Paquistão se prepara para expulsar estudantes estrangeiros

Colin Nickerson

Rawalpindi, Paquistão -- O governo do presidente Pervez Musharraf, em uma notável mudança de rumo, procura agora expulsar milhares de árabes, afegãos, norte-africanos e outros estrangeiros que são alunos das escolas religiosas do país, as madrassas, que se transformaram em notórios centros de recrutamento de terroristas.

Essa é apenas uma parte de uma série de dramáticas mudanças de política estratégica realizadas pelo Paquistão, que vão desde a reestruturação do seu poderoso serviço de Inteligência até a repressão ao aumento da violência religiosa.

Apesar da repressão contra os grupos radicais islâmicos, imposta por Musharraf, um surto de violência política pegou o país despreparado. A ameaça representada pelos militantes muçulmanos é agora vista como um perigo tão grande para a estabilidade que as políticas nacionais estão sendo reestruturadas para travar uma guerra interna.

Em uma medida que chamou pouca atenção, o Paquistão está reforçando a sua agência doméstica de Inteligência -- que se trata essencialmente de uma agência de polícia civil vinculada ao Ministério do Interior -- enquanto reduz o tamanho do seu serviço de espionagem militar. A agência de espionagem, que por muito tempo foi o braço secreto do governo, estava preocupada com a ameaça de perigos externos, especialmente no Afeganistão e na Índia. Atualmente, essas ameaças externas são consideradas bem menos críticas do que a presença de radicais islâmicos no país.

"Há uma mudança fundamental de pensamento, uma percepção de que o Paquistão precisa colocar a própria casa em ordem na luta contra o terrorismo", afirma o brigadeiro Javed Iqbal Cheema, diretor-geral da unidade de gerenciamento de crises do Ministério do Interior. "Os extremistas religiosos estão devorando os órgãos vitais da nação". Os extremistas defendem uma vasta gama de causas, que vão da liberação da parte da Caxemira ocupada pela Índia, à instalação no Paquistão de uma ditadura islâmica nos moldes do Taleban. E embora eles compartilhem o ódio aos Estados Unidos, esses grupos desprezam uns aos outros tanto quanto ao país que eles chamam de "O Grande Satã".

Na sexta-feira, o governo colocou milhares de soldados do exército e unidades policiais paramilitares em estado de alerta especial, com a aproximação do mês sagrado de Muharram, que começou no último sábado. Trata-se de um período sagrado para um país de muçulmanos xiitas, mas é também uma época em que radicais muçulmanos sunitas atacam as mesquitas e os templos da seita minoritária.

Tanto centros urbanos quanto vilas remotas foram vítimas nos últimos dias de assassinatos sectários entre facções fundamentalistas xiitas e sunitas. Os sunitas são a maioria na sociedade paquistanesa. Os xiitas perfazem cerca de 15% da população deste país de 147 milhões de habitantes. Na semana passada, um grupo de militantes tribais destruiu uma vila rival, na província de Balochistan, usando foguetes, granadas e rifles automáticos. Mas eles permitiram que uma multidão de mulheres escapasse, quando elas fugiram da carnificina segurando sobre as cabeças exemplares do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Já que ninguém assumiu a responsabilidade pelo ataque realizado no domingo contra uma igreja protestante em Islamabad, não se sabe ao certo se o atentado está relacionado ao mês de Muharram, a outros ataques contra cristãos ou a alguma outra campanha terrorista.

Para lidar com a última emergência de sectarismo, mas principalmente como parte de uma estratégia de longo prazo de supressão do radicalismo religioso, o governo está reestruturando o seu sistema de inteligência.

"Esta é uma mudança profunda para o Paquistão", afirmou o secretário do Interior, Taneem Noorani. "Nosso tempo e recursos serão concentrados sobre os extremistas sectários domésticos. A guerra no Afeganistão pode estar diminuindo de intensidade, mas creio que o Paquistão, a partir de agora, enfrentará os anos mais perigosos".

Pelo menos desde o final dos anos 70, o Paquistão tem encorajado mais ou menos a militância muçulmana doméstica, utilizando grupos fanáticos do país para apoiar o Taleban, no Afeganistão, e insurgentes muçulmanos que lutam contra tropas indianas na Caxemira.

