Universo ganha um tom salmão em sua aparência

Cindy Rodríguez

É uma descoberta científica que não vai mudar o Universo, talvez apenas o modo como sonhamos com ele. Astrônomos, cientistas da cor e físicos vêm discutindo nos últimos dois meses qual seria a cor do Cosmo. A história começou com turquesa, passou pelo bege e terminou em salmão, até agora.

Embora todos concordem que a verdadeira cor se aproxima do branco, os cientistas estavam curiosos sobre como ela seria vista à luz do dia na Terra. Não é uma questão que tenha grande valor científico, mas envolve a imaginação de muitos.

Ivan Baldry, astrônomo da Universidade Johns Hopkins que apresentou a descoberta inicial de que as galáxias eram turquesa, mas depois teve de admitir que ele e um colega haviam se enganado, diz que havia muito interesse sobre o assunto. "É o tipo de coisa que as pessoas gostam de falar em festas", diz.

Tudo começou no início de janeiro, quando Baldry e Karl Glazebrook, ambos astrônomos na Universidade Johns Hopkins, apresentaram um trabalho sobre a evolução do Cosmo em uma reunião da Sociedade Astronômica Americana, em Washington. Eles queriam terminar sua apresentação com um "estouro", por isso disseram à platéia que tinham calculado qual seria a cor "média" de 400 galáxias vistas à luz do dia.

Essa cor, turquesa, agitou os cientistas, que se perguntavam como era possível. Enquanto isso, a notícia foi publicada na mídia e recebida pelo público em geral com alegria. As pessoas adoraram a idéia. Turquesa é tranqüilo, quente -uma cor que [a decoradora] Martha Stewart aprovaria.

Mas os cientistas da cor -pessoas que estudam as complexidades da luz, como o reflexo e as tonalidades próximas afetam as cores que o olho humano enxerga- sabiam desde o início que os astrônomos estavam enganados. Eles perguntaram como a cor média poderia ser azul-esverdeado se as estrelas não irradiam verde? As estrelas jovens e quentes irradiam azul. As mais antigas emitem um tom avermelhado. Mas no espaço profundo muitas estrelas costumam parecer cinza-esbranquiçadas.

Choveram e-mails do mundo todo para Baldry e Glazebrook, a dupla da Johns Hopkins, dizendo que eles deviam estar enganados. Em poucos dias, depois de consultar cientistas da cor, eles perceberam que tinham calculado errado. Viram que o programa gratuito de computador que usaram para fazer o cálculo os havia levado erradamente para o turquesa, e que pularam uma etapa dos cálculos, o que fez a cor parecer ainda mais verde. Eles recalcularam e, envergonhados, anunciaram outra cor -o bege. A notícia foi recebida com um muxoxo. Afinal, bege é sem graça.

Mas acontece que bege também está errado. Os astrônomos -que não são versados nas minúcias da ciência da cor- erraram ao calcular as cores na tela do computador: deixaram de fatorar a quantidade certa de luz do dia branca.

Então Michael Brill, cientista da cor que trabalha para a McClendon Automation Inc. e que desenvolve sistemas de software principalmente para o governo federal, pediu a um amigo, Ed Kelley, físico do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, para realizar um teste usando um espectro-radiômetro, um equipamento que mede o espectro visível.

O dispositivo, maior que uma câmera de vídeo, calculou as coordenadas de cor e descobriu que a nova cor não é bege. Na verdade, a cor média de 400 galáxias que fossem vistas pelo homem na Terra é realmente salmão, tecnicamente conhecida como gama luz-do-dia 65.

"Finalmente encerramos o debate. É salmão, o que faz sentido", diz Brill. Mas isso não é porque existem mais estrelas vermelhas que azuis no Universo. Salmão é o modo como o olho humano interpreta a cor do Universo, que na verdade tem tons verdes visto à luz do dia.

Baldry, astrônomo que quer deixar a questão de lado para prosseguir no trabalho mais importante de compreender a evolução do Cosmo, diz que a transfere para Brill e Mark Fairchild, cientista da cor do Laboratório Munsell de Ciência da Cor no Instituto de Tecnologia Rochester.

Enquanto isso, a notícia de que a galáxia é bege circulou. Baldry e Glazebrook até lançaram um concurso em seu site na web, pedindo que as pessoas batizassem a cor. Receberam mais de 200 sugestões, incluindo "bege big-bang", "cáqui galáctico", "amêndoa astronômica" e o favorito de Baldry, "leite cósmico".

"Ainda vai haver pessoas dizendo que é bege porque estão comprometidas com essa cor", diz Brill. Ele elogiou Baldry e Glazebrook por admitirem o erro, coisa que os cientistas às vezes relutam em fazer.

Fairchild, cientista da cor que originalmente acreditava que bege era a cor certa, diz que agora concorda com Brill. Mas outros acham que todo o conceito é ridículo. Ken Brecher, astrofísico da Universidade de Boston, disse que é irrelevante como a galáxia seria vista na Terra durante o dia. O importante é como a cor aparece na galáxia. Seria muito próximo de branco, ou um branco-acinzentado, segundo ele. A maioria dos cientistas concorda. Mas isso não é novidade.

Depois de 11 de setembro, descobrir como a cor média do Cosmo seria vista pelas pessoas na Terra durante o dia é uma "bela idéia, que promete paz e harmonia", diz Brill. "Nós precisamos muito de um bálsamo como a cor do Universo, seja ela um verde tranqüilo ou mesmo um bege descomprometido". Ou, como tudo indica agora, a simples e doce cor do salmão.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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