Decisão tomada após Segunda Guerra Mundial ainda causa atrito entre tchecos e alemães

Brian Whitmore
The Boston Globe
Em Kvilda (República Tcheca)

Mais de meio século após a sua morte, o fantasma de Adolf Hitler ainda assombra os Sudetos. Essa área em formato de Lua crescente, ao longo da fronteira entre a República Tcheca e a Alemanha, se transformou de repente no epicentro de uma das disputas mais acirradas da Europa.

O primeiro-ministro tcheco, Milos Zeman, indignou os vizinhos do seu país, em janeiro deste ano, ao ter se referido aos alemães expulsos da região após a Segunda Guerra Mundial como "A Quinta Coluna de Hitler", fazendo com que o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, adiasse uma visita a Praga. Na estação de férias de Karlovy Vary, a mídia local noticiou a aparição de pôsteres misteriosos e sinistros com os dizeres: "Os Sudetos eram alemães e voltarão a sê-los".

E qual o motivo para essa áspera retórica no estilo da década de 30? Uma disputa que joga a República Tcheca contra a Alemanha e a Áustria, com relação aos Decretos de Benes, que determinou que a Tchecoslováquia pós-guerra deportasse milhões de cidadãos de etnia alemã, como retaliação ao apoio que essas pessoas prestaram ao Terceiro Reich. Dezenas de milhares de húngaros também foram expulsos do território que hoje é a Eslováquia, pelo fato de terem apoiado os nazistas.

A Alemanha, a Áustria e a Hungria estão buscando receber, no mínimo, um pedido oficial de desculpas pelas expulsões e, em uma hipótese mais drástica, gostariam de ver os decretos cancelados e as vítimas indenizadas. Alguns políticos desses países ameaçaram colocar obstáculos aos planos de Praga para entrar para a União Européia, devido à questão dos Sudetos.

Todo esse barulho vem causando uma onda nacionalista entre os tchecos. Miloslav Bendar, um político tcheco, chegou ao ponto de chamar a Alemanha, a Áustria e a Hungria de um "eixo do mal", por terem contestado o conteúdo dos decretos.

A briga demonstra que 57 anos após o final da Segunda Guerra Mundial, e mais de uma década após a queda do Muro de Berlim, a história ainda é motivo de muita controvérsia na Europa Oriental, na medida em que amargos ressentimentos, feridas supuradas e questões não resolvidas jazem ocultas nas profundezas dessas sociedades cada vez mais prósperas.

Para a maioria dos tchecos, a idéia de pedir desculpas à Alemanha, o país que invadiu, ocupou e oprimiu a antiga Tchecoslováquia, é algo que está simplesmente fora de questão. Qualquer sugestão admitindo que a Tchecoslováquia agiu de forma errada contra os alemães dos Sudetos abriria as portas para uma enxurrada de processos pela restituição de bens. Muitos também afirmam que os alemães dos Sudetos traíram o seu país e não fizeram segredo quanto a simpatia que nutriam por Hitler.

"Não vamos agir como serviçais, porque não queremos nos tornar novamente escravos", afirmou Zeman em um discurso na capital tcheca, no último domingo, na comemoração do 5 de maio de 1945, data em que Praga se sublevou contra o jugo nazista. Ele advertiu para aquilo que chamou de "surto de ódio" que viria da Alemanha, da Áustria e da Hungria.

Em 1946, o presidente Eduard Benes, da Tchecoslováquia, baixou os decretos que retiraram a cidadania, confiscaram os bens e ordenaram a deportação dos alemães dos Sudetos e dos cidadãos de etnia húngara que apoiaram os nazistas. Na época, com os sentimentos antigermânicos no seu auge, as autoridades tchecas, auxiliadas por cidadãos vigilantes, executaram a ordem com entusiasmo.

Cerca de 2,9 milhões de indivíduos de etnia alemã foram expulsos e, segundo grupos de defesa dos alemães dos Sudetos, até 267 mil podem ter sido assassinados. Os tchecos estimam que as mortes não chegaram a mais de 40 mil.