A crescente batalha doméstica não diz respeito apenas a armas e a batidas policiais, embora Musharraf já tenha prendido cerca de 2.000 militantes e os tiroteios com combatentes radicais sejam agora acontecimentos diários.

De forma mais discreta, o Paquistão também tem procurado diminuir a influência das madrassas, as milhares de escolas religiosas que oferecem aos pobres do Paquistão a única esperança de contar com uma educação.

Um primeiro passo é aquilo que Musharraf chama de "uma grande jihad" para conquistar os corações e mentes de moderados paquistaneses em uma mobilização concentrada para expulsar os árabes, afegãos, malaios, indonésios, tchetchenos e outros muçulmanos estrangeiros que utilizam as escolas para encobrir o estímulo ao ativismo religioso radical.

"O Paquistão tem sido um 'Estado brando' para esses estrangeiros, deixando que eles entrem e fiquem no país muito facilmente", diz Cheema. "Não estamos tentando desencorajar a educação, mas queremos que nossas escolas ensinem ciência, matemática ou inglês, e não que dêem cursos de graduação em jihad".

"Jihad" é o termo muçulmano para "guerra santa", e o regime deposto do Taleban e a organização Al Qaeda, de Osama Bin Laden, contavam com as madrassas do Paquistão para obter guerreiros voluntários e outros tipos de apoio.

Vários estudantes estrangeiros também usaram as madrassas como cobertura para se alistarem em uma sangrenta guerra de terror contra a ocupação indiana da Caxemira, contando com o encorajamento tácito de governos paquistaneses anteriores. Os líderes de escolas religiosas ainda concedem licenças aos voluntários para que combatam em conflitos que são tidos como batalhas santas muçulmanas.

"A jihad é compulsória para os muçulmanos", afirma Mufti Nizamuddin Shamzai, reitor do Instituto de Estudos Islâmicos de Karachi, uma madrassa importante. "Os Estados Unidos estão atacando o islamismo, e os muçulmanos têm a obrigação de defender a sua religião".

No Paquistão, defender o Islã significa muitas vezes matar outros muçulmanos devido a diferenças quanto às convicções religiosas. Durante as últimas semanas houve um aumento dramático da violência sectária entre radicais sunitas e xiitas, o que causou incontáveis mortes em ataques contra mesquitas, casas e vilas inteiras. No pior desses ataques, 11 devotos xiitas que estavam na mesquita Sha-i-Najaf, em Rawalpindi, foram abatidos a tiros, no dia 26 de fevereiro, por atiradores sunitas que invadiram o local do culto com armas automáticas. Após a carnificina, eles fugiram em motocicletas.

Desde então, ataques semelhantes têm ocorrido quase que diariamente, onde as vítimas podem ser tanto médicos famosos quanto camponeses paupérrimos. Os mortos raramente são ativistas de qualquer facção. Eles são apenas seguidores da seita errada, que estavam no lugar errado, no momento errado.

Entre eles estava o médico Anwarul Islam, um muçulmano sunita de 41 anos de idade, morto a tiros na última terça-feira em Karachi por dois homens em motocicletas. Os assassinos provavelmente eram xiitas se vingando de ataques anteriores contra as suas mesquitas, segundo a polícia.

O massacre fez com que os médicos desta cidade portuária do sul do país fizessem greve por um dia, na quarta-feira, como maneira de demonstrar o seu repúdio à violência.

Em janeiro, Musharraf proibiu as atividades de dois grupos sectários de linha dura e desencadeou uma ofensiva contra a militância islâmica em geral. Mas, após um breve período de calma, os ataques sectários voltaram a se tornar rotineiros.

Um relatório divulgado na semana passada pelo International Crisis Group, uma instituição belga especializada em estudos de conflitos, sugere que o governo paquistanês deveria controlar o terrorismo doméstico. Caso contrário, teria que se defrontar com o caos que gera efeito multiplicador através do sul e do centro da Ásia.

"Em última instância, a instabilidade no Paquistão só vai contribuir para uma intensificada instabilidade regional e criar um ambiente onde o terrorismo seja capaz de prosperar", adverte Samina Ahmed, diretor do grupo no Paquistão.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos