Como os seres humanos podem colonizar o espaço

Elen Barry

Quando os primeiros humanos partirem para colonizar o espaço, não haverá nenhum porto os aguardando, nenhum guia nativo para dar-lhes as boas vindas e nenhum paliativo contra o desespero.

Utilizando a tecnologia atual, uma viagem até o sistema estelar mais próximo, Alfa Centauri, levaria 70 mil anos, mas os engenheiros da Nasa estão fazendo trabalhos teóricos acerca de novas tecnologias de foguetes que encurtariam essa viagem em vários séculos. Os passageiros partiriam sabendo que eles, e pelo menos várias gerações dos seus descendentes, só conheceriam a vida confinada no interior de uma nave espacial. Segundo os cientistas sociais, para que tal projeto tivesse sucesso, a Nasa teria que se voltar para o trabalho dos antropólogos.

Os exploradores espaciais poderiam partir como o fizeram os saqueadores vikings, navegando para o leste até regiões tão distantes como o Mar Cáspio, em navios dotados de carrancas amedrontadoras na proa. Ou poderiam partir como Moisés, em um agrupamento de famílias ligadas pela fé e pela disposição de arriscar suas vidas.

Eles poderiam partir em grupos de mulheres, como as legendárias tribos das Amazonas -- já que as mulheres são mais leves e têm um senso cooperativo maior do que os homens -- esperando pelo momento exato para se auto-fecundarem utilizando um banco de esperma levado a bordo. Ou então poderiam se inspirar na história dos polinésios da Idade da Pedra, que, segundo alguns arqueólogos, lançaram flotilhas de jovens casais rumo às fronteiras do mundo conhecido, em um oceano que, para eles, era tão misterioso quanto o espaço o é para nós.

A lição será clara, afirma John H. Moore, professor de antropologia da Universidade da Flórida: os grupos pequenos que florescerem no espaço serão similares àqueles grupos, também pequenos, que tiveram sucesso na colonização da Terra.

"Se alguém deseja conquistar o mundo, é preciso que tenha uma organização como a de uma legião romana. Para fabricar linho, é necessária a organização semelhante a de um convento", diz ele. "Mas para se colonizar o espaço sideral, são necessárias famílias".

O programa espacial norte-americano, baseado em equipes de pilotos militares de testes, não é conhecido por ser adepto das ciências sociais. Mas, no decorrer dos últimos 20 anos, uma lista crescente de fracassos espaciais forçou a Nasa a voltar a sua atenção para os pontos de estresse do ser humano -- e para o confinamento claustrofóbico que pode fazer com que os indivíduos se voltem uns contra os outros.

Após quatro meses a bordo da estação espacial Mir, em 1997, o capitão Vladimir Tsibliyev estava tão desgastado pelo estresse e pela frustração que quase fez com que a estação colidisse com uma nave de suprimentos. Embora os astronautas norte-americanos raras vezes tenham passado mais de duas semanas confinados no espaço, eles descreveram episódios notáveis de fricção social após terem retornado da Mir. O cosmonauta russo Valery Ryumin, que participou de quatro missões espaciais, afirmou que uma jornada de dois meses com duas pessoas em uma estação espacial "reúne todos as condições necessárias para a ocorrência de um assassinato".

Por isso, psicólogos e psiquiatras da Nasa, trabalhando em estações de pesquisa na Antártica e em câmeras de isolamento, estão investigando fenômenos como o "olho-parado", um olhar vago que os indivíduos adotam após passarem meses isolados do mundo. Eles estudam de que forma o isolamento pode "exponenciar eventos aparentemente insignificantes", de forma que até amigos do peito se afastem uns dos outros.

À medida em que aumenta a duração das missões espaciais, tal pressão psicológica poderia colocar em perigo as vidas dos tripulantes e bilhões de dólares investidos nos programas.

"Nas primeiras duas semanas, ninguém repara em como as pessoas mastigam a comida, mas, após oito meses de inverno no Pólo Sul, um fato como esse começa a afetar os nervos dos membros de uma estação polar", diz Lawrence Palinkas, antropólogo médico da Universidade da Califórnia que estudou "ambientes extremos e isolados" para a Nasa. "O indivíduo começa a se isolar, e instruções importantes podem ser ignoradas. O fato de algumas pessoas decidirem não tomar banho por seis meses pode se tornar um motivo de desavença".

No mês passado, durante o simpósio anual da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência, em Boston, foram os antropólogos culturais, e não os psicólogos, que ofereceram os seus serviços.

Moore, que passou anos tentando reconstituir a história dos pequenos grupos que colonizaram a América do Sul, estava no seminário sobre colonização espacial. Ele ficou chocado com o ar de ficção científica que tomou conta das discussões sobre as viagens interestelares. Moore percebeu que poderia sugerir um plano melhor.

"Eles estavam falando ingenuidades sobre dinâmica de grupos pequenos, sugerindo coisas como ciborgues e robôs, bem como o congelamento e o despertar dos tripulantes", conta Moore. "Tudo isso era exatamente o oposto do que estamos fazendo no campo da antropologia. Os seres humanos são incapazes de viver da forma descrita em tais trabalhos teóricos".

É claro que os seres humanos não têm um histórico relativo a deixar a Terra por longos períodos. Pesquisadores espaciais, tais como Geoffrey Landis, da Nasa, que também é escritor de ficção científica, sempre se inclinaram para visões futuristas da sociedade, lidando com conceitos como o da poligamia e da criação comunitária das crianças. Landis defende que as missões espaciais de longa distância sejam tripuladas exclusivamente por mulheres, citando estatísticas que demonstram que as mulheres quase nunca matam umas as outras. "Mais cooperativas e menos inclinadas a estruturas sociais hierárquicas, as mulheres também respiram menos e comem menos do que os homens", escreveu o pesquisador.

