Repatriação de refugiados piora a condição de vida em Cabul

Brian MacQuarrie
The Boston Globe
Em Cabul, Afeganistão

Esta é a face da bombardeada capital de um país devastado: uma avó desgastada pelo tempo e a sua filha, envoltas em burcas, ambas viúvas, agachadas no solo ao lado de uma estrada, acompanhadas de três crianças descalças.

Elas possuem parentes na cidade, mas não sabem onde essas pessoas moram. Ou tampouco se estão vivas.

O grupo acabou de chegar do Paquistão, como parte de um massivo programa de repatriação. São mais cinco refugiados em meio aos 200 mil que chegaram em Cabul desde o dia sete de abril. Esse contingente populacional extra está drenando os escassos recursos de uma cidade que já não é nada funcional.

Vários bens, velhos e novos, estão espalhados em volta da família: um saco de trigo com uma bandeira americana costurada na lona. Uma dúzia de estacas recém-cortadas para a construção de um abrigo. Uma gaiola de madeira com duas galinhas barulhentas. Algumas camas. E um cesto cheio de pão coberto de fungos.

"Não sabemos o que fazer", diz a avó. O mesmo pode se dizer da precária administração desta antiga e castigada cidade, cuja população, formada em grande parte por miseráveis, aumentou para 1,8 milhão. "Esta é uma cidade onde a infra-estrutura entrou mais ou menos em colapso", afirma Yusuf Hassan, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.

Não há sistema de moradia e esgoto adequados para os 10 mil refugiados que chegam em Cabul todos os dias, afirma Kazan. Famílias inteiras se espremem em aposentos lotados; desconhecidos muitas vezes dividem a sua alimentação escassa com os recém-chegados; e refugiados que não possuem outra opção procuram abrigo em ruínas dos edifícios que foram atingidos por bombas e mísseis.

"Cabul simplesmente deixou de ser uma cidade funcional", afirma Hassan. "Ela não atende às necessidades das pessoas que já estão morando aqui".

Apesar dos tremendos desafios, as Nações Unidas e agências humanitárias criaram um mecanismo para transportar os refugiados para dentro e para fora desta cidade que, para muita gente, é apenas um ponto de trânsito para outras localidades.

Todas as manhãs, centenas de ônibus lotados de refugiados chegam de todos os quadrantes e são recebidos nas principais entradas de Cabul. Nesses locais, afegãos que retornam preenchem formulários e recebem um tipo de boas-vindas que deve ter soado como um sonho durante os anos que passaram em campos lotados de refugiados no Paquistão e no Irã.

Os recém-chegados são submetidos a exames médicos; as famílias recebem um auxílio de até US$ 100 (cerca de R$ 236), além de produtos básicos como sabão, camas, e sacos de trigo. Depois disso, todos têm a liberdade de viajar livremente pelo país. Para quase 40% dos refugiados, o destino final é Cabul.

Hazarat Khan, a sua mulher e quatro filhos, se constituem em uma dessas famílias que planejam fazer da capital um lar temporário. Um mujahedin que lutou contra os russos, mas "abaixou as armas" e fugiu para o Paquistão há 20 anos, Khan não sabe se a sua casa no campo ainda está de pé.

No lotado ponto de revista de Pul-e-Charkhi, a leste de Cabul, Khan pede a desconhecidos que intercedam junto aos funcionários das instituições de auxílio humanitário para que receba mais assistência. Ele afirma que a sua mulher e o filho de cinco anos, que tem uma infecção nos olhos, estão doentes.

"Não tínhamos o que fazer nos campos de refugiados", conta Khan. "Tudo o que tínhamos para comer eram pimentas".

Assim como a família de Khan, vários refugiados têm problemas de saúde, afirma o médico Javed Mangal, do grupo humanitário Médicos sem Fronteiras. "A maioria deles sofre de tuberculose, desnutrição e doenças infecciosas", afirma Mangal, enquanto manipula um medidor de pressão na sua clínica improvisada. "Nós lhes fornecemos uma carta de indicação para cuidados médicos".

Segundo Hassan, a ironia de Cabul no dias de hoje é que os recém-chegados geralmente são mais saudáveis do que os afegãos que permaneceram no país durante a guerra. Exames realizados por médicos como Mangal, além da vacinação para toda criança de menos de 12 anos que esteja retornando são regalias em um país onde um quarto das crianças morre antes de completar cinco anos e onde a expectativa de vida é de 44 anos.

Além disso, os riscos de morrer ou perder algum membro do corpo são grandes. Por mais precária que seja a vida em Cabul, explica Hassan, a zona rural, altamente minada, é muitas vezes mais perigosa. Como resultado, as famílias de refugiados geralmente permanecem na capital, enquanto que o chefe de família vai até a casa que foi abandonada para avaliar os riscos e determinar quais são as possibilidades para o futuro.

Para muitas famílias, no entanto, os anos passados em campos lotados de gente esquálida transformou camponeses em autênticos mendigos urbanos. Por isso, ainda que as notícias quanto às vilas rurais sejam boas, dezenas de milhares de refugiados podem decidir ficar em uma cidade que não tenha infra-estrutura para sustenta-los.

"Quanto mais tempo eles ficam por aqui, mais difícil será a situação dessa gente", afirma Hassan.

Abdul Karim, a sua esposa e os seis filhos não planejam ficar nesta cidade estrangulada pelo tráfego de veículos, repleta de estradas devastadas por bombas e altamente poluída por poeira e fumaça de automóveis. A casa de Karim, em uma zona rural ao norte da cidade, foi destruída durante a guerra civil, mas o ex-camponês consegue sorrir discretamente quando perguntamos como fará para sobreviver.

"Esta é a nossa terra", diz ele. "Deus sabe melhor do que ninguém. Encontraremos uma solução".


Tradução: Danilo Fonseca

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