Repórter e correspondente do "The Boston Globe" são evacuados de Ramallah

Charles A. Radin



Jerusalém - Após uma exaustiva evacuação, o repórter do "The Boston Globe" Anthony Shadid e o correspondente Said Ghazali chegaram com segurança a Jerusalém nesta segunda-feira vindos de Ramallah, aonde Shadid fora ferido no dia anterior enquanto fazia a cobertura do cerco israelense.

Ghazali, um palestino que reside em Israel, teve negado, por repetidas vezes, seu reingresso no território israelense durante a evacuação, mas ao final obteve permissão para retornar à Israel no período da tarde. Shadid encontrava-se em boas condições na noite de segunda-feira, no Hospital Hadassah Ein Kerem, e Ghazali juntou-se novamente à sua família em Jerusalém do Leste.

Shadid disse acreditar que o tiro, que atingiu suas costas, tenha sido disparado por um soldado israelense, uma vez que a área em que ocorreu o incidente - nas imediações do quartel-general de Iasser Arafat em Ramallah - era "inteiramente controlada por militares israelenses, o que já vinha acontecendo há vários dias. É difícil imaginar que um atirador palestino pudesse ter permanecido naquela área por tanto tempo".

O capitão Jacob Dellal, um porta-voz das Forças de Defesa Israelenses, afirmou: "Não temos como determinar de que maneira ele foi ferido. Não cremos que ele tenha sido atingido por nossos soldados", pois embora "esta seja uma área muito perigosa, conduzimos uma investigação" junto aos comandantes de campo "tão logo fomos informados sobre o incidente, e não ocorreram tiroteios naquele momento".

Ele afirmou que quando os soldados israelenses avistaram Shadid, o repórter já estava ferido, e que eles lhe prestaram os primeiros socorros. Caso Shadid "creia ter sido atingido por fogo israelense", afirmou Dellal, "ele deve considerar-se livre para registrar uma queixa, e nós com toda certeza a investigaremos".

Shadid declarou que ele e Ghazali andavam pela rua após terem realizado entrevistas quando se depararam com um tanque israelense que virou sua torre de tiro na direção de ambos. A dupla em seguida se virou e continuou andando, mas por outra rua. O tiro solitário que atingiu Shadid foi disparado cerca de 20 minutos depois, durante um período de relativa tranqüilidade na região, acrescentou Shadid.

Vieram a seguir uma noite e um dia caótico no Arab Care Hospital e nas ruas de Ramallah.

Cerca de uma hora após Shadid ter sido levado em uma maca até o hospital, o prédio foi invadido por soldados israelenses que exigiram que médicos, enfermeiras e funcionários permanecessem no saguão enquanto fosse realizada uma busca sala por sala, na tentativa de localizar palestinos que não fossem nem pacientes e nem trabalhadores do hospital, e que pudessem ser militantes.

Shadid ficou sem assistência por aproximadamente uma hora, quando foi permitido o retorno ao trabalho das enfermeiras. Cerca de trinta ou sessenta minutos depois, a volta ao trabalho dos médicos foi autorizada.

Ghazali afirmou que os soldados pediram aos funcionários que lhes dessem chaves de salas que estavam trancadas para que o prédio não fosse danificado. Cerca de 30 pessoas foram detidas, interrogadas e depois liberadas. Houve um pequeno dano aos batentes de portas do primeiro piso do hospital, disse Ghazali.

Um integrante do Serviço Palestino de Segurança Nacional disse a Ghazali que viera ao hospital porque havia se separado de sua unidade de 700 homens. "Eu não sei o que aconteceu com eles", disse o homem. "Não quero morrer, e por isso eu larguei meu Kalashnikov, vim ao hospital e disse que poderia ajudar com a limpeza em troca de comida e abrigo".

Na segunda-feira, uma ambulância da Red Crescent Society (organização muçulmana equivalente à Cruz Vermelha), chegou pela manhã para conduzir Shadid e Ghazali até Jerusalém. Entretanto, soldados israelenses se recusaram a oferecer a escolta militar que seus superiores haviam prometido caso Shadid não deixasse Ghazali para trás.

A ambulância então saiu da cidade sem escolta, mas foi parada por soldados israelenses que lançaram tiros de advertência em sua direção nas imediações do campo de refugiados de Qalandia, cujos integrantes têm apedrejado tanques israelenses.

Após sucessivas consultas entre militares, a Red Crescent Society, a embaixada americana em Tel Aviv e o consulado de Jerusalém e o ministério israelense do exterior, foi permitido que a ambulância cruzasse o posto de checagem, mas Ghazali não poderia estar acompanhado de Shadid. Após novas negociações, ele obteve permissão para passar e voltar à sua casa cerca de 90 minutos depois.

Shadid disse na noite de segunda-feira que espera regressar aos Estados Unidos antes do final da semana.




Tradução: André Medina Carone

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