Assessor diz que Arafat tem pouco futuro como líder no processo de paz

John Donnelly
The Boston Globe
Em Washington

Ao final de janeiro, Edward Abington se reuniu com o líder palestino, Iasser Arafat, no escritório de Ramallah, durante mais de três horas, para dizer-lhe "porque o governo Bush não confia nele".

Abington, o assessor político da Autoridade Palestina em Washington, expôs uma longa lista de motivos, incluindo os atentados suicidas; uma alegada esnobada dos palestinos com relação aos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU), e a tentativa de recebimento de um arsenal de armas enviadas aos palestinos pelo Irã. "Ele começou a protestar, mas eu lhe disse, 'Olhe, o que quer que você queira me dizer, tudo bem, mas é importante que entenda que o que te falei é aquilo no que acreditam as autoridades em Washington", conta Abington.

A postura do governo norte-americano levou Abington a chegar a uma conclusão sombria. Perguntado sobre a possibilidade de Arafat voltar a ser um parceiro de Israel no processo de paz, Abington, o diplomata estadunidense contratado pelos palestinos devido à sua habilidade em costurar acordos, retrucou, "É possível que ele sobreviva, mas é difícil de imaginar que consiga ser de novo um parceiro no processo de paz".

A posição de Arafat caiu tanto que, hoje, ele só está acima dos dois indivíduos mais demonizados por Washington em termos de ameaça terrorista: Osama bin Laden e Saddam Hussein. Isso se deve em grande parte ao efeito corrosivo de 19 meses de atentados suicidas a bomba e à idéia de que Arafat seja cúmplice na campanha para matar civis.

O presidente Bush, ao falar do líder palestino, mal esconde as suas críticas, tendo dito no início do mês que Arafat "traiu as esperanças de pessoas que ele deveria ajudar". Nenhum membro do Congresso ousa falar a favor de Arafat. Faz muito tempo que Abington deixou de tentar faze-lo.

"Se eu simplesmente defender Arafat, ninguém vai acreditar no que digo. Eu simplesmente sei que não dá para acreditar", afirmou Abington, ex-cônsul geral em Jerusalém, de 1993 a 1997, em uma entrevista recente. "Tenho que proteger a minha credibilidade, portanto, não faço tal coisa. Acredito que a questão se tornou tão personificada em Arafat que ela tende a submergir as questões maiores sobre a ocupação e a ação israelense".

Vários analistas acreditam que a falta de apoio a Arafat em Washington poderia abrir caminho para possíveis planos do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, para expulsa-lo. O governo norte-americano, e, especialmente, o secretário de Estado, Colin Powell, que se reuniu duas vezes com Arafat recentemente em Ramallah, afirmou que Israel precisa lidar com Arafat porque ele é o representante do povo palestino. Mas outros membros do governo não falam mais nada a favor de Arafat.

Na segunda-feira, uma importante autoridade israelense disse aos repórteres que Sharon está pensando seriamente em expulsar Arafat para um outro país. Segundo o analista Geoffrey Aronson, de Washington, isso pode ocorrer em breve.

"A questão atual mais crítica em Israel é como se livrar de Arafat", afirma Aronson, diretor da Fundação para a Paz no Oriente Médio, uma instituição de Washington. "Está mais claro do que nunca para Sharon que o próximo passo é a expulsão do líder palestino. E Sharon só se sentiu encorajado pelo fracasso de Powell na sua recente missão de paz no Oriente Médio para conseguir um cessar-fogo e uma retirada de Israel dos territórios palestinos ocupados".

A queda de Arafat foi contínua e chocante. Após ter assinado os acordos de paz de 1993, em Oslo, ele, o então primeiro-ministro israelense, Itzhak Rabin, e o ministro do Exterior, Shimon Peres, receberam juntos o Prêmio Nobel da Paz. Mesmo enquanto atentados terroristas interrompiam freqüentemente as conversações de paz e o progresso era medido em passos diminutos, Arafat se tornou um visitante freqüente em Washington. Ele visitou o presidente Clinton mais de dez vezes na Casa Branca, tendo sido um dos líderes estrangeiros que mais foi recebido pela administração anterior.