No entanto, os antropólogos dizem que seria um erro se afastar de arranjos sociais testados pelo tempo.

O paralelo mais próximo às viagens espaciais -- na verdade, o único paralelo -- são as viagens marítimas, sendo que os vikings fornecem o modelo mais óbvio e espetacular. A pressão populacional havia aumentado nas vilas escandinavas, onde os chefes vikings chegavam a possuir até 10 mulheres e concubinas.

Além disso, os filhos que nasciam após o primogênito eram cortados da linha de herança, e, por volta de 800 D.C., teve início a conquista sistemática e predatória de comunidades que iam da América do Norte até a Ásia Central, segundo escreve o antropólogo canadense Richard B. Lee, no livro "Interstellar Migration and the Human Experience" (Migração Interestelar e a Experiência Humana).

Assim como a maioria dos exploradores norte-americanos, os vikings procuravam expandir as suas rotas comerciais. Mas, apesar do sucesso das explorações do passado, que se baseavam na perspectiva de lucros, tal analogia parece não funcionar em se tratando de viagens espaciais.

"O comércio tem sido um fator eficiente, mas, no caso das distâncias interestelares, é difícil acreditar que tal abordagem seria lucrativa", afirma Landis.

Cerca de 20 anos atrás, os antropólogos passaram a sugerir que uma analogia mais apropriada poderia estar em um passado bem mais distante. Ben Finney, antropólogo da Universidade do Havaí, passou anos argumentando que os polinésios da Idade da Pedra colonizaram sistematicamente os arquipélagos de Tonga, Fiji e Samoa, enviando flotilhas de casais sem filhos em canoas de madeira de casco duplo. A maior parte dos antropólogos não acreditava que tal empreendimento fosse possível. Ao invés disso, eles teorizaram que as canoas teriam sido acidentalmente desviadas do seu rumo, sendo espalhadas por centenas de milhas de mar aberto.

Mas Finney argumenta que eles foram motivados pelos mesmos desejos dos atuais exploradores espaciais, chegando a criar o termo "espaço oceano" para descrever aquilo que estava a sua frente. Embora entre 10 a 25% dos colonizadores provavelmente tenham se perdido no mar, eles cresceram se referindo a tal morte como "o doce funeral".

"Os ancestrais dos polinésios descobriram que o mundo era um oceano onde pedaços de terra emergiam aqui e ali", diz Finney, que trabalhou durante 15 meses como pesquisador da Nasa no projeto de Busca por Inteligência Extraterrestre (SETI). "Eles viam o oceano como um meio sobre o qual viajar a fim de descobrir mais terra".

Moore, um especialista em modelos de populações colonizadoras, fez um ensaio do trabalho de Finney, ao teorizar sobre uma colônia que poderia se reproduzir com segurança durante 200 anos no espaço. Ele recomenda que jovens casais sem filhos, assim como aqueles que teriam feito a colonização polinésia, sejam utilizados em um número suficiente para que cada criança nascida a bordo da espaçonave possa escolher um entre 10 possíveis companheiros conjugais de idade aproximada. A fim de minimizar o risco de consaguinidade, as mulheres deveriam ter um pequeno número de filhos e diminuir o número de gerações, dando à luz com a idade mais avançada possível. Com base nessas regras, a população mínima para um tal projeto seria de cerca de 150 indivíduos, diz ele. E os antropólogos, com a sua compreensão das estruturas de parentesco, podem ajudar a garantir aos planejadores de tais expedições que esses arranjos sociais funcionaram a contento em outras culturas.

"Os psiquiatras e psicólogos vêem tais assuntos em termos de desvios", diz ele. "Mas nós o abordamos sob o ponto de vista da normalidade. Podemos estabelecer um diálogo. Até o momento eles têm pensado sobre qual seria o problema com essas sociedades, que deixam as pessoas loucas".

Quando a espaçonave retornasse da sua viagem hipotética, 200 anos após a sua partida, os indivíduos que desembarcassem seriam descendentes de quarta geração dos astronautas originais. Segundo Sally Thomason, antropóloga especializada em lingüística da Universidade de Michigan, eles provavelmente teriam sotaques peculiares. O que é menos claro, segundo Moore, são os arranjos conjugais que poderiam ser desenvolvidos -- por exemplo, se os colonizadores espaciais formariam uma sociedade poligâmica.

Colonizadores muitas vezes fazem arranjos familiares diferentes quando a pressão para procriar é grande, como ocorreu na Ilha Pitcairn, onde, no final do século dezoito, seis amotinados ingleses e nove mulheres polinésias realizaram uma colonização tão bem sucedida que, em 1850 a ilha estava com excesso populacional. No seu livro Interstellar Migration and the Human Experience, o antropólogo J.B. Birdsell fala sobre aborígenes australianos que fugiram para regiões desabitadas de florestas com mulheres e estabeleceram famílias repletas de ligações consagüíneas -- em certos casos com o acasalamento de homens com as próprias filhas e netas.

Ao elaborar o seu modelo, Moore examinou a história, buscando evidência de uma característica humana específica: pessoas que se dispõe a enfrentar perigos mortais devido ao desejo de realizar explorações. Uma ou duas vezes em cada milênio, aparecem pessoas que, pressionadas pela opressão religiosa, pela pobreza ou simplesmente guiadas pela ambição, se dispõe a mergulhar nesse tipo de aventura.

"Pensei nas migrações através de desertos, quando os nômades procuravam novas pastagens, já que às vezes havia períodos prolongados de secas. Eles precisavam juntar os seus rebanhos, e saíam na esperança de encontrar algum lugar onde houvesse capim", afirma. "É exatamente desse tipo de atitude que os viajantes espaciais precisarão".

Tradução: Danilo Fonseca

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