Fed opta por não alterar taxa de juros

The Boston Globe
Sue Kirchhoff
Em Washington (EUA)

O Federal Reserve (Fed, o Banco Central Americano) decidiu por unanimidade manter as taxas de juros no nível mais baixo dos últimos 40 anos. Com isso, deixa claro que, apesar dos sinais de recuperação da economia dos EUA, o tamanho de seu fôlego é algo incerto para os próximos meses.

A decisão foi anunciada algumas horas após o Departamento de Trabalho ter declarado que a produtividade havia crescido 8,6% entre janeiro e março. Este é o melhor desempenho do índice em quase 20 anos.

A alta da produtividade contribui para que as empresas possam crescer, ao mesmo tempo em que mantêm seus custos. Além disso, colabora para que a inflação permaneça sob controle. A inflação baixa, por sua vez, garante ao Fed uma maior margem de manobra para manter as taxas de juros baixas e assim incentivar o consumo, o investimento no setor produtivo e o crescimento total.

Mas, por outro lado, os substanciais ganhos de produtividade significam que as empresas não terão tanto incentivo para contratar novos trabalhadores. As empresas reduziram horas de trabalho neste primeiro trimestre do ano, enquanto a economia cresceu a uma taxa anual de 5,8%. Em abril o índice de desemprego chegou a 6%, o mais elevado desde o segundo trimestre de 1994.

Além disso, a base da expansão da economia neste primeiro trimestre surgiu sob a forma de um crescimento dos estoques. As firmas passaram a depender menos dos estoques já existentes de mercadorias e começaram a aproximar mais a produção das vendas.

A grande incógnita para o Fed e os economistas do setor privado consiste em saber se o ajuste dos estoques será seguido por uma necessária demanda de empresas e por investimentos de capital. Já surgem sinais de que a economia teria recuado de uma taxa crescimento de 3% para 2,5% ao ano.

"A atividade econômica recebeu um impulso considerável, proveniente de um nítido investimento em estoques", afirmou o Fed ao manter as taxas de juros de curto prazo em 1,75%.

"Mesmo assim, o grau do fortalecimento da demanda final nos próximos trimestres, que representa um elemento essencial em uma expansão econômica sustentada, permanece incerto", prosseguia a declaração do Fed.

Após ter reduzido por 11 vezes a taxa de juros no ano passado -- numa tentativa de impulsionar a recuperação da economia -- o Fed a mantém inalterada desde dezembro. O Banco Central americano declarou novamente nesta terça-feira que os riscos para a economia estão solidamente equilibrados entre a inflação e o crescimento insatisfatório. Diversos economistas do setor privado esperam que o Fed adie qualquer elevação dos juros até a metade do ano ou meados do segundo semestre.

A taxa básica de juros -- base para empréstimos concedidos a empresas e consumidores -- é de 4,75%. Taxas de longo prazo para hipotecas caíram na semana passada para aproximadamente 6,8%, o que contribui para o fortalecimento do mercado imobiliário.

Os mercados de ações, que buscaram inutilmente boas notícias nos últimos dias, reagiram de formas diversas ao anúncio do Fed. O índice industrial Dow Jones registrou alta de 28,51 pontos e fechou a 9.836,55. Em contraponto, o índice Nasdaq teve queda de 4,66 pontos e fechou em 1.573,86.

"Achei interessante que a votação (do Fed) tenha sido unânime. Ali estão alguns defensores da inflação", afirma Wayne Ayers, economista-chefe do FleetBoston Corp. "Os números de produtividade, examinados da perspectiva inflacionária, concedem ao Fed uma maior flexibilidade, tal como eles imaginavam que poderiam precisar".

Ayers e outros economistas afirmaram que a elevação da produtividade e a queda dos custos de trabalho poderiam contribuir para que as empresas registrassem maior lucro, o que também poderia incentivar os investimentos de capital. Bruce Steinberg, economista-chefe da Merril Lynch, afirmou que esperava que a produtividade permanecesse acima da média pelo resto do ano.

O presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, afirmou diversas vezes que o panorama econômico de longo prazo era favorável, em grande parte por conta dos ganhos de produtividade de longo prazo. A produção por trabalhador cresceu no final da década de 90, o que contribuiu para sustentar o boom econômico e elevar salários e padrões de consumo. Embora tenha sido registrada uma ligeira queda no primeiro trimestre de 2001, a produtividade permaneceu acima do esperado durante o período crítico da economia.

O Departamento de Trabalho declarou que, após ter registrado uma expansão de 5,5% no primeiro trimestre de 2001, a produtividade do setor industrial registrou uma expansão de 8,6% no primeiro trimestre do ano, o que representa o ritmo mais acelerado desde 1983.

As emrpesas reduziram as horas de trabalho em 1,9% durante este período. Os custos de trabalho por unidade, que refletem as alterações da produtividade e do pagamento por hora, caíram 5,4%. A produtividade industrial cresceu a um ritmo ainda mais veloz: 9,7% no total. As horas de trabalho na indústria caíram 5,9%.

Os preços de energia têm subido, mas o Fed parece mais preocupado com os altos custos em termos de consumo do que com qualquer risco inflacionário.

Tradução: André Medina Carone

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