Arafat também condenou o terrorismo em diversas ocasiões. Após a assinatura do pacto de paz de Wye, em 23 de outubro de 1998, um esquema interino de acordos feitos com Benjamin Netanyahu, que então era primeiro-ministro israelense, Arafat disse ao seu ex-inimigo:. "A sua segurança é a nossa segurança. Não voltaremos à violência e à confrontação".

Ele prometeu destruir a infra-estrutura do terrorismo "de forma que nenhuma mãe israelense vá ficar preocupada caso o seu filho ou sua filha demore a chegar em casa".

Atualmente, para o governo estadunidense, tais palavras são ridicularizadas, assim como os constantes pedidos de Arafat pela "paz dos corajosos".

Bush nunca o convidou para a Casa Branca - Sharon já o visitou quatro vezes - e o vice-presidente Dick Cheney se recusou a se encontrar com Arafat durante uma recente visita ao Oriente Médio. Até mesmo Powell, às vésperas da sua missão ao Oriente Médio, hesitou em dizer se se encontraria ou não com Arafat.

Abington apresentou várias questões a Arafat na reunião de janeiro. Ele começou com a inclinação de Bush para apoiar Israel, uma atitude encorajada pela direita cristã e pela maioria dos membros do Partido Republicano; um endurecimento de última hora da posição palestina, exigindo monitores internacionais em áreas palestinas sob uma resolução do Conselho de Segurança da ONU de um ano atrás, o que enfureceu bastante Bush; uma série de atentados suicidas a bomba; e uma carta escrita por Arafat, que negava ter qualquer conhecimento a respeito da carga de armamentos a bordo do navio Karine A, que foi interceptado em janeiro pelos israelenses.

"Eu disse a Arafat que a carta deixou o presidente incrivelmente furioso, porque ele pensou que o líder palestino estivesse simplesmente mentindo", conta Abington. "Muitas pessoas já me disseram que os Estados Unidos possuem os seus próprios relatórios de inteligência que provam o envolvimento palestino no caso do Karine A e que foram os iranianos que enviaram os armamentos. Eu lhe disse que há apenas dois indivíduos, além dos iranianos, com os quais seria pior que ele se envolvesse - Osama bin Laden e Saddam Hussein".

Hasan Abdel Rahaman, o representante da Autoridade Palestina em Washington, diz acreditar que a repulsa do governo norte-americano por Arafat se deve "às vantagens políticas em se apoiar Israel. É rentável ser anti-palestino. É fácil e conveniente. É uma maneira barata de levantar fundos".

Rahaman, também, tem passado por momentos difíceis. Na semana passada, ele perdeu o seu escritório na Rua K, em Washington, por ter atrasado o pagamento do aluguel. "Agora tenho que trabalhar com o meu telefone celular", lamentava ele na terça-feira, enquanto, juntamente com o seu advogado, preparava uma inscrição junto ao Departamento de Estado para abrir um novo escritório.

"O problema é que, neste momento, as vozes razoáveis da comunidade judaico-americana se calaram", diz Rahaman. "O que existe é uma espécie de consenso pelo apoio à política de Sharon. Embora muita gente discorde de Sharon e não o aprecie, quando há tal consenso na comunidade judaica, é extremamente difícil para os membros do congresso desafiarem tal posição".

Já os congressistas discordam. O líder da maioria no Senado, Thomas Daschle, ao falar na segunda-feira perante o Comitê de Assuntos Públicos Judaico-Americanos, disse que a resposta de Arafat às conversações de paz de Camp David em 2000 "não foi uma contraproposta, e sim uma violência... Se o líder Arafat não for capaz de condenar atos bárbaros que perpetuam a violência, é difícil de imaginar que ele algum dia consiga ser um parceiro para a paz".


Tradução: Danilo Fonseca

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