População dos EUA pode ser vacinada contra varíola

Raja Mishra

Autoridades federais norte-americanas estão pedindo aos cidadãos que considerem a possibilidade de que haja um programa voluntário de vacinação em massa contra a varíola, pela primeira vez em décadas. O governo cita evidências que demonstram que os estoques federais logo serão adequados para imunizar toda a nação contra o vírus, extremamente infeccioso.

O secretário norte-americano de Saúde e Serviços Humanos, Tommy Thompson, disse na última quinta-feira que uma população vacinada serviria como "fator desencorajador para aqueles indivíduos que pensam em usar a varíola como uma arma". No entanto, as autoridades federais advertiram para o fato de que os efeitos colaterais da vacina matam um ou dois indivíduos dentre cada milhão de imunizações, significando que centenas de pessoas poderiam morrer no curso de uma campanha nacional de imunização contra a varíola.

A varíola foi erradicada no mundo há duas décadas. Porém, recentemente, a doença emergiu como uma das mais temidas ameaças de bioterrorismo global. Os oficiais de inteligência norte-americanos se preocupam com a possibilidade de que terroristas ou regimes autoritários - talvez a Coréia do Norte, o Iraque ou o Irã - possam possuir estoques do vírus em uma forma que possa ser usada como armamento.

Atualmente, os estoques do governo contém 15,5 milhões de doses de vacinas contra a varíola, mas as autoridades divulgaram na última quinta-feira um estudo indicando que o estoque poderia ser ampliado, por meio de artifícios químicos, de forma a possibilitar a vacinação de 77 milhões de pessoas. Além disso, uma empresa privada com sede em Cambridge, Massachusetts, está se preparando para colocar 54 milhões de doses no mercado neste verão, que seriam convertidas em 270 milhões de doses. Tal número cobriria a população estadunidense. Outras 154 milhões de doses devem ser entregues no final deste ano.

As autoridades federais também confirmaram relatórios descrevendo a recente descoberta de 70 a 90 milhões de doses de vacinas contra a varíola em refrigeradores de uma fábrica de produtos farmacêuticos em Swiftwater, Pensilvânia. Thomson afirmou que tem conhecimento deste estoque "há algum tempo", e que estão sendo realizados testes para determinar se a vacina continua sendo eficiente.

O atual plano de resposta do governo federal à ameaça de varíola consiste de uma "estratégia de anel": a população em volta de uma área atingida por uma epidemia receberia uma vacinação emergencial rápida. O governo Bush continua a apoiar tal estratégia até o momento, segundo autoridades federais. Mas o governo também acredita que, tendo em vista a súbita abundância de vacinas, o debate público sobre a vacinação preventiva deveria ser iniciado.

As autoridades federais de saúde coordenaram o seu anúncio sobre as reservas de vacinas com a divulgação, pelo New England Journal of Medicine, de uma série de estudos sobre a varíola, assim como de um artigo escrito por um ex-comissário de saúde do Estado de Massachusetts, que solicita uma vacinação urgente e maciça.

O governo federal é o proprietário de todas as doses de vacina contra varíola existentes no país. Não existem estoques particulares. Para se vacinar, os indivíduos necessitam de autorização governamental. Mas as autoridades federais disseram que estão abertas à possibilidade de distribuir doses gratuitas a pedido e aguardar um consenso público antes de decidir ir em frente. Bush, Thompson e Tom Ridge, diretor da Agência de Segurança da Nação, teriam de autorizar qualquer alteração nas regras atuais.

O problema apresenta questões complexas de ordem ética. A vacinação provavelmente resultaria em várias centenas de mortes devido aos efeitos colaterais da vacina, além da ocorrência da doença, de forma mais branda, em milhares de indivíduos. Tão logo os casos de varíola começaram a diminuir vertiginosamente três décadas atrás, após uma campanha mundial de vacinação, as autoridades norte-americanas decidiram interromper as campanhas de imunização em 1971, a fim de evitar tais efeitos colaterais.

Mas um ataque bem sucedido com o vírus da varíola poderia produzir um verdadeiro "holocausto viral". Uma recente simulação realizada pela Universidade Johns Hopkins determinou que mesmo um ataque grosseiro com a varíola infectaria até 15 mil pessoas com a doença, que mata cerca de 30% das suas vítimas. No entanto, o risco de um ataque permanece baixo. Thompson disse que nenhum dos grupos terroristas que vêm sendo observados pelos agentes de inteligência dos Estados Unidos possui o vírus da varíola, e não há evidências de estoques na Coréia do Norte, no Irã ou no Iraque.

Pairando sobre esses cálculos tenebrosos de risco e benefício estão as memórias horríveis das epidemias de varíola do passado, responsáveis por dezenas de milhões de mortes. O vírus se espalha rapidamente de pessoa a pessoa, por meio de gotículas inaladas, incluindo aquelas geradas por espirros. Duas semanas após a infecção, a vítima é tomada por dores agudas. Dias depois, feridas purulentas começam a se formar na face, se espalhando para as extremidades do corpo, aumentando de tamanho, rompendo-se e formando crostas. Não existe cura para a doença.

Oito artigos diferentes publicados no New England Journal assinalaram quais são os riscos e benefícios da vacinação, com base em testes clínicos. A edição traz um guia para que os médicos reconheçam os sintomas da varíola.

As autoridades federais afirmam que alguns segmentos da sociedade poderiam se beneficiar mais das vacinações.

"Talvez se possa priorizar a vacinação daqueles profissionais que correm mais risco", disse o médico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, referindo-se aos bombeiros, policiais e médicos, que seriam os primeiros a responder a um ataque biológico.

Mas um dos artigos, escrito por um ex-comissário estadual de saúde, Bill Bicknell, diz que o governo deveria tornar a vacina disponível imediatamente para quem quer que se interessasse em ser imunizado.

"Os cidadãos devem dizer: queremos que isso seja uma decisão nossa, assim como a maior parte das nossas outras decisões relativas à saúde são tomadas por nós mesmos", afirma Bicknell, que atualmente é professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston.

Tradução: Danilo Fonseca Guerra viral

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