Opinião: Como o processo de paz no Oriente Médio foi destruído

H.D.S. Greenway
The Boston Globe
Em Boston (EUA)

Neste momento, livros estão sendo escritos sobre o que saiu errado com o processo de paz de Oslo para o Oriente Médio, e haverá um número tão grande de teorias quanto de autores. Mas um dos mitos mais persistentes sobre o assunto é o de que Iasser Arafat teria recusado a oferta mais generosa já feita por um líder israelense e decidido retomar a luta armada.

É verdade que Arafat não aceitou a oferta israelense em Camp David, mas os palestinos não deixaram de negociar. O fato é que as negociações prosseguiram na localidade de Taba, às margens do Mar Vermelho, após Camp David, fazendo com que diminuíssem as diferenças entre as duas posições, mesmo após terem irrompido as manifestações de protesto após a visita de Ariel Sharon ao Templo do Monte. Essa rodada de negociações se encerrou quando o então primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, colocou uma pedra sobre o processo, a fim de dar início a sua campanha eleitoral. Quando Sharon, o arquiinimigo de Oslo, chegou ao poder, os acordos de Oslo morreram.

A oferta feita por Israel em Camp David foi realmente a mais generosa já feita pelo Estado judeu, mas não se tratava de uma oferta que proporcionasse a criação de um Estado palestino viável. A Palestina sugerida pelos israelenses seria uma aberração, retalhada em setores que não contariam com acesso entre si -- separadas por assentamentos israelenses, estradas para esses assentamentos e áreas controladas militarmente por Israel.

O mesmo aconteceria com Jerusalém Oriental, de onde os israelenses têm tentado obrigar os palestinos a se retirar. Trata-se de algo como se os Estado palestino fosse ganhar as pequenas manchas na pele de um leopardo, enquanto que o restante da pele do felino permanecesse nas mãos de Israel. E durante os anos dos tratados de Oslo, o número de assentamentos judeus em território palestino duplicou.

Um outro erro da parte do presidente Clinton e do primeiro-ministro Ehud Barak foi terem insistido em dizer que aquele se tratava de um acordo do tipo tudo-ou-nada, que precisaria ser assinado antes que o mandato de ambos chegasse ao fim. Teria sido melhor encerrar as negociações dizendo que tudo sobre o qual se havia chegado a um acordo estava resolvido e que as questões que permanecessem pendentes seriam deixadas de lado para serem discutidas mais tarde. Como se sabe, a onda de raiva dos palestinos que se seguiu à famosa visita de Sharon ao Templo do Monte foi encorajada por vários dos jovens líderes palestinos frustrados não só com as negociações de Oslo mas com o próprio Arafat. E Arafat preferiu não estancar esse processo quando ainda tinha condições de fazê-lo.

Mas muito antes que essas críticas negociações de Taba chegassem ao fim, o processo de Oslo já estava minado de problemas. O que os israelenses mais queriam era segurança. O que os palestinos mais desejavam era um fim à ocupação do seu Estado. E embora tenha havido algum progresso em ambos os lados, não foi o suficiente, e as duas partes se sentiram traídas.

A única condição estabelecida por Itzhak Rabin era que Iasser Arafat prometesse renunciar ao conflito armado. Arafat prometeu faze-lo e, em uma reviravolta histórica, abandonou as demandas palestinas quanto a propriedades israelenses e concordou em uma solução que envolvesse dois Estados. E, durante um certo período, os israelenses atualmente concordam, Arafat manteve a sua palavra e começou a prender terroristas. O problema da segurança nunca fora mais bem controlado.

No entanto, para Israel, tratava-se de um acordo do tipo assine-agora-e-vamos-negociar-mais-tarde, enquanto que os palestinos pensavam que estavam fazendo um negócio semelhante àquele que envolveu Anuar Sadat -- uma retirada dos assentamentos e o fim da ocupação israelense, em um ritmo acelerado.

O que os israelenses, os norte-americanos e nem mesmo Arafat perceberam foi que os adiamentos e atrasos quanto à agenda para a implementação dos acordos, e a infindável expansão dos assentamentos judeus, mostrariam ser elementos fatais para o processo de paz. A divisão dos territórios ocupados em zonas diferentes de controle palestino apenas significava, na prática, mais barreiras militares de revista, mais humilhações, e mais problemas para a economia. Um número muito grande de palestinos se tornou mais pobre, ao invés de mais próspero, além de mais importunado pelos invasores de suas terras, o que só fez aumentar o crescente sentimento de desilusão. Arafat não ajudou a melhorar a situação ao fazer uma administração corrupta e não democrática que alienou um número ainda maior de palestinos do processo de paz.

A falta de um progresso rápido significou que a tampa que havia sido colocada sobre a caixa de violência começara a ser levantada. Houve aproximadamente 36 atentados a bomba durante os anos de Oslo. Arafat pode até ter permitido que alguns deles acontecessem mas, conforme disse o presidente Clinton, "nunca houve uma fonte única de violência" nos territórios ocupados. Arafat nunca teria sido capaz de controlar cada facção armada, tão logo a opinião popular nos territórios ocupados começou a se voltar contra Oslo. Arafat necessitava de um progresso rápido rumo a um Estado palestino, o que nunca conseguiu. E os israelenses nunca tiveram a segurança que desejavam.

Quando Rabin foi assassinado por um israelense que se opunha ao processo de paz, a lentidão ficou ainda pior. O Partido Trabalhista, mais moderado, perdeu para o belicoso Likud e para Benjamin Netanyahu, que desprezava o processo de Oslo, mas que não era capaz de concorrer às eleições com base em uma campanha contra a paz. Assim sendo, ele colocou o maior número possível de empecilhos a Oslo, enquanto esteve no poder.

Durante os anos de Oslo, a partir de 1993, muito poucos palestinos achavam que o processo de paz estava funcionando a seu favor, e eles viam a traição israelense em cada adiamento, enquanto que os israelenses jamais tiveram a segurança que tinham o direito de almejar. Quando Ariel Sharon chegou ao poder, começou a desmantelar a Autoridade Palestina peça por peça, reduzindo assim a capacidade dos palestinos em manter a ordem, e, ao mesmo tempo, exigindo de Arafat que fizesse muito mais.

Os israelenses e os palestinos vão discutir para sempre sobre quem foi o culpado pelo fracasso de Oslo, mas a comissão do ex-senador George Mitchell achou falhas por todos os lados. Recentemente, Mitchell falou sobre a "falta de crescimento econômico e criação de empregos" nos territórios ocupados como sendo um dos principais fatores para o fracasso, e da "alta correlação" entre violência e uma economia em declínio através da história.

No entanto, a violência palestina fez com que os linha-duras Netanyahu e Sharon se elegessem e desacreditou os defensores da paz do lado israelense. Quanto aos israelenses, a miopia das políticas de Sharon nos territórios ocupados não reside apenas na crença de que "cada morte cria uma nova demanda por vingança", conforme afirmou Mitchell, mas em não enxergar que os índices de destruição na Cisjordânia vão criar as condições ideais para um futuro declínio econômico, que levará a mais violência.

Ao queimar a casa palestina, Sharon garantiu que o incêndio se espalhará não só até a sua própria casa, mas talvez também até os Estados árabes que reconhecem a existência de Israel.

Tradução: Danilo Fonseca

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