Exército israelense atira contra jornalistas que cobrem conflito na Cisjordânia

Mark Jurkowitz


Dado o número crescente de jornalistas na Cisjordânia que nos últimos dias tem sido alvo de tiros das tropas de ocupação israelenses, aumentam as preocupações quanto às medidas tomadas para evitar que os repórteres cubram a batalha.

O grupo Repórteres Sem Fronteira, com sede em Paris, afirma que cerca de 20 jornalistas foram vítimas de tiros, e pelo menos seis ficaram feridos desde que Israel invadiu a Cisjordânia, em 29 de março. Entre os feridos estão um repórter do Boston Globe, dois jornalistas da televisão francesa, um jornalista egípcio e um palestino, além de um funcionário da rede de televisão árabe Al Jazira. Em um caso notável, soldados israelenses utilizaram gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral e balas de borracha contra um grupo de jornalistas que tentava chegar ao edifício onde está confinado o líder palestino Iasser Arafat, em Ramallah, na semana passada.

Nos últimos dias, várias organizações protestaram contra as ações das forças armadas israelenses, que são apontadas como as maiores culpadas pela situação. "A intimidação e a violência contra a mídia deve parar", afirmou Ann Cooper, diretora-executiva do Comitê de Proteção aos Jornalistas, em uma declaração feita na terça-feira. A organização Repórteres Sem Fronteira afirma que "o exército israelense está alvejando propositadamente os jornalistas, em uma política deliberada de intimidação".

São poucos os casos onde há controvérsias sobre qual lado atirou.

"Não estamos tentando machucar nenhum repórter ou membro da mídia", justificou-se na quarta-feira (10) o cônsul geral de Israel para a região da Nova Inglaterra, Itzhak Levanon. Afirmando que os jornalistas foram proibidos de entrar nas áreas de guerra para a sua própria proteção, Levanon acrescentou que "se um repórter entrar em tal área, ele estará correndo riscos... Se ele repetir tal conduta, temos o direito legal de retirar a sua credencial de imprensa. Nós o detemos e tomamos algumas medidas legais contra ele".

Bob Zelnick, que, como correspondente da ABC, cobriu vários eventos do Oriente Médio, diz o seguinte: "As regras claras são que não se dispara armas de fogo contra jornalistas em nenhuma circunstância. Os guardas nas barreiras militares podem fazer com que os repórteres insistentes retrocedam e, caso eles persistirem em violar as barreiras, podem usar força não letal para deter os jornalistas".

Richard Schultz, da Faculdade de Direito e Diplomacia Tufts'Fletcher, diz que a luta na Cisjordânia é especialmente arriscada para repórteres que entram na zona de conflito. "Trata-se de uma guerra em áreas urbanas", diz ele. "Os israelenses a encaram como se estivessem lutando por suas vidas. É difícil dizer o que os Estados Unidos fariam caso estivessem envolvidos nesse tipo de conflito".

Antes que irrompesse o conflito na Cisjordânia, a zona de guerra mais perigosa para os jornalistas era o Afeganistão. No ano passado, nove jornalistas foram mortos naquele país e, na quarta feira, um tradutor do Boston Globe que acompanhava uma equipe jornalística foi atacado por um soldado afegão que viajava junto com forças especiais norte-americanas.

Ao falar na quarta-feira na convenção da Sociedade Norte-Americana de Editores de Jornais, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, disse que, apesar dos perigos existentes no Afeganistão, "nenhum repórter teve o acesso negado a qualquer parte do país ou campo de batalha".

Em dezembro, no entanto, combatentes afegãos aparentemente aliados das tropas dos Estados Unidos, detiveram três fotojornalistas, após apontarem armas contra eles. E, em fevereiro, um correspondente do The Washington Post disse ter sido ameaçado por soldados norte-americanos que o impediram de examinar o local de um ataque feito pelos Estados Unidos. Os soldados teriam ameaçado mata-lo a tiros. (O Pentágono negou a ocorrência do episódio). Kavita Menon, coordenadora de programas para a Ásia do Comitê de Proteção aos Jornalistas, diz que, "no caso do Afeganistão, a maior reclamação contra as forças armadas norte-americanas foi que elas não prestaram muita ajuda aos jornalistas para que estes tivessem acesso aos locais onde foram travadas as batalhas". Mas, segundo ela, casos de forças estadunidenses "bloqueando jornalistas com o uso da força" foram raros.

Na Guerra do Golfo, de acordo com Schultz, o Pentágono controlou o trânsito dos jornalistas, sem, no entanto, recorrer à intimidação física. Porém, na guerra em Granada, em 1983, um correspondente da ABC que tentou penetrar um bloqueio à imprensa ao viajar de barco até à zona de guerra, foi obrigado a voltar, após um avião da Marinha dos Estados Unidos ter disparado projéteis à frente da sua embarcação. Em outros conflitos, as ameaças para silenciar os jornalistas foram ainda mais ostensivas.

Em um artigo escrito para o periódico Freedom Form's Media Studies Journal, o veterano correspondente de guerra, Peter Arnett, diz que, na América Central, os governos militares divulgavam listas de repórteres assinalados para morrer, a fim de desencorajar os jornalistas mais agressivos. Na mesma publicação, o ex-jornalista argelino, Taoufiq Derradji afirma que, na década de 90, terroristas do seu país literalmente caçaram jornalistas cujos nomes haviam sido divulgados com uma solicitação para que fossem assassinados. Dos seus dias como correspondente no Oriente Médio, Zelnick se lembra de um incidente na década de 80, quando os israelenses atiraram contra membros de uma equipe de imprensa da CBS, que se dirigia a uma área de operações restritas, no Líbano, matando os jornalistas. Após ter realizado a sua própria investigação, Zelnick conclui que os soldados judeus agiram de forma "displicente e insensível", não tendo, entretanto, alvejado "deliberadamente" os jornalistas.

O cônsul Levanon diz que Israel possui uma "política de portas-abertas". "Nós encorajamos a mídia a ir até o nosso país e cobrir tudo o que está ocorrendo no Estado de Israel", alega. Mas Virginie Locussol, chefe da Seção do Oriente Médio e Norte da África da organização Repórteres Sem Fronteiras, diz que a violência enfrentada pelos jornalistas na Cisjordânia nos últimos dias pode representar uma mudança.

"É interessante frisar que esta é a primeira vez na história de Israel em que nós realmente presenciamos tal fenômeno, essa política de intimidação dos jornalistas", diz ela.



Tradução: Danilo Fonseca

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