Doenças cardiovasculares atacam duas vezes mais as mulheres do que o câncer

Anne Barnard
The Boston Globe

Quando os entrevistadores de pesquisas médicas perguntam às mulheres norte-americanas qual é a maior ameaça à sua saúde, elas invariavelmente dizem que é o câncer - especialmente o câncer de mama.

Mas o inimigo mais letal das mulheres é algo que a maioria das pessoas acredita ser um problema masculino - as doenças cardiovasculares, que matam duas vezes mais as mulheres do que o câncer. Somente os ataques cardíacos matam um número seis vezes maior de mulheres do que o câncer da mama, segundo a Associação Americana do Coração.

A tendência das mulheres em subestimar os riscos das cardiopatias está deixando os profissionais de saúde cada vez mais frustrados, já que se acumulam evidências de que até mesmo pequenas mudanças de estilo de vida poderiam salvar as vidas de milhares de mulheres que morrem de ataque cardíaco, derrame e outras doenças cardiovasculares - bastando apenas que elas entendessem como é urgente tomar providências nesse sentido.

"Essa lacuna na percepção acaba tendo algumas implicações muito concretas sobre a saúde", afirma a JoAnn Manson, chefe de medicina preventiva do Brigham and Women's Hospital. A maior parte das mulheres sabe que é importante fazer anualmente uma mamografia e um exame Papanicolau para a prevenção do câncer. Mas elas não percebem que a medição da pressão arterial, do nível de colesterol e de açúcar no sangue são providências que poderiam lhes fornecer sinais importantes quanto ao risco de doença cardíaca. Os seus médicos também, podem estar se concentrando mais em sintomas cardíacos e na necessidade de prevenção, quando os pacientes são do sexo masculino do que quando são mulheres.

Por isso, médicos, cientistas e outros profissionais da área de saúde estão se mobilizando para fazer frente a essa lacuna quanto à conscientização. A Associação Americana do Coração está dando prioridade a informar as mulheres sobre os riscos que estão correndo. Os pesquisadores estão avaliando como os sintomas de ataque cardíaco e os fatores que desencadeiam esses ataques se manifestam na população feminina - diferenças que podem fazer com que as pacientes e os médicos deixem de detectar um ataque cardíaco, tomando-o por uma crise de ansiedade e náusea. Dois estudos divulgados na semana passada demonstraram que as mulheres possuem mais tendência do que os homens para sofrerem de perturbações cardíacas súbitas após um episódio de estresse emocional, e que as mulheres e os homens que se dedicam a papéis não-tradicionais, tais como mulheres que são executivas dedicadas e homens que ficam em casa tomando conta das crianças, estão mais sujeitos a ataques cardíacos. E a fim de aumentar o nível de consciência em Boston, um grupo de médicos de hospitais e especialistas em primeiros socorros está oferecendo exames gratuitos às mulheres para determinar a presença de três fatores de risco para doenças cardíacas - pressão arterial elevada, altas taxas de açúcar no sangue e níveis excessivos de colesterol - até 12 de maio, Dia das Mães.

"Esperamos que a consciência leve à mudança comportamental", afirma Paula A. Johnson, cardiologista do Brigham and Women's Hospital e conselheira do Boston Heart Party, o consórcio que está promovendo os exames gratuitos.

Pesquisadores de Harvard chefiados pelo médico Meir Stampfer descobriram no ano passado que abandonar o hábito de fumar, um pouco de exercício, uma dieta saudável e o consumo moderado de bebidas alcoólicas são providências que podem reduzir o risco de ataques cardíacos em mulheres em até 83%. Mas mulheres jovens estão ficando mais obesas e fazendo menos atividades físicas.

"Esses fatores relativos ao estilo de vida são muito importantes e não estamos caminhando na direção certa", afirma Johnson.

No ano passado, mais de 4.500 mulheres se submeteram a exames com a duração de dez minutos, realizados em Boston e nos arredores da cidade, e cujos patrocinadores incluíram o maior hospital de Harvard, o Harvard Vanguard Medical Associates, e a Pfizer Incorporation, que produz medicamentos para o coração. Muitas delas descobriram fatos que não conheciam sobre a sua saúde cardiovascular.

Segundo o Boston Heart Party, 11% das mulheres que pensavam que os seus índices de colesterol eram normais, acabaram descobrindo que eles estavam, na verdade, muito altos; 18% daquelas que não imaginavam ter pressão alta ficaram espantadas com o resultado elevado demonstrado pelo teste. De posse das novas informações, 64% das mulheres disseram que planejam tomar alguma medida, tal como marcar consultas médicas, se exercitar ou modificar a dieta.

Devido ao fato de as doenças cardíacas serem altamente tratáveis e curáveis, Johnson e Manson afirmam que as mulheres não deveriam ter medo de descobrir que estão na faixa de risco - ou que já possuem doenças coronárias. "O diagnóstico precoce aumenta significativamente o índice de sucesso do tratamento", afirma Manson.

As mulheres que sabem estar correndo risco de sofrerem um ataque cardíaco também têm mais chance de tomar medidas de proteção em situações clínicas, segundo os médicos. As mulheres que experimentam um ataque cardíaco têm a possibilidade de 38% de morrer dentro de um ano, comparados a 25% no caso dos homens, em parte porque as mulheres possuem a tendência de se tratar mais tardiamente.

Enquanto que os ataques cardíacos nos homens geralmente se manifestam na forma de dor no peito, as mulheres muitas vezes apresentam dores na parte inferior do tórax, o que pode ser erroneamente interpretado como dor estomacal. E um estudo com 40 mulheres e 82 homens, divulgado na semana passada na conferência da American Heart Association, no Havaí, demonstrou que, enquanto os homens têm maior probabilidade de sofrer um distúrbio cardíaco súbito após esforços físicos, as mulheres são mais afetadas por episódios que causem estresse psicológico, como o divórcio ou um conflito familiar.

"Os seus sintomas costumam não ser levados a sério", afirma Johnson. "O modelo tradicional se baseia em procurar por sintomas causados por atividade física. Possuímos a tendência de não dar muita atenção ao aspecto psicosocial".

Um outro estudo demonstrou que as mulheres que possuem empregos exigentes, e que exercem funções de tomadas de decisão de alto nível têm uma chance três vezes maior de sofrer de doenças cardíacas do que aquelas com pouca autoridade e que realizam tarefas de baixa responsabilidade. Homens que são "donos-de-casa" também correm um risco maior, o que sugere que o estresse associado a um papel não tradicional poderia ser um fator negativo, de acordo com a diretora das pesquisas, Elaine D. Eaker.

Johnson afirma que uma prioridade dos cientistas é aprender mais sobre o papel desempenhado pelo estresse nas doenças cardíacas, o que pode levar os planos de saúde a se dispor a pagar mais pela redução da tensão nervosa, que pode assumir manifestações diferentes em mulheres e em homens. "As mulheres podem ser únicas no que diz respeito a algumas das maneiras como processam o estresse".


Tradução: Danilo Fonseca

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