Governo afegão admite ter errado ao prender suspeitos de planejar golpe

INDIRA A. R. LAKSHMANAN



THE BOSTON GLOBE


CABUL, Afeganistão - O governo afegão libertou na quinta-feira (04) 140 homens detidos esta semana devido à suspeita de que tramavam um golpe contra o governo. Mas as autoridades ainda estão interrogando 160 outros suspeitos de terem planejado "terrorismo, seqüestro e sabotagens".

O ministro do interior, Yunus Qanooni, reconhece que as autoridades erraram ao prender vários suspeitos em uma blitz para a detenção de elementos acusados de ser partidários do ex-primeiro-ministro mujahedin, Gulbuddin Hekmatyar.

Mas Qanooni disse que o governo frustrou tentativas de atentados contra a vida de Hamid Karzai, o primeiro-ministro interino afegão, do ex-rei, Mohammed Zahir Shah, e de membros das forças internacionais de paz. Ele afirmou que autoridades de segurança encontraram explosivos e dispositivos de controle-remoto, e sugeriram que conspiradores originários de países vizinhos também poderiam estar envolvidos. O golpe incluiria tentativas de inviabilizar a loya jirga, a grande assembléia, que escolherá o próximo governo nos próximos dois meses.

No entanto, vários daqueles indivíduos que ficaram presos durante dias disseram acreditar que as autoridades estão tentando se livrar dos opositores políticos, utilizando a alegação do golpe como um pretexto. Os indivíduos presos foram acusados de pertencer ao partido Hezb-i-Islami, de Hekmatyar, que já foi muito poderoso. A maioria deles são de etnia pahstun, o maior grupo étnico do Afeganistão.

O regime derrotado do Taleban também era composto em grande parte por pashtuns, enquanto que os líderes da Aliança do Norte, incluindo Qaooni, que tiraram o Taleban do poder e passaram a dominar o atual governo, são em sua maioria tajiques.

Vários partidários de Karzai, que é pashtun, foram detidos nas blitzes desta semana. Entre os presos estava o vice-ministro da Agricultura e o governador da província de Paktia, que é juiz e assessor especial de Karzai. Segundo um dos partidários detidos de Karzai, o primeiro-ministro interino ou não sabia sobre as prisões ou as apoiou secretamente.

Um pashtun de 50 anos de idade que foi comandante nas forças de Hekmatyar durante a guerra contra os soviéticos, e que agora trabalha para um grupo de ajuda humanitária financiado pela ONU, disse que ficou detido por dois dias, até que Karzai enviasse um representante para ordenar a sua liberação. Ele acusou "o triângulo" de líderes tajiques - Qanooni, o ministro da Defesa Mohammad Fahim, e o ministro do Exterior, Abdullah Abdullah - de terem forjado a conspiração golpista devido a interesses políticos.

"Por trás dessas prisões, eles estavam tentando interromper o processo de paz e a loya jirga e permanecer no poder", disse o homem, que falou sob condição de anonimidade, com medo de retornar à prisão. "Se a Força Internacional de Assistência à Segurança não estivesse por aqui", disse ele, referindo-se às forças de paz lideradas pelos britânicos em Cabul, "Karzai não seria capaz de governar o país por um dia sequer".

Em entrevistas nas últimas duas semanas, vários oficiais afegãos de inteligência e de segurança afirmaram repetidamente - sem, porém, fornecer evidências - que Hekmatyar juntou forças com os rebeldes talebans e com os seus financiadores, no Paquistão, a fim de derrubar a administração interina, que tem o apoio dos Estados Unidos.

Hekmatyar já foi o maior beneficiário de ajuda da CIA durante a guerra contra os soviéticos, tendo sido o comandante mujahedim favorito do Paquistão. Posteriormente, Washington e Islamabad se afastaram de Hekmatyar, por considera-lo muito brutal e dotado de um apetite excessivo pelo poder.

Um porta-voz da Força Internacional de Assistência à Segurança disse que, entre os indivíduos presos nesta semana, sob acusação de conspiração e tentativa de golpe, estavam paquistaneses membros do Jamaat-e-islami, um partido fundamentalista que possui ligações com Hekmatyar. O mesmo grupo está implicado na apreensão, no início desta semana, em Cabul, de 32 fuzis de assalto AK-47 em um automóvel paquistanês. Nesta quinta-feira, em frente ao complexo onde os acusados estão detidos, vários homens idosos e enfermos, além de adolescentes, puderam ser vistos no momento em que eram libertados. Agentes de inteligência tentavam impedir a realização de entrevistas e ameaçaram espancar um fotógrafo, mas, mesmo assim, os homens conseguiram contar histórias de prisões irregulares e da detenção a que foram submetidos em condições sub-humanas.

Os homens estimam que cerca de 800 indivíduos foram detidos, e não 300, conforme a versão do governo. Eles contam que os pashtuns e outros homens de turbantes foram visados. Haji Gula Mir Shah, de 56 anos, conta que veio da província de Logar até Cabul para fazer uma consulta médica e estava em frente ao Ministério de Saúde Pública quando foi algemado por agentes de inteligência. Os homens disseram que, no decorrer do interrogatório a que foram submetidos, os agentes lhes perguntavam se eram membros de partidos políticos e o que faziam durante o regime Taleban.

Karzai estava na Turquia na quinta-feira, e nem ele nem os seus porta-vozes puderam ser encontrados para tecer comentários. Qanooni negou as insinuações de que a operação tivesse sido voltada contra os pashtuns, afirmando que o ato "não teve nada a ver com etnia". Ele também negou que a mega-blitz fosse dirigida contra opositores em potencial ao atual governo, afirmando que as autoridades "não prenderam ninguém com base em posições políticas".

Ainda assim, as alegações de um movimento repressivo etnicamente motivado sublinhou a dificuldade de resguardar um governo estável em um país marcado por divisões étnicas e por lutas pelo poder.

A idéia de que as prisões foram dirigidas contra os pashtuns em uma tentativa de evitar que eles obtivessem mais poder na futura loya jirga poderia alimentar ainda mais as tensões.

As autoridades dizem que o cabeça do alegado golpe seria Hekmayar, um comandante mujahedin pashtun que foi primeiro-ministro durante o fragmentado governo de coalizão que esteve no poder de 1992 a 1996.

Lutas violentas entre as forças de Hekmatyar e as dos líderes mujahedins taquiques resultaram na morte de 50 mil indivíduos, segundo estimativas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Hekmatyar, que era um fundamentalista islâmico bem antes da criação do Taleban, fugiu para o Irã em 1996, quando o Taleban capturou Cabul. Ele se tornou um defensor do regime Taleban quando os Estados Unidos lançaram ataques aéreos contra o país em outubro, oferecendo tropas e armamentos ao regime fundamentalista. Hekmatyar foi expulso de Teerã há um mês, quando as autoridades iranianas fecharam o seu escritório devido à pressão dos Estados Unidos, segundo uma fonte ocidental de inteligência.

Três oficiais de inteligência afegãos dizem acreditar que o comandante fugitivo estaria na fronteira leste, entre o Afeganistão e o Paquistão, possivelmente na província de Konar. Qanooni disse na quinta-feira que acredita que Hekmatyar estaria na província de Herat, na fronteira com o Irã.



Tradução: Danilo Fonseca

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