. Nossos anfitriões foram tão atenciosos quanto o motorista de taxi, e notaram prontamente que necessitávamos de descanso. Mais tarde, nos indicaram com um mapa o restaurante mais próximo, que ficava a três quarteirões de distância.

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Metalúrgicos protestam contra a crise econômica e o desemprego
Na rua, os bairros de Buenos Aires revelaram ser os sonhos que eu substituíra por pesadelos de saques e bonecos de presidentes americanos sendo queimados. Para além dos jardins coberto e dos antiquários de San Telmo havia uma cidade feita para se andar a pé. Em Buenos Aires, a qualquer hora de qualquer dia, encontrar alguém dançando tango em alguma praça é tão provável quanto encontrar uma igreja lotada de devotos.

Ao norte de San Telmo, em um outro paraíso para quem gosta de caminhadas, fizemos a peregrinação até o Cemitério Recoleta. Evita Perón está enterrada lá, em um mausoléu de granito escuro coberto por flores. Porém, após nos perdermos por alguns minutos na tentativa de encontrá-lo -- não havia placas -- notamos que perder-se talvez fosse a melhor solução entre os jardins e os suntuosos mausoléus daquele local. Se não fosse pelos gatos brancos que circulavam pelo chão, poderíamos esquecer que estávamos em um cemitério.

As fileiras que separam os túmulos da realeza argentina e os revolucionários eram como ruas de cidade que se sobrepunham, exibindo gárgulas de pedra em um canto e janelas de vidro opaco logo a seguir, em um labirinto da história vertido em estilos arquitetônicos que cobrem dois séculos. Dizem que esta cidade é a Paris da América do Sul, e aqui há um tanto de verdade: os bulevares com suas séries de postes iluminados e monumentos, os cafés, as butiques ecléticas e uma energia que circula 24 horas por dia. No coração do distrito financeiro da cidade, escondida detrás de uma porta que dá acesso a uma catedral secular, estudantes e comerciantes se alimentavam em um convento transformado em café. Na porta seguinte, uma pequena galeria exibia a arte moderna argentina. Naquele momento, Buenos Aires se parecia com Londres, Paris ou alguma outra cidade moderna. Era apenas mais barata e ensolarada, em um dia de calor ameno em janeiro.

Mas em sua essência Buenos Aires não é uma cidade européia, e nem mesmo uma cidade americana -- como passaram a ser algumas cidades européias. Ela é algo diverso: uma cidade elétrica porém tranqüila, jovem porém antiga. Tem o sangue quente, mas falta-lhe a paixão volátil de algumas culturas latinas. Seu povo saiu às ruas, mas para tanto foi necessário um colapso total da economia.

No último dia, eu já havia desistido de esperar pelo pior. Brian, sedento por aventura, parecia inteiramente decepcionado. Havia protestos em províncias vizinhas, e na capital começavam a formar-se filas eternas ao redor dos bancos. Mas o tumulto, ou qualquer sinal seu, de alguma forma passara muito longe de nós.

Por mais estranho que tudo isso nos parecesse, ainda tivemos outras surpresas em Buenos Aires. Sentados em um táxi no último dia de nossa viagem, lembrei-me de um de nossos primeiros dias na cidade. Cansados e famintos, pedimos a um taxista que nos levasse até o restaurante mais próximo, a poucas quadras de onde estávamos. Desorientado, o motorista pôs a cabeça para fora do táxi e apontou para a rua. "São apenas sete quadras. Vocês podem ir a pé". Posto diante de dois turistas preguiçosos e de uma luta incessante por dólares americanos, este motorista preferiu ficar sem o nosso dinheiro.

Nós havíamos escapado do tumulto, mas havia ainda algo mais: a quase todo momento, encontramos o seu oposto. No dia seguinte, no táxi que nos levava de volta para o hotel, eu notei que o carro havia parado. Durante praticamente toda a nossa estada em Buenos Aires não enfrentamos praticamente nenhum congestionamento -- mais uma anomalia metropolitana para a qual não tínhamos explicação -- e então resolvi observar a rua para ver o que acontecia. Anoitecia; a previsão do tempo nos dizia que na manhã seguinte -- dia do nosso vôo -- haveria sol e céu claro. Na rua, eu via manifestantes que empunhavam bandeiras e no entanto respeitavam os sinais de trânsito. Uma passeata, pensei, e logo peguei minha câmera. Brian não iria acreditar naquilo.

O motorista, intrigado pelo meu interesse, ajeitou seu espelho retrovisor. Como não falo espanhol, eu não teria como me explicar. A Argentina, moço, mergulhou no caos neste mês, e minha única prova será essa mísera fotografia.

Tradução: André Medina Carone

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