"Não dá para expulsar milhões dos seus próprios cidadãos, confiscar a propriedade dessa gente e, depois, esperar que tudo isso simplesmente desapareça da tela do radar", afirma Jiri Pehe, um analista político de Praga e assessor do presidente Vaclav Havel.

Mas muita gente na região desejaria que o assunto simplesmente desaparecesse. Na Tchecoslováquia pré-guerra, a minoria de etnia alemã que morava no país dominava a área, que é mais ou menos do tamanho do Estado de Maryland (um pouco maior que o Estado de Alagoas). Atualmente, a região pertence quase que totalmente à República Tcheca. Em Kvilda, uma vila pitoresca de 168 habitantes, rodeadas por colinas verdejantes e por espessas florestas, poucos querem desenterrar a questão.

Segundo os moradores locais, logo após a Revolução de Veludo de 1989 ter colocado fim ao regime comunista, começaram a aparecer ônibus na cidade, cheios de alemães em busca de suas antigas propriedades. Jaoslava Orsakova, que reformou uma pequena casa e a transformou em uma taverna popular, disse que os ex-proprietários alemães param ocasionalmente no estabelecimento e fazem perguntas tolas a respeito do negócio.

"Eu deixaria as coisas exatamente como estão", diz Orsakova, de 53 anos. "Qualquer outra providência só causaria problemas. São sempre os inocentes que levam a pior".

Nas eleições gerais tchecoslovacas de 1935, cerca de 60% dos 3,5 milhões de alemães do país votaram em partidos pró-nazistas. Após a Alemanha ter anexado a Áustria, Konrad Henlein, o principal político tchecoslovaco de etnia alemã, pediu que os Sudetos se juntassem ao Terceiro Reich. Nas eleições locais de 1938, o seu partido recebeu 90% dos votos dos eleitores de etnia alemã.

Segundo o Acordo de Munique, de setembro de 1938, o Reino Unido e a França concordaram com a anexação dos Sudetos por Hitler. Seis meses depois, o ditador alemão se apoderou do restante da Tchecoslováquia. Quando o exército alemão entrou no país, grandes grupos de alemães dos Sudetos saudaram os soldados, recebendo-os com flores.

Durante a ocupação nazista, cerca de 215 mil civis tchecos -- muitos deles judeus -- foram assassinados. Além disso, muitos dos oficiais, administradores, informantes e espiões do Terceiro Reich na Tchecoslováquia ocupada eram alemães dos Sudetos. A guerra deixou um amargo legado de ressentimento tcheco contra os alemães, algo que ainda perdura.

Em 24 de abril deste ano, o parlamento tcheco aprovou por unanimidade uma resolução que afirma que os Decretos de Benes são "inquestionáveis, invioláveis e imutáveis", sendo, além disso, "uma conseqüência da guerra e da derrota do nazismo". Todos os grandes partidos políticos do país, assim como Havel, aprovaram a resolução.

Mas a questão não dá mostras de que será esquecida tão cedo.

Políticos conservadores na Alemanha e na Áustria estão determinados a fazer com que a entrada da República Tcheca para a União Européia, que deve ocorrer em 2004, fique condicionada a uma solução satisfatória da questão dos Sudetos. E, embora as autoridades da União Européia afirmem que a polêmica não vá prejudicar o processo de adesão de Praga ao bloco europeu, é quase certo que a questão vá terminar nos tribunais.

Gerhard Zeihsel, líder de um grupo de defesa dos alemães dos Sudetos, cuja sede fica na Áustria, disse recentemente que a sua organização pretende entrar com processos em tribunais tchecos, exigindo a devolução de bens confiscados. Segundo Zeihsel, caso os tribunais tchecos se recusem a atender à sua demanda, o grupo vai apelar para o Tribunal Europeu de Justiça. "Não podemos mudar a história, mas podemos fazer gestos simbólicos", afirma Pehe, uma das poucas personalidades públicas na República Tcheca que pede que seja feito um pedido formal de desculpas. "Gestos simbólicos podem ter efeitos profundos".

Tradução: Danilo Fonseca

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