Estados Unidos concedem tempo a Sharon para uma retirada gradual

John Donnelly e Charles A. Randin



WASHINGTON - Embora esteja solicitando publicamente a Israel que coloque um fim a sua ofensiva contra os palestinos na Cisjordânia "sem demora", a administração Bush indicou reservadamente ao primeiro-ministro Ariel Sharon que ele pode desmontar a operação de forma gradual, disseram na segunda-feira duas autoridades norte-americanas.

O acordo, segundo as autoridades, falando com a condição de que seus nomes fossem mantidos em anonimato, seria de que Sharon começaria a promover retiradas substanciais quando o secretário de Estado, Colin L. Powell, chegasse a Jerusalém, na sexta-feira. Os oficiais dizem que o governo dos Estados Unidos não vêem as operações militares ininterruptas de Ariel Sharon como um desafio ao presidente norte-americano.

"Sharon sabe exatamente qual é o seu limite nesse processo", disse um funcionário do Departamento de Defesa. "Pode haver alguma pressão extra exercida publicamente sobre ele, caso não tome uma atitude séria até sexta-feira, mas, no momento, ele tem carta branca para agir".

Ele disse que o governo espera gestos concretos de Israel antes da sexta-feira - como a retirada das cidades de Tulkarem e Qalqilya, no território ocupado da Cisjordânia, anunciada na noite de segunda-feira - não esperando, entretanto, movimentos significantes do governo judeu até às vésperas da chegada de Powell.

As autoridades disseram que não sabem se o governo dos Estados Unidos disse explicitamente a Sharon que a sexta-feira seria o prazo para a retirada, ou se apenas sugeriu que o prazo para que tal retirada seja iniciada, e o tempo que vai levar, poderia ser mais flexível.

Na segunda-feira Bush reiterou o seu pedido para uma retirada imediata. "Eu realmente falei sério com o primeiro-ministro de Israel. Espero que haja uma retirada sem demoras", disse o presidente, antes de um discurso no Tennessee. "Eu também falei sério quando disse ao mundo árabe para condenar energicamente as atividades terroristas e agir contra elas".

Mas as autoridades norte-americanas e um grupo de analistas do Oriente Médio disseram que a retórica pública de Bush se destinava primariamente ao mundo árabe, a fim de demonstrar que os Estados Unidos se oporiam às incursões militares israelenses nas cidades e vilas palestinas. No Oriente Médio, vários líderes não estão acreditando no presidente.

Tal fato se tornou subitamente claro na segunda-feira, no Marrocos, a primeira das três escalas de Powell antes da sua chegada a Jerusalém. O rei Mohammed, que faz parte da nova geração de líderes árabes, saudou Powell durante uma sessão de fotografias à qual compareceram vários jornalistas norte-americanos, e declarou o que pensa sobre os acontecimentos no Oriente Médio.

"Não teria sido mais importante ter ido primeiro a Jerusalém?", perguntou o rei. Pego de surpresa, Powell respondeu que havia "considerado todas as opções" e que queria uma chance para consultar os colegas árabes e europeus antes de coordenar a sua missão.

O funcionário do Departamento de Defesa em Washington foi mais explícito. O itinerário de Powell, segundo ele, foi elaborado "para dar mais tempo para que Sharon aja".

Um funcionário do Departamento de Estado concorda. "Os israelenses não estão ouvindo muito o que falamos, mas estão prestando atenção no que fazemos", disse o funcionário. "E o que estamos fazendo está lhes dando mais tempo para se retirar".

Em Israel, há pouca percepção de que exista uma pressão dos Estados Unidos no sentido que as tropas israelenses se retirem rapidamente.

"A indicação que o governo israelense recebeu dos Estados Unidos foi de que Israel tem até sexta-feira para terminar as suas operações", disse Gerald Steinberg, diretor do programa de gerenciamento de conflitos da Universidade Bar Ilan, de Telaviv.

Steinberg disse que discussões intensivas estão ocorrendo entre norte-americanos e israelenses, no sentido de se determinar como se lidar com futuros atos de terrorismo.

"Até o momento, não houve nenhuma indicação clara dos norte-americanos sobre como se lidaria com novos atos terroristas caso Israel aceitasse o "pedido" norte-americano para colocar um fim às operações e, a seguir recomeçassem, os atentados suicidas a bomba e outros ataques terroristas - que praticamente cessaram desde o início da operação israelense - disse Steinberg.

Enquanto isso, entre os palestinos e os seus aliados árabes, há uma grande frustração quanto ao que eles entendem ser uma aliança enigmática entre os Estados Unidos e Israel.

Azmi Bishara, um membro árabe do parlamento israelense, disse que "eles estão jogando uma partida. Os norte-americanos não estão realmente pressionando os israelenses. O que eles estão fazendo é dizer coisas à mídia, a fim de diminuir a raiva e a frustração dos árabes".

"Se os líderes norte-americanos tivessem dito aos líderes israelenses que parassem a operação imediatamente, os israelenses teriam parado. O que os Estados Unidos estão fazendo é algo de extremamente ambíguo", critica Bishara. "Por que Colin Powell está cinco dias atrasado? Há algo tão urgente no Marrocos que faça com que o secretário pare primeiro naquele país? Creio que se trata de uma mensagem para Israel, indicando que pode continuar com a operação militar contra os palestinos".

A viagem de Powell - que segundo o analista Geoffrey Aronson, de Washington, seria um "passeio turístico cênico" - também foi planejada com o fim de angariar apoio dos árabes para pressionar o líder palestino, Iasser Arafat, para que faça tudo o que estiver a seu alcance para implementar um cessar-fogo e colocar um fim à série devastadora de ataques suicidas a bomba dentro de Israel, disseram autoridades e analistas dos Estados Unidos. Antes de chegar a Jerusalém, Powell planeja se reunir com o príncipe saudita Abdullah e com o presidente egípcio Hosni Mubarak.

"Se houvesse uma intenção realmente séria dos norte-americanos em impor a sua visão sobre o que está ocorrendo hoje, a essa altura Powell já teria chegado à região", diz Aronson, diretor da Fundação para a Paz no Oriente Médio, com sede em Washington. "Tem gente sugerindo que o próprio fato de ele estar se deslocando significa algo. Mas, para mim, não há evidências de que os norte-americanos possuem uma idéia clara do que fazer quanto àquilo que pensavam uma semana atrás, ou duas semanas atrás, ou seis meses atrás. Powell não passa de um Zinni com mais insígnias".

O enviado dos Estados Unidos, Anthony Zinni, um general da reserva, tentou sem sucesso conseguir um cessar-fogo em duas viagens. Ele se reuniu novamente com Sharon na segunda-feira.

A missão principal do secretário de Estado é negociar o fim da violência. O funcionário do Departamento de Estado disse que Powell leva uma mensagem para Arafat: "O nome do jogo é colocar um fim à violência, e até que você o faça, temos pouco a conversar".

Embora Powell possa levantar a possibilidade de retomar as conversações sobre um acordo de paz, a sua ênfase será em que Arafat repudie os ataques suicidas e outros atos de violência contra Israel, disse o funcionário.

Edward S. Walker, ex-secretário de Estado para Assuntos do Oriente Próximo, durante a administração Clinton, disse que o governo deveria exercer mais pressão sobre Arafat, mas falou que o líder palestino pode não ser capaz de implementar um cessar-fogo no momento. Tropas israelenses cercaram Arafat em Ramallah, cortando todos os meios de comunicação do líder palestinos com os seus assessores.

"O que está realmente em jogo é uma declaração pública de Arafat, dizendo, 'Basta. O terrorismo não nos leva a lugar algum. Vamos colocar o nosso destino e o nosso futuro nas mãos dos Estados Unidos", afirma Walker.

Ele acrescentou que este talvez seja o momento para mandar um recado a Arafat dizendo que esta é a sua última chance. "Em algum momento, temos que simplesmente fazer uma advertência a esse homem", diz Walker, que participou de várias negociações com Arafat. "Quantas chances se dá a alguém? Até o momento, os Estados Unidos diziam, 'Não toquem em um fio de cabelo dele'. Se os Estados Unidos estão dizendo que é o momento de se procurar por um outro representante palestino, então Arafat deveria levar isso em consideração".



Tradução: Danilo Fonseca